Os Irmãos, Israel, os judeus, os macacos e os porcos

Denunciar antissemitismo é tarefa contínua. Bom quando o jornal mais importante do mundo, o New York Times, faz parte do esforço. Reconfortante quando a denúncia está na primeira página (edição da terça-feira). E é algo explosivo quando o alvo da denúncia é a Irmandade Muçulmana do presidente egípio Mohamed Mursi. Basta desta bobagem que a imprensa liberal fecha os olhos para os perigos que acompanham as boas oportunidades da Primavera Árabe.

O artigo lista virulentos comentários antissemitas e antiocidentais de Mursi, em 2010, nos tempos em que ele era dirigente da Irmandade Muçulmana, do gênero “devemos acalentar nossos filhos e netos” no ódio aos judeus e ao sionismo. Há também os insultos do estilo que os judeus são “descendentes de macacos e porcos”, algo dito de forma trivial em mesquitas sauditas e em outras partes do mundo islâmico.

É uma postura que alimenta a narrativa em Israel sobre a impossibilidade de apostar em melhores perspectivas na região, além de acelerar de forma vertiginosa a direitização no país. A menos de uma semana das eleições, com o avanço da extrema direita, o primeiro-ministro Benjamin Netanhyau, no contexto, se torna um pilar de moderação. Em Israel, há vozes que não ficam a dever à retórica de Mursi, como a de um líder dos colonos judeus na Cisjordânia, Moshe Feiglin. Certa vez, ele disse que “nós não podemos ensinar um macaco a falar e nós não podemos ensinar um árabe a ser democrático”.

Ir no arquivo das declarações de Mursi (está tudo documentado em vídeo) faz parte de um debate no qual se levantam questões sobre os esforços do presidente egípcio para se apresentar justamente como uma força moderadora e estabilizadora no exterior, em particular na questão palestina e na preservação do acordo de paz Egito-Israel.

E aqui uma interesssante contribuição para o debate na imprensa egípcia. É um artigo publicado no jornal independente Al-Masry Al-Youm (que tem um site em inglês). Adaptei de forma marota o título do artigo para ser o da minha coluna. O autor, Mohamed Hosny, ressalta que no seu núcleo a Irmandade Muçulmana é antijudaica e a animosidade é anterior, obviamente, à criação do estado de Israel.

No entanto, no decorrer de sua história, a Irmandade Muçulmana alternou esta virulência antissemita com posições pragmáticas no conflito entre Israel e o mundo árabe. Aliás, a retórica antissemita não é privilégio de grupos assumidamente islâmicos no Egito. Tal retórica faz parte da cultura política do país e para quem tem saudades da ditadura Mubarak não custa lembrar que este discurso permeava o espaço público naqueles tempos, como válvula de escape.

Hosny acredita que não devemos nos impressionar tanto com alguns “gestos retóricos”, pois a Irmandade Muçulmana tem uma “longa história de zigue-zagues e pragmatismo”. O New York Times também elabora sobre esta questão de pragmatismo e que o presidente inclusive é visto hoje por muitos no seu país como um “colaboracionista” do Ocidente, o que neste momento impediria um recuo, mas arremata que “as declarações passadas de Mursi podem ainda levantar questões sobre como ele poderia agir no futuro se o Egito não estivesse limitado por sua dependência financeira, relativa fraqueza militar e uma rede de alianças ocidentais”.

A família egípcia merece irmãos melhores do que estes da Irmandade. Em termos estratégicos, o dilema para o Ocidente, a destacar os EUA, é até que ponto faz sentido cultivar Mursi, o dono da casa, na ausência de melhores alternativas. E na terça-feira, na esteira da reportagem do New York Times, a Casa Branca não teve alternativa e precisou “condenar energicamente” a retórica antissemita do presidente egípcio.

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Colher de chá vai para o jornal New York Times por esta reportagem. Nesta quarta-feira, inclusive foi editorial a respeito dos “comentários repulsivos” do presidente Mursi.

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