O caso do australiano e o Mossad

Por David Tabacof de Tel Aviv-18/02/2013

Sei como começa. Um jovem judeu, neste caso australiano, Alan Ziegyer, decide fazer aliá. Chega, enfrenta as dificuldade da língua, o modo de falar sui géneris do israelense, que, para quem não conhece, parece estar brigando, sente-se mais, ou menos, isolado no mundo e é tomado por forte sudades da família e dos amigos que deixou para trás. Pensa em retornar. Enquanto pensa, é convocado, como qualquer israelense, imigrante ou não, a servir no exército, o grande “melting pot” da socidade israelense. A vontade de voltar é adiada até o fim do serviço militar (3 anos). Na qualidade de soldado sem família em Israel, é “adotado como filho” por um kibutz, um velho costume israelense. Nos primeiros meses, quando tem folga, continua dormindo no kibutz. Ocasionalmente sai para se divertir. Conhece uma garota israelense com quem começa a namorar. Ainda mora, oficilamente, no kibutz, mas passa dias, ou semanas, sem aparecer. Quando acaba o serviço militar, já não esta no kibutz. Vive com a namorada num pequeno apartamento. Decidem casar. Está trabalhando. Onde, ninguém sabe, nem deve saber já que passou nos exames e foi aceito pelo Mossad. Seu trabalho, ele sabe, é perigoso, mas para um jovem imigrante é realização de um sonho. Entende, após passar pelos cursos intensos que faz nas dependências da organização, que trabalhar como agente de uma das organizações de espionagem mais famosas e eficientes do mundo, inclue perigo de vida e terá que manter o mais rigoroso sigilo sobre tudo o que faz. Detalhes, nem a família pode saber. Tem conhecimento que poderá estar a maioria do tempo fora de Israel. Isto a família pode saber. Onde, jamais. Pode estar em algum país europeu, num longínquo país asiático ou aqui perto, em Beirute ou Damasco ou mesmo em Teerã. Ninguém sabe, nem deve saber. É da natureza do trabalho. No kibutz onde morou já o esqueceram. Afinal era mais um morador temporário dos muitos que passaram por lá e que poderia bater asas a qualquer momento. Como a maioria, nunca mais deu notícia. Salvo com os poucos amigos que fez, israelenses e compatriotas, Alan Zigyer leva uma vida solitária. Pouco se comunica. Em Israel, todos aprendem a não fazer perguntas indiscretas quando um jovem desaparece de circulação, mas a família, quando perguntada, diz que ele está bem. Ninguém estranhou muito, afinal casou e parece ter perdido o interesse em ir à praia ou tomar uma cerveja no pub que costumavam frequentar com a turma 6as. à noite.
Sobre sua vida de casado, pouco veio a público. Soube-se apenas, que sua mulher é israelense, com a qual tem 2 filhos.
Sua família, muito judia e sionista, na Austrália fica sabendo que estava trabalhando em algo secreto em Israel. Provavelmente, ficariam orgulhosos se soubessem em que, mas frustrados por não poder contar detalhe algum nem aos amigos mais próximos. O respeito da trabalho de Alan, teriam que manter a boca fechada. O que para seus pais é uma pena, sendo tão ativos na comunidade judaica local. O tempo foi passando. Dois, três, quatro anos já trancorreram e Alan já é pai de dois filhos sabras.
Numa noite chuvosa, da semana passada, um membro do kibutz onde morou entra afobado na sala de jantar coletiva, e conta que a TV havia dado em seu noticiário das 20hs: “Revelado que um jovem judeu autraliano cometeu suicídio na prisão. Fontes confiáveis dizem que trabalhava no Mossad”. Quando seu nome e, mais tarde, sua foto, foram divulgados, o kibutz ficou abalado. “É aquele australiano louro que morou no kibutz há alguns anos, durante seu serviço militar.” A esta altura, em Israel todos já sabiam que um prisioneiro sem nome, agente do Mossad, (na prisão era conhecido por X) havia cometido suicídio na prisão. Um agente do Mossad comete suicídio na prisão? Será possível? Como é normal em Israel, as especulação fervilharam. Teria traído? Tornara-se agente-duplo? Neste pequeno país, um caso como este toma conta do país em pouco tempo. Com a imposição de censura militar sobre o assunto, o suspense aumentou. E por isto, pouco se sabia além da prisão e do suicídio de um detido conhecido pelos guardas por prisioneiro X. John Le Carré não poderia inventar uma história melhor. E era autêntica.
Com o passar dos dias, sem saber sequer o nome do suicida, a pressão da mídia tornou-se insuportável. Para a mídia não há nada pior que meia notícia. No Knesset, deputados pedem a formação imediata de uma comissão de inquérito.
Sem alternativa, os órgãos de segurança começam a fornecer mais dados. Trata-se de Ben Zyegier, imigrante (olé hadash) autraliano, que trabalhava realmente no Mossad e havia cometido suicídio. A sopa no fogo começa a derramar dos lados da panel de tanto ferver.
Revela-se que um acordo com a promotoria fora conseguido por seus advogados e que sua pena ficaria, a critério do juiz, entre 10 a 20 anos de prisão. Pouco, para crimes, que se supõe, puseram a segurança do país em perigo.
Quando tudo parecia acertado, sem que o público soubesse qual foi o seu crime, o prisioneiro comete suicídio na banheiro da cela. Novas dúvidas aparecem. Afinal, no tipo de cela em que se encontrava seria praticamente impossível suicidar-se. As autordades prisionais recusaram-se a explicar como Alan conseguiu se enforcar naquela cela tão controlada e construída, exatamente, para evitar o suicídio. Não extamente, por pena do prisioneiro, mas porque em muitos casos é imprescinível a continuação do interrogatório e/ou sua presença na hora da sentença final. Morto e enterrado, o caso pode seguir o mesmo caminho. Se a investigação não está completa, é problema. O fato é que, apesar de todas as medidas de segurança na cela, um suicído foi cometido. Para o leitor entender: Segundo a TV de Israel, que esteve na cela e filmou, há 3 câmeras ligadas todo o tempo. Uma em cada parede lateral da cela e mais uma no banheiro. Sendo que a última, a fim de preservar um mínimo de privacidade, só transmite trancorridos mais de 50 segundos e o prisioneiro não saiu. Até sensores de respiração existem na cela e no WC. Se a respiração pára por mais de 40 segundos, um alame é disparado. Teoricamente, portanto, o suicído é impossível. Uma testemunha que esteve presa na mesma cela, entretanto, declarou que até o cano que liga o chuveiro à parede é de plástico que não aguenta mais de 15 kilos de peso. Lembrou que o maior problema do suicida potencial é encontrar onde apoiar a corda. Portanto, para ele, a tese de suicídio não se sustenta.
Chama Le Carré ou Agatha Christie com urgência. Ninguém está entendendo nada. Um jovem judeu, imigrante da Austrália, se suicida numa prisão de Israel. E para tornar o caso mais eletrizante, dizem que era agente do famoso Mossad.
O Ministro do Exterior em Camberra protesta, na TV de seu país, contra o uso de passaporte australiano em missões de espiomagem de Israel. E não pela 1ª vez.
Quando escrevo, 19/02/13, pela manhã, a tese do suicídio está sendo posta em dúvida. Mas, mesmo se aceita, qual a razão de ter-se mantido segredo da prisão e do suicídio por mais de 2 anos? E, principalmente, o que fez Alan Zeyger. Qual o seu crime?
Curiosamente, dizem os oficias, sua família daqui e da Austrália receberam a notícia, na época da morte, sem maiores perguntas nem comentários públicos. Talvez lembraram que Alan trabalhava no Mossad. Seu corpo foi enviado a Melboune a pedido dos pais e lá foi sepultado no cemitério da comunidade local.
A TV de Israel mostrou seu túmulo: Mármore polida, negra. As inscrições na parte perpendicular são douradas e escritas em inglês. Grande parte do caso continua envolta em mistério. Esta novela triste, entretanto, deve continuar por mais algumas semanas.

Colaboração enviada pelo próprio autor ao SIB e-News.
Você também pode colaborar enviando seu texto por e-mail para sib.e.news@gmail.com

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