Comentário da Semana – Parashat Ki Tissá

Rabino Uri Lam

Parashá Ki Tissá

Rabino Uri Lam, SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Meio Shékel, Um Povo, Duas Tábuas da Lei

A parashá Ki Tissá começa com um pedido de Deus para que Moisés recolhesse dos israelitas a doação de meio shekel por pessoa a fim de realizar o censo do povo e ao mesmo tempo recolher fundos para a construção do Mishcán, a Morada Divina.
Normalmente, quando pensamos em contar pessoas, começamos simplesmente por apontar para uma por vez até contá-las todas. Por que Deus ordenou a Moisés que fizesse esta contagem através de meio shekel – o que seria hoje como, guardadas as proporções, recolher R$ 5,00 de cada pessoa para contar o grupo?

Outra coisa: quando pensamos na construção de um santuário, de um templo, de uma sede comunitária de grande porte como a que estamos construindo na Bahia, temos a tendência a pensar que somente devemos recorrer aos mais ricos para construí-la; afinal, de que vale alguém que poderia contribuir com pouco dinheiro?

Em uma única passagem a Torá desmonta o argumento de que quem tem mais dinheiro vale mais do que quem tem menos dinheiro numa comunidade e de que somente dos mais ricos se espera contribuição para obras de grande porte.

“O rico não dará mais e o pobre não dará menos do que meio shekel” (Êxodo 30:15). Se Moisés fosse fazer o recenseamento do povo de modo direto, por onde começaria? Por quem ele começaria? Do presidente da comunidade até os escravos? Dos mais velhos até os mais jovens? Dos homens antes e das mulheres depois? Por onde quer que Moisés comece haveria diferenças, haveria hierarquias.

Mas com a orientação Divina de contar o povo através de meio shekel por cabeça, as hierarquias desapareceram. O político de carreira não é mais importante do que o zelador do prédio; o empresário bem sucedido vale tanto quanto a professora do jardim de infância. O jovem empreendedor é tão importante quanto o lojista tradicional. Em resumo, a mensagem dada por Deus é de que, numa comunidade, todos têm o mesmo valor, todos e todas são importantes, todos podem e devem contribuir para a construção do seu templo, da morada Divina, da sua nova sede social, religiosa, cultural.

Mas será que se todos doarem o mesmo não se estará perdendo a chance de receber mais dos mais ricos e assim ter mais chances de terminar a obra?

Em primeiro lugar, o conceito de cobrar o mesmo de cada um nesta porção da Torá vale somente para contar o povo. Para o grosso da construção da Morada Divina, quando foram pedidas doações aos israelitas, cada um deu conforme as suas possibilidades. Quem tinha mais doou mais, quem tinha menos doou o máximo que tinha para doar.

Vivemos hoje novos modelos de arrecadação de recursos que estão democratizando, revolucionando e alavancando projetos sociais, culturais e religiosos no Brasil todo: são os chamados “crowdfundings” ou projetos de arrecadação coletiva de recursos. Há cerca de um ano o jovem Ariel Tomaspolsky fundou o site Tzedaka, que visava arrecadar quantias variadas de pessoas de todo o país para projetos bem específicos. Havia quem desse R$10, havia quem desse R$ 2.500 ou mais. O trabalho deu tão certo que Ariel se uniu a outras iniciativas e foi criado o site WWW.juntos.com.vc, que com a arrecadação coletiva alavancou ainda mais projetos sociais e culturais por todo o país.

***

Nossa parashá fala das primeiras e das segundas tábuas da lei. As primeiras, escritas diretamente por Deus, perfeitas, ideais, foram arremessadas ao chão por Moisés, nosso Mestre, nosso maior Mestre. Por quê? Porque Moisés viu que uma lei ideal não servia para um povo comum, que como todo povo tem suas inseguranças e, nos momentos de aperto, procura bezerros de ouro e outras ilusões sobre as quais se apoiar. O bezerro de ouro representa as promessas vazias, a venda de um paraíso sem nenhuma garantia de entrega. Deus ordenou a Moisés que escrevesse de próprio punho as segundas Tábuas da Lei. Moisés o fez. Uma nova tentativa, humana, imperfeita, poderia dizer mais aos corações de seres humanos. A Torá, afinal de contas, foi feita para seres humanos, não para anjos. E assim foi, e esta é a nossa Torá. As segundas tábuas. Não as primeiras.

Conta-se que quando o povo de Israel seguiu pelo deserto carregando a arca sagrada, dentro dela levavam as segundas tábuas da lei, inteiras, humanas, escritas por Moisés; e junto com elas as primeiras tábuas da lei, divinas, aos pedaços, escritas por Deus. Quando levantamos a Torá na sinagoga, durante a leitura do texto sagrado, dizemos que “Esta é a Torá que Moisés colocou diante dos filhos de Israel: conforme a fala de Deus, pelas mãos de Moisés”.

A Torá que temos é humana, são as segundas tábuas escritas por Moisés. Conforme está escrito no último livro da Torá, “Ló bashamáim hi”, ela não está no céu. A Torá está na terra, ditada por Deus, mas escrita por seres humanos para seres humanos.

***

Que tenhamos claro na nossa comunidade que cada um de nós é valioso, igualmente, independentemente de nossas origens, de nossa condição socioeconômica, da idade ou seja lá o que for. Tenhamos claro que todos nós podemos e devemos contribuir para o término das obras da nossa nova sede, que será o nosso templo, a nossa sinagoga, o nosso centro comunitário. Cada um conforme as suas possibilidades. E que entendamos que assim como a Torá que temos acesso é a Torá de Moisés, as segundas tábuas e não as primeiras, entendamos também que o bom é melhor do que o ótimo, que uma mãe e um pai suficientemente bons e que se fazem presentes valem mais do que pais e mães ideais, mas ausentes.

Meio shekel; todos somos valiosos; a Torá foi ditada por Deus, mas foi escrita por Moisés, um ser humano, para nós, seres humanos.

Shabat shalom

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