Drashá da semana: Parashat Vaicrá

Rabino Uri Lam

Vaicrá – março de 2013 / Nissan 5773
Al sheloshá devarim haolam omed: Al Hatorá, veal haavodá, veal guemilut chassadim.
O mundo existe graças a três coisas: A Torá, o serviço religioso e os méritos dos bondosos.
(Pirkê Avot, Ética dos Pais 1:2)

Entramos no mês de Nissan, o ano novo bíblico por excelência: o Ano Novo da Liberdade. No relato bíblico, é o tempo em que o povo de Israel deixou para trás a opressão e o trabalho escravo no Egito e partiu para a peregrinação coletiva rumo à terra de seus antepassados. Desde um ponto de vista físico, a caminhada poderia ter durado uns poucos meses. No entanto, levou uma geração inteira: quarenta anos pelo deserto. Era preciso mais do que caminhar para se libertar do Egito e alcançar a Terra da Liberdade; era preciso se libertar da escravidão espiritual, deixando para trás tudo o que oprimia corações e mentes.

Por um lado, a peregrinação pelo deserto significa, simbolicamente, distanciar-se de tudo o que vem junto com a vida escrava: o trabalho forçado, a corrupção com o objetivo de conseguir condições melhores de vida, a sobrevivência sem sentido. Para em seguida caminhar em direção a uma vida de valores éticos, de respeito e amor ao próximo.

A leitura que abre o terceiro livro da Torá, Vaicrá (Levítico), descreve os diversos tipos de sacrifícios que deveriam ser feitos pelo povo de Israel junto ao altar do Mishcán, a Morada Divina. Não é difícil de imaginar que estes sacrifícios eram semelhantes aos sacrifícios de outros povos, realizados com o propósito de saciar a fome ou os desejos de suas divindades. Poderíamos pensar que também este era o objetivo do nosso Deus: convocar o povo de Israel a saciar a Sua fome, os Seus desejos. Mas ao lermos os Salmos 50, vemos uma outra intenção por parte de Deus: “Ouve, Meu povo, e Eu falarei… Não te repreenderei pelos teus sacrifícios ou holocaustos… Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. Comerei eu carne de touros? ou beberei sangue de bodes? … Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás.”(Salmos 50:7-15)

Em vez de oferecer sacrifícios, o que se espera do indivíduo é oferecer o reconhecimento sincero de que errou e o desejo voluntário de realizar o processo de teshuvá: o longo processo de abandonar o seu Egito pessoal, cruzar o deserto, afastar-se de tudo o que lhe faz mal e do mal que faz aos demais – e retornar à terra dos seus antepassados, na qual jorram idealmente o leite e o mel. Em outras palavras, o objetivo é seguir, através de ações práticas, o exemplo dos chassadim, homens e mulheres bondosos.

No Midrash, Rav Assi (em Levítico Rabá 7:3) dizia que as crianças não deveriam começar o seus estudos de Torá a partir do Gênesis, mas sim do Levítico. A justificativa era que por serem puras, as crianças deveriam iniciar seus estudos pela descrição dos sacrifícios de animais puros. Em uma leitura literal, causa-me espanto imaginar que em vez de as crianças se iniciarem na Torá com as imagens puras do Jardim do Éden, que representam de algum modo a infância do universo e da humanidade, que em vez disso comecem a partir do estudo do sacrifício de animais. Mas no mesmo Midrash, Rabi Aha dizia que o estudo dos sacrifícios equivale a oferecer concretamente os animais em sacrifício. Podemos perceber em nossos sábios um processo progressivo de conscientização de que o aspecto simbólico tem a mesma força religiosa que o processo concreto – e mais, de que este processo é a evolução necessária para sairmos do pensamento concreto e literal e avançarmos para o pensamento simbólico.

Por este ponto de vista, podemos entender um pouco melhor por que era recomendado às crianças iniciar seus estudos da Torá pelo livro do Levítico: assim como no desenvolvimento da criança esta passa do pensamento concreto para o pensamento simbólico, do mesmo modo o estudo dos sacrifícios poderia ajudá-la a avançar para a compreensão dos valores éticos da Torá de maneira simbólica e, assim, seguir através de ações práticas os exemplos dos homens e mulheres bondosos.

A época de Pessach é propícia para isso: é o tempo de nos libertarmos da escravidão da compreensão literal e concreta da Torá e da vida e de buscarmos a liberdade através da oração, de pensamentos e sentimentos que nos guiem em direção a atos de bondade e de amor ao próximo.
Um grande abraço a todos e a todas, e feliz Mês da Liberdade!
Rabino Uri Lam

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