Dachau: onde o terror nazista fez escola

No dia 22 de março de 1933, menos de dois meses após a chegada de Hitler ao poder, foi criado nos arredores de Munique o primeiro campo de concentração da Alemanha nazista, que viria a servir de modelo para outros.
Heinrich Himmler noticiou o fato com todas as pompas: então diretor da polícia de Munique e dirigente da SS, ele anunciava à imprensa, em 20 de março de 1933, a fundação de um campo de concentração em Dachau, nos arredores de Munique. Dois dias depois, começaram a chegar os primeiros 150 prisioneiros.

No chão de concreto de uma antiga fábrica de munições, protegidos do frio apenas por uma colcha fina, os prisioneiros passaram ali uma primeira noite até que montassem, eles próprios, suas camas e novas barracas. Quase ninguém imaginava naquele momento que Dachau se transformaria num modelo de um sistema de campos de concentração disseminados pelos nazistas nos anos que se seguiriam, tanto na Alemanha quanto em outros países da Europa.

País tomado pelo terror

A Alemanha encontrava-se desde o 27 de fevereiro de 1933 num estado de exceção. Naquele dia, o Reichstag havia sido incendiado por um comunista holandês, fato que afundou o país numa onda de medo de uma insurreição comunista – um temor fomentado pelos nazistas. Nas ruas reinava um estado de terror, pois o presidente do Reich havia suspendido os direitos fundamentais.

Mas foi Hermann Göring, o segundo homem na hierarquia nazista, que tomou a decisão de criar campos de concentração. Esses campos iniciais eram improvisados e ainda mantinham o caráter de prisões. Ao lado de Himmler e Reinhard Heydrich, um funcionário próximo, Göring era responsável pela perseguição de opositores políticos.

Os opositores passaram a ser perseguidos pelas unidades da SA (Sturmabteilung, o Departamento de Assalto). A caça era contra comunistas, social-democratas e qualquer pessoa que pensasse diferente da ideologia nazista. As vítimas eram presas em porões, prisões e nos campos de concentração, onde eram torturadas.

Os primeiros prisioneiros de Dachau também eram oposicionistas, chamados de “prisioneiros de proteção”. Entre a população, já circulava a máxima de que quem falasse mal dos nazistas em público correria o risco de ir parar no campo de concentração. “Se você não ficar quieto, vai acabar indo para Dachau”, dizia-se na época.

“Soldados políticos”

No início, os postos de vigilantes do campo eram ocupados por policiais. Isso mudaria, no entanto, em 11 de abril de 1933: a partir daquele dia, os oficiais da SS assumiriam oficialmente a responsabilidade pela vigilância dos prisioneiros. Um líder da SS alertou previamente seus subordinados: “Quanto mais acabarmos com esses porcos, menos precisaremos alimentá-los”. Já no dia seguinte aconteceram os primeiros assassinatos.

Os membros da SS celebraram a nova tarefa. Embriagados, torturaram os prisioneiros. No fim do primeiro dia, haviam matado quatro detentos judeus. Naquele momento, primórdios da ditadura de Adolf Hitler, a Justiça ainda funcionava. O Ministério Público entrou no caso e passou a investigar as denúncias de homicídio. Mas não houve condenação: os algozes envolvidos contavam com a proteção de Himmler.

Em junho de 1933, Himmler nomeou Theodor Eicke, da SS, para o cargo de novo comandante do campo. Ele incitava seus subordinados a cometerem atrocidades. “Tolerância significa fraqueza”, era seu lema. Aos vigilantes da SS, ele insistia que estavam cumprindo apenas suas obrigações como soldados. “Somos soldados políticos e, como tais, a guarda pessoal do Führer”, dizia Eicke, que acabou por aperfeiçoar ainda mais o terror dos prisioneiros do campo.

Uma “diretriz de disciplina e penalização” determinava as medidas a serem tomadas: falta de comida, cela solitária, espancamento e também pena de morte. Os homens da SS maltratavam os prisioneiros, obrigando-os aos mais árduos trabalhos e submetendo-os a experimentos médicos. Ou os matavam. Em 1941, foram fuzilados ali milhares de prisioneiros de guerra soviéticos. Foi em Dachau que o terror nazista e a violência contra os prisioneiros se transformaram num sistema que seria disseminado pelo continente.

“O trabalho liberta”

Oficialmente, a meta da SS era a “educação” dos prisioneiros. Através de uma disciplina rígida e de trabalhos árduos, eles deveriam ser “ressocializados” de acordo com os critérios nazistas. Himmler ficou impressionado com a capacidade de Eicke como organizador do terror. Este faria rapidamente carreira no aparato do Estado nazista: em 1934, foi nomeado “Inspetor do Campo de Concentração e Líder da Associação de Vigilantes da SS”. A ideia era transformar o campo de Dachau em campo de formação para vigilantes da SS. A ampliação do campo também serviu de exemplo para outros.

Também as diretrizes internas dos prédios, bem como aquelas dos trabalhos forçados no campo, além das estruturas de administração e comando, serviram de exemplo para outros campos de concentração. Mas sobretudo o inclemente “espírito de Dachau”, como o denominaria mais tarde Rudolf Höss, comandante do campo de Auschwitz-Birkenau, é que viria a fazer escola. E não por acaso a frase cínica “o trabalho liberta”, que viria a ser vista mais tarde em quase todos os campos de concentração, veio de Dachau.

No dia 29 de abril de 1945, as Forças Armadas americanas libertaram Dachau. Aproximadamente 15 mil prisioneiros, mesmo famintos, sobreviveram ao fim da guerra. Durante quase todos os 12 anos do “Terceiro Reich”, o campo foi usado como local de tortura pelos nazistas. Cerca de 200 mil pessoas de toda a Europa foram ali confinadas. Em torno de 40 mil foram mortas – o equivalente à atual população da cidade de Dachau.

Autoria Marc von Lüpke-Schwarz (sv)
Edição Rafael Plaisant
© Deutsche Welle

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