Drashá: Pessach ─ inspiração e transpiração

Rabino Uri Lam
E o Eterno criou o ser humano, pó da terra, e insuflou em suas narinas a alma da vida (Êxodo 2:7)

Diz o ditado que o sucesso é feito de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Quando boas ideias vêm à mente, que podem tornar as nossas vidas melhores e o mundo um lugar melhor, a estas ideias costumamos dar o nome de “inspiração”.
A inspiração parece um milagre. Diferente das ocorrências naturais, uma experiência única. Como se diz, é pegar ou largar ─ e tantas vezes a inspiração vem e nós a largamos, porque levar adiante os valores de uma inspiração pode gerar anos e anos de transpiração.
Estamos já na semana de Pessach. Na semana passada escutei nas rádios israelenses o quanto, ironicamente, os dias que precedem a Festa da Liberdade são os que mais “escravizam”: é tempo da faxina, de limpar a casa nos detalhes, preparar uma quantidade insana de comida, encontrar aquela receita de guefilte fish e encontrar quem a prepare – e livrar-se de tudo o que nos escraviza: roupas que não usamos mais, móveis cujo uso foi abandonado faz tempo, além, é claro, do chametz, todo alimento impróprio para os dias de Pessach. Muita transpiração é necessária para permitir que a casa respire novamente, mais leve e renovada.
Depois de 400 anos de escravidão, de gerações das quais se exigiu enorme esforço físico na construção de monumentos dedicados à matéria e à morte – como as pirâmides, que não eram outra coisa que gigantescos túmulos ─, eis que surge Deus e “lembra-se de nós”. Com o pouco de forças espirituais que ainda restava ao povo de Israel no Egito, nossos antepassados foram capazes de inspirar o fôlego divino, o que os permitiu deixar o mundo tão árido e seco das enormes construções e dos monumentos à morte, e partir para o resgate da vida plena, cuja promessa era um dia ser alimentada por lei e mel. Uvacharta bachaim, a escolha pela vida é um pedido, um conselho e uma ordem divina.
No entanto, somente inspiração não basta. Em uma noite de lua cheia no dia 14 de Nissan, um anjo de Deus passaria pelo Egito para matar todo primogênito e mostrar aos egípcios que somente Ele é Deus, o Senhor de tudo. Pela manhã, este dia já estaria na memória de todas as gerações até os nossos dias.
Agora entra a transpiração: “Este dia… festejarão como Festa ao Eterno: por suas gerações vocês o festejarão para sempre. Por sete dias comerão matzot, mas no primeiro dia tirarão o fermento das suas casas” (Êxodo 12:14-15)
Nós não festejamos Pessach somente para nós. Nós festejamos por nossas gerações e pelas que virão. Para que elas também inspirem o fôlego divino, inspirem-se na experiência de seus antepassados, para que elas também transpirem e se esforcem para se libertar de tudo o que fermenta, infla e ocupa espaço desnecessário em suas vidas.

Chag Pessach Sameach!

Rabino Uri Lam

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