Parashiot Mechubarot – Acharê Mot-Kedoshim

Rabino Uri Lam

Existe vida após a morte?

Quando a vida era um paraíso, para Adão e Eva a morte não era uma preocupação, pois a vida na terra parecia eterna. Então veio a consciência da própria nudez, dos limites e da fragilidade do corpo. Corpo que precisa ter elasticidade para se abrir ao nascimento de outro ser, forte para arar a terra, corajoso para encarar o envelhecimento e sereno para lidar com a morte inevitável.

Perceber os próprios limites nos traz a consciência de que, com o tempo, o corpo perde elasticidade e força muscular, a pele fica menos brilhante e macia, aparece uma dorzinha aqui, outra ali. Também os reflexos dos sentidos se tornam menos precisos, para alguns a memória fraqueja e o raciocínio pode se tornar menos ágil. Por outro lado, experimentamos uma mente mais aguçada e madura; a vivência nos dá a oportunidade de lidar com desafios tidos como intransponíveis na juventude. Enquanto o corpo perde vigor, a alma se fortalece. Talvez por isso, sabiamente, nossos sábios nos indicaram uma oração pela manhã. Modê (Modá) Ani, pela qual agradecemos pelo retorno da alma, que é o que realmente nos dá a vida no sentido mais amplo. Ainda mais nos dias atuais, em que o culto ao corpo é tão forte, somos lembrados a cada manhã que é a alma quem nos dá o caminho e o sentido da existência como seres humanos.

O escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu um livro em que relata o Encontro Marcado com a morte. Na tradição judaica, conta-se que o Rei Salomão viveu alguns anos a mais graças à sua habilidade de enganar o anjo da morte. Conta-se também que um certo rabino começou a chorar de soluçar ao perceber que seu encontro com a morte estava próximo. Seus alunos ficaram muito incomodados e perguntaram: “Rabino, por que você chora tanto? Por que tanto sofrimento? Afinal, você sempre foi um homem justo e bondoso, somente coisas boas o aguardam no mundo vindouro!” E o rabino respondeu: “Não choro porque a morte se aproxima, mas choro porque só neste mundo posso cumprir mitsvot, só aqui tenho a oportunidade de cumprir a vontade de Deus – e não terei mais como cumpri-la depois que morrer”.

Embora tenhamos muito a aprender da tradição judaica a respeito da morte e da vida após a morte no mundo vindouro – o Olam Habá – a verdade na maioria dos casos é que o tema perturba a muitos de nós porque lá no fundo, se não sabemos nem como será o dia de amanhã, imaginem como podemos ter ideia do que será de nós após a morte. E se não houver nada depois da morte, se não houver amanhã? É perturbador. Muitos optam por nem pensar nisso – como se ainda vivêssemos a vida eterna de Adão e Eva.

Entre as diversas formas de organizar a leitura semanal da Torá, a leitura da porção semanal “Acharê Mot” (Após a Morte) vem antes da leitura de “Kedoshim”(Santos). A primeira cita o que aconteceu após a morte de Nadav e Avihu, dois dos filhos de Aharon, que morreram após oferecerem um “fogo estranho” a Deus. Na seguinte lemos que Deus ordena a Moisés para que fale ao povo: “Diga a eles: Vocês serão santos, porque Eu, o Eterno seu Deus, Sou Santo”.

Os mais afoitos poderiam imaginar que, após a morte, todo mundo vira santo. Depois que o indivíduo se foi, dizem, ficam as boas ações, os elogios, as obras de caridade que ninguém sabia que ele ou ela fazia, todo mundo que ajudaram, as palavras de estímulo, os momentos de heroísmo e de bondade irrefutáveis, dignos do mais humilde dos seres. Ninguém roubou, ninguém enganou, ninguém falou mal dos outros. Morreu, virou santo. Mas suponho que não é disso que a Torá esteja falando.

O primeiríssimo ponto a cumprir para sermos santos é: respeitar a mãe e o pai. Conta um midrash que os filhos de Aharon não morreram por oferecer incenso a Deus – uma prática religiosa supostamente estranha à de Israel. Nadav e Avihu teriam morrido por desrespeitarem seu pai, por quererem vê-lo morto para finalmente ocuparem o seu lugar como sumo sacerdotes. Segundo o midrash, Deus percebeu e os advertiu: “Vocês querem enterrar o pai de vocês? Veremos quem enterrará quem”.

Reverenciar, respeitar, honrar a mãe e o pai: o primeiro mandamento para sermos santos. Não à toa, dizem alguns, o mandamento de honrar pai e mãe é representado nas Tábuas da Lei em paralelo ao mandamento de honrar a Deus.

Na parashá Kedoshim, quando Deus nos ordena que sejamos santos, encontramos uma das mais belas mitsvot em toda a Torá: “Veahavtá lereachá camôcha”, ame o teu semelhante como a si mesmo.

Se há vida após a morte – eu não tenho ideia. Mas se houver, esta será santificada somente se na vida antes da morte formos capazes de amar cada ser humano com o mesmo amor com que somos capazes de amar a nós mesmos.

Shabat shalom

Rabino Uri Lam

SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

5 pensamentos sobre “Parashiot Mechubarot – Acharê Mot-Kedoshim

  1. Parabens rabino…apreciei muito a explicação desse texto…Sempre me perguntei se era somente por esse motivo que os filhos de Arão foram condenados pelo Eterno…não que fosse pouco desrespeitar uma ordem de D´us…vale dizer…adentrar ao Sagrado com fogo não permitido…mas eles proprios estavam contaminados e não há como chegar até HaShem dessa forma…Todá!

  2. Eu estava como acompanhante de meu pai, que contava 97 anos, em hospital. Passando mal por sua enfermidade, seus órgãos já não respondiam ao tratamento; foi conduzido à UTI. Fiquei aguardando em sala contígua, Havia um grande silêncio, postei-me em oração, repente sentí materialmente uma energia, uma presença de alguém me tocando. Apesar de estar só não me assustei, permanecí calmo, mas em oração. Tão logo e em seguida deste fato o médico veio informar que meu pai tinha falecido.

  3. Rabino, essas duas parashot me fez refletir que podemos nos tornar santos ainda NESSA vida quando respeitamos nossos pais (em primeiro lugar); quando tomamos consciência das limitações e potencialidades inerentes a qualquer ser humano e assim compreender de forma mais justa as fraquezas do outro. É o exercício de poder enxergar, escutar, respeitar e ajudar mesmo que esse não defenda as mesmas concepções ideológicas e /ou religiosas que defendemos e acreditamos. Shavua Tov!!!!!

    • ser santo é buscar seguir os mitzvot do Eterno de Yisrael com kavanah. Mesmo sendo falhos tentamos um relacionamento diário com Deus e Ele BENDITO SEJA! Na Sua Infinita Misericórdia nos permite fazer as nossas orações, rezas diárias.
      lembrando também que homens como Avraham, Isaac e Jacob foram falhos e e pela Misericórdia Divina são mencionados na Torah como homens justos e tementes,assim como o o rei David que cometeu um erro grave que todos sabemos. PORTANTO, o nosso dia a dia deve ser buscar este relacionamento com Deus tentando sempre acertar o alvo.E quando falhamos pegamos a fecha e voltamos a direcionar o alvo para acertar,
      buena semana

  4. amar ao próximo como a nós mesmos: fazendo com o próximo o mesmo que queremos que seja feito conosco. Muitas vezes é muito difícil mais devemos tentar e tentar até que possamos diminuir e o amor ao Eterno seja mais forte que a traição, a injustiça entre outras ações que as vezes nos atinge. Que O ETERNO DE YISRAEL NOS GUARDE DO LASHON HARÁ que sempre fere, comete injustiça e até mata as pessoas moralmente. Quanto a Honrar PAI E MÃE é uma MITZVAH mesmo quando eles nos abandona, nos humilha. Yoseph quando reencontrou aos seus irmãos que o maltratou e o vendeu como escravo,esqueceu de todas as suas dores e aflições e os perdoou com grande amor. Yoseph é um bom exemplo de um filho que honrou e amou aos seus pais.
    una buena semana

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s