Drashá da semana: Parashat Emor

Rabino Uri Lam

As voltas que o mundo dá

Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração… (Chico Buarque)

A Torá é o nosso livro mais sagrado. A sua estrutura e gramática, a forma concebida em rolos, são únicas. A Torá dá voltas sobre si mesma – como a vida, com todas as voltas que a vida dá.

A leitura da Torá desta semana poderia começar de qualquer ponto, mas vamos do início. Deus ordena que Moisés transmita aos sacerdotes regras concretas para que se mantenham idealmente puros, a começar por quem acompanhar num enterro, como se portar no período de luto, com quem se casar e, por fim, não ter “defeitos” físicos. O sacerdote recebe estas ordens não porque deve ser santo em si mesmo, mas porque deve estar puro para entregar os sacrifícios do povo a Deus.

Mais adiante Deus transmite novas ordens, agora direcionadas a todo o povo. Gradualmente as instruções “giram” das rígidas regras a serem cumpridas pelos sacerdotes para as promessas feitas por pessoas comuns, marcadas por sacrifícios animais. Na medida em giramos o rolo da Torá, o foco novamente se move e vai se tornando menos material, deslocando-se das promessas pessoais para a elevação e o agradecimento a Deus nas datas comemorativas. São fixadas as datas para as festas de Pessach e, cinquenta dias depois, da oferta de trigo, além da reafirmação do Shabat. Aos sacrifícios animais somam-se as ofertas vegetais. O compromisso com Deus vai deixando de ser tão pessoal, material e individualizado e passa a ser cada vez mais coletivo e sutil. A santidade por si mesma vai se espalhando para o povo.

No primeiro dia do sétimo mês escutamos o toque do shofar que “acorda” as almas; ao chegarmos ao décimo dia, Iom Kipur, as almas devem ser “afligidas”: o sacrifício espiritual se integra, grosso modo, ao sacrifício dos desejos, representado pelos sacrifícios animais, e de gratidão pela vida, representado pelas ofertas vegetais. Finalmente chegamos a Sucot, quando a morada temporária nas cabanas integra todos os aspectos da vida pessoal – dos mais externos, rituais e concretos aos mais internos, espontâneos e espirituais – ao espaço natural e ao tempo desde que nos tornamos seres livres. O processo alcança o ápice quando as pessoas comuns estão aptas para oferecer azeite puro, a mais pura matéria, para o sacerdote manter acesa a luz contínua, a mais sutil condição espiritual.

Ao maldizer Deus, ferir uma pessoa, animal ou qualquer criatura, fere-se a roda do desenvolvimento humano, rompe-se a pureza. Porque no final, Deus espera que todos nós sejamos sacerdotes, com a integridade que pudermos alcançar ao longo dos dias em que o mundo gira.

Shabat shalom

Rabino Uri Lam

Sociedade Israelita da Bahia, SIB

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