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Rabino Uri LamO descanso da terra é o Shabat de Deus; o retorno da terra é o Shabat de Deus

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias… foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão… Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.(Cortar o Tempo – Carlos Drummond de Andrade)

O ser humano sempre tenta domar o fator tempo, administrá-lo com eficiência, industrializá-lo. Hoje em dia, sem nos darmos conta, estamos plugados no tempo 24 horas por dia, sem descanso. “Tempo é dinheiro”, dizem. Quando nos chamam,sentimos que devemos responder imediatamente. Tanta eficiência tem embutida a promessa de poupar tempo e, assim, comprar liberdade.

Mas liberdade não se compra. Quanto mais tentamos controlar o tempo, mais o tempo nos controla. Ao respondermos a uma chamada do trabalho tarde da noite ou durante um feriado, nós nos tornamos cada vez mais escravos dele. Não por acaso, uma das maiores queixas do homem e da mulher modernos é justamente a falta de tempo. O controle exagerado do tempo desumaniza a vida.

Nesta semana, a Torá nos apresenta um conceito revolucionário: para sermos livres, devemos abrir mão do controle obsessivo do tempo.

Drummond nos diz, em tom jocoso, que quem inventou de cortar o tempo em fatias foi um sujeito genial. Cortamos o tempo assim como cortamos árvores e terras, assim como cortamos horas de sono, assim como dividimos sentimentos e pensamentos em seções de análise. Quanto mais espaçosvazios e tempo ocioso cortarmos, melhor. No final das contas,o que sobra é uma vida aos pedaços; e isso não é vida.

Por outro lado, a Torá institui como lei essencial à vida,entregue a Moisés no Sinai, que é preciso abrir mão do controle do tempo. A ideia de Shabat é multiplicada e embute em si mesma um conceito renovador: o sétimo dia é obrigatoriamente de descanso para o ser humano e os animais;e o sétimo ano é dedicado ao descanso da terra. No 50º ano, após sete períodos de anos sabáticos, indivíduos e terras devem retornar à sua condição original: as dívidas são perdoadas, o trabalho escravo é encerrado e as terras retornam aos seus donos. Em outras palavras: a vida recomeça aos 50. Ano de júbilo é o ano do Jubileu.

“Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez”, diz o poeta. E nós dizemos, plenos de esperança: “Deus, faça-nos retornar/descansar e retornaremos/descansaremos. Renova os nossos dias como eram antes” ─ chadêsh iamenu kekédem.Livres, renovados e revigorados para servirmos as leis de Deus, no tempo e na terra que Ele nos deu.

Shabat shalom, de Jerusalém
Rabino Uri Lam

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