Drashá da Semana: Parashat Kórach

Rabino Uri Lam

Kórach era um dos principais líderes da tribo de Levi. Conforme as instruções divinas, Moisés colocou os levitas como cantores e guardas do Mishcan. No entanto, apesar desta grande honra, Kórach não estava satisfeito, pois um membro de sua própria tribo, Moisés, ocupava um “cargo” mais alto do que o seu e, além disso, aos seus olhos, teria se aproveitado do poder de governar todo o povo de Israel para nomear o irmão Aarão e seus filhos para servirem como cohanim, ou seja, como sacerdotes. Na verdade, o que Kórach queria era o lugar de Moisés. Decidido a realizar seus desejos, tentou jogar todo o povo contra Moisés e Aarão. Para isso, Kórach apresentou-se como uma espécie de líder populista, defendendo direitos iguais para todos: “Só vocês são santos? Todos nós somos santos!” Nas palavras da Torá, Kórach afirmou, com o apoio de Datan, Aviram e mais 250 lideranças: “E se reuniram contra Moisés e Aarão e lhes disseram… ‘Todos da congregação são santos, cada um deles, e Deus está no meio deles. Então, por que vocês se elevam acima da congregação de Deus?” (Números 16:3).

Os sábios da Mishná definem a disputa de Kórach contra Moisés como uma machlóket, uma disputa. Porém, uma falsa disputa, de um lado só, vazia; na linguagem da Mishná, uma disputa que não ocorre “em nome dos Céus”, ou seja, que é levada adiante por interesses outros que não a verdade.

Infelizmente, no mundo em que vivemos, muitas disputas públicas entre diferentes pessoas, no meio político, empresarial e social, são movidas mais por interesses pessoais e por vaidade do que pelo nobre objetivo de servir um país, o bem estar dos funcionários ou dos membros de um clube, por exemplo. O orgulho ferido e o ego falam mais alto do que a vontade de servir em prol do bem comum.

Por outro lado, se analisarmos bem, somente numa condição ideal seria possível imaginar que alguém entra numa disputa com o único objetivo de servir ao coletivo, desprovido de qualquer interesse pessoal, seja movido por algum benefício material, seja simplesmente para mostrar a si mesmo que é capaz de vencer o outro.

Os sábios do Talmud sabem que se contam nos dedos, com boa vontade, os que entram numa disputa pensando exclusivamente no bem comum. No entanto, eles defendem que é possível abrir mão de parte dos próprios interesses e dedicar boa parte de suas energias para o grupo do qual se faz parte. Mas como?

A título de exemplo, nossos rabinos citam uma das célebres disputas entre as escolas rabínicas de Hilel e Shamai. Apesar de defenderem posições muitas vezes radicalmente opostas, as disputas entre estas duas grandes escolas de sabedoria judaica eram consideradas disputas limpas, “em nome dos Céus”. Hilel era considerado um homem ponderado, conciliador, que buscava acomodar as diretrizes da lei judaica à realidade daqueles que o procuravam em busca de uma solução viável. Por outro lado, Shamai era rigoroso, meticuloso, preciso. Shamai buscava seguir a lei à risca e submeter as pessoas à letra da lei.

Apesar de divergentes, Shamai e Hilel se respeitavam. Este respeito se estendia às suas escolas rabínicas e inclusive às suas famílias. Apesar de discordarem, nunca uns deixaram de frequentar as casas dos outros; apesar das diferenças, os filhos e as filhas de ambos os lados não deixavam de se casar entre si. As diferenças entre eles, em vez de os afastarem, eram vistas como complementares.

Conta-se que, durante três anos, a Escola de Shamai e a Escola de Hilel travaram uma acirrada disputa sobre leis judaicas. Cada lado afirmava que a Halachá era conforme ele dizia. A disputa seguia sem solução até que a Bat Kol, o eco da Voz Divina, declarou: “Estas e Estas são Palavras do Deus Vivo; mas a Halachá está de acordo com as posições de Hilel”, colocando um fim à disputa. Mas o Talmud se pergunta: “Se estas e estas são palavras do Deus Vivo, o que fez com que a Academia de Hilel merecesse que a halachá fosse considerada segundo o seu ponto de vista? Foi porque eles eram humildes e elegantes: pois ensinavam tanto os seus próprios ensinamentos quanto os da escola de Shamai e ensinavam primeiro as posições de Shamai para só depois ensinar as suas próprias posições”. (Talmud Bavli, Eruvin 13b).

Qual então era a grande diferença entre a disputa de Kórach e Moisés, por um lado, e as disputas entre Hilel e Shamai?

Kórach não pretendia conviver com Moisés; Kórach queria o lugar de Moisés. A sua conquista seria necessariamente a exclusão de Moisés, a morte de Moisés da vida pública – no mínimo.

Por outro lado, Hilel se dispôs a conviver com Shamai e Shamai se dispôs a conviver com Hilel, independente do resultado da disputa. Eles foram capazes não só de tolerar as posições uns dos outros; eles foram capazes de colocar em prática uma palavra tão “na moda” hoje em dia, embora ainda tão pouco praticada: Coexistência.

Na melhor tradução das palavras de Martin Buber, filósofo judeu do século 20, Hilel e Shamai se tratavam conforme o modelo Eu-Tu, em que cada lado se mostra capaz de manter a sua posição e ao mesmo tempo encontrar-se com a posição do outro, sem outro interesse além da coexistência. Shamai e Hilel eram inclusivos – outra “palavra da moda” que merece ser mais colocada em prática hoje em dia.

Em contraposição a isto, Kórach era excludente: ou era ele e sua turma, ou era Moisés e Aarão.

Em vez do eco da Voz Divina dizer que as palavras de Kórach e de Moisés eram palavras do Deus Vivo, Deus decidiu que somente a palavra de Moisés valia. Kórach e seus parceiros literalmente morreram e deixaram a história – ou permaneceram nela como exemplos de como não se conduzir em uma disputa.

Hoje em dia, em comunidades judaicas do mundo inteiro, lideranças religiosas e laicas buscam aprender com Hilel e Shamai. Cada comunidade busca o seu modo de ser inclusiva e de coexistir com os que pensam diferente de si mesmos. Sabemos que não é fácil conviver com vozes de direita e de esquerda, com visões religiosas mais tradicionalistas e mais progressistas, com disputas sobre o papel da mulher na vida sinagogal.

Mas afinal, o que aprendemos com Hilel e Shamai? Que todas as vozes são ecos da Voz Divina – desde que sejam em nome dos Céus, vozes limpas e doces, que em última instância desejem o bem de todos.

Shabat shalom!

Rabino Uri Lam

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