Drashá Parashat Chucat: A Solidão do Homem de Fé

Rabino Uri Lam

Desde o século 17 convivemos com um modo racional de entender o mundo. Criado por Descartes, o método cartesiano inaugurou um sistema de coordenadas pelas quais se pode determinar um ponto com precisão. No cruzamento de duas informações se faz a organização do pensamento e do mundo.

O Zohar (Bereshit 15a) faz uma leitura bem diferente da lógica cartesiana: quem comer só da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal encontrará a morte, mas quem quiser viver deve comer frutos de todas as árvores, juntos. Em outras palavras, a vida tem muito mais sabores que vão não somente além da imaginação, mas além da razão. Em sua obra “A Solidão do Homem de Fé”, o rabino Joseph Soloveitchik afirma que em cada um de nós reside um ser humano criativo e majestoso, mas também submisso e humilde. Não é possível privilegiar apenas um aspecto e negligenciar os demais. Em certos momentos estamos de um jeito, em outros, de outro jeito. Caso nossas vidas se submetam somente à razão, caso existisse somente um caminho para agradarmos a Deus e nos sentirmos bem no Seu mundo, perderíamos o bem mais precioso que Ele nos deu: a liberdade de escolha, a capacidade de pensar e sentir, o direito de ter fé diante de um mundo imperfeito.

A leitura da Torá desta semana não enfatiza a razão; ao contrário, ela destaca o absurdo como forma de apresentar o campo da fé diante do incompreensível. Ela inicia justamente com uma lei pétrea e irracional – aliás, a ideia de uma lei pétrea num mundo dinâmico já é, em si mesmo, algo do campo do teatro absurdo. A regra é: quando uma pessoa tocar um cadáver, esta deve se purificar com uma poção cujo ingrediente essencial é formado de cinzas de uma vaca vermelha. Qual é a lógica? Nenhuma!

Em seguida, Miriam, irmã de Moisés, morre e é sepultada em Cadesh. O povo passa a reclamar de não ter o que beber, pois Miriam era a profetisa das águas. Deus novamente ordena algo irracional: Moisés deve falar com uma rocha e dela jorrará água. Moisés se irrita, pois a rqzão fala mais alto. Falar com uma rocha? Qual é a lógica? Nenhuma! Moisés acusa o povo de rebeldia e em vez de falar, golpeia a rocha duas vezes. A emoção falou (ou golpeou) mais alto ─ e a água jorrou mesmo assim. Esta foi literalmente a gota d’água para Deus decidir que Moisés e Aarão não entrariam na Terra Prometida, “porque não acreditaram em Mim” (Núm. 20:12). Nem razão, nem emoção. Nesta leitura semanal, Deus avalia a fé. Para andar por 40 anos pelo deserto a fim de entrar em um lugar denominado Terra Prometida, antes que tudo é preciso fé. Ou como diz o ditado popular: [primeiro] fé em Deus e [depois] pé na tábua.

Mas Faltou fé a Moisés. Faltou razão também: por que ele não reagiu à decisão de Deus, como fez tantas vezes, por que não buscou argumentos convincentes, justamente numa questão de vida e morte?

Segundo o Midrash, desta vez foi Aarão, que não fez nada de errado, quem protestou: “Eu não transgredi as Suas palavras, por que devo morrer [também]?” (Chucat 19, 11) De fato, logo depois Aarão morreu. “Uma frustração ocorre na terra: há justos que são atingidos como se fossem maldosos e há maldosos que são atingidos como se fossem justos” (Eclesiastes 8:14). Não há nada lógico em Aarão ter morrido por um erro de Moisés. Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas, o que fazer?

Agora Moisés está só. Diante de ordens irracionais da parte de Deus, da queixa do povo, da perda de seus irmãos, Moisés segue adiante. Neste momento solitário, de confusão existencial, de perda de referências, o que resta é acreditar. Justamente a fé, não a razão, faz com que Moisés siga adiante. Porque a fé move montanhas talvez com mais frequência do que a razão.

Shabat shalom
Rabino Uri Lam

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