Drashá sobre Parashat Balak

Rabino Uri Lam

A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro?

Durante meus estudos rabínicos em Israel, em uma aula de Talmud nos foi pedido para escrever, na língua materna, o que viesse à mente sobre a frase: “A Torá do lado de fora e nós do lado de dentro”. Naturalmente, escrevi minhas impressões em português, mesmo sendo o único a falar este idioma em sala de aula. Mas ao apresentar o que escrevi, em vez de fazer uma “tradução simultânea” para o hebraico, como me parecia ser óbvio, a morá (professora) de Talmud me fez um pedido um tanto peculiar: ela me pediu para ler minhas ideias… em português.

Perguntei a ela: “Tem certeza? Ninguém irá entender nada”.

Ela respondeu: “Leia em português”.

Comecei a ler devagar – como se isso os ajudasse a entender melhor. Mas ninguém entendia uma letra do que eu estava lendo. A professora me pediu para ler de forma natural, como se eu estivesse diante de um público brasileiro. Expressei um sorriso nervoso, constrangido – e lá fui eu, ler em português para colegas israelenses que, no máximo, arranhavam algumas palavras emprestadas de canções brasileiras – ou argentinas, que eles imaginavam serem brasileiras, ou vice-versa. Enfim, eu estava confuso e perplexo.

E por quê? Porque eu estava me dirigindo aos meus colegas numa língua que eles não entendiam. A sensação era perturbadora, pois por um lado me senti com a Torá do lado de dentro, dono de uma informação à qual eles, do lado de fora, só teriam acesso se eu quisesse. Mas também senti sozinho dentro de mim – sendo eu, detentor daquela Torá, do lado de fora.

Foi quando me deparei com esta estranha passagem do Talmud: “Moisés escreveu o seu livro [a Torá] e a Parashát Bilám” (Bavli, Baba Batra 70b). Moisés escreveu um e outro? Se o relato de Bilam está dentro da Torá, como ele pode estar ao mesmo tempo fora da Torá? Afinal, nós lemos na Torá, dentro dela, tenho certeza, que Bilam foi abordado por Balak, rei de Moav, para amaldiçoar o povo de Israel, mas no fim o misterioso sacerdote nos abençoou com a famosa passagem “Como são boas as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel!”, o Ma Tovu que cantamos quando entramos na sinagoga!

Conta-se que Rabi Meir e Rabi Natan, insatisfeitos com a liderança de Raban Shimon ben Gamliel, tramaram derrubá-lo do cargo de presidente do Bet Midrash (casa de estudos), mas o golpe fracassou e Shimon ben Gamliel ordenou que fossem expulsos. No entanto, os dois contribuíam tanto para o bom entendimento da Torá que Rabi Iossei protestou: “A Torá fica do lado de fora e nós do lado de dentro?!” Shimon ben Gamliel decidiu que eles poderiam retornar ao Bet Midrash, mas de agora em diante os ensinamentos de Rabi Meir seriam citados como “Acherim” (Os Outros) e os de Rabi Natan como “Iesh Omrim” (Há Quem Diga) (Bavli, Horaiot 13b). Foi o modo encontrado para que a Torá de Rabi Meir e de Rabi Natan permanecessem dentro da sabedoria judaica.

Mas e Bilam, o que alguém contratado para nos amaldiçoar faz dentro da Torá? Sua sabedoria se emparelhava com a de Moisés, o que levou Balak a convocá-lo como a derradeira chance de derrotar Israel. Assim como Moisés, Bilam também conhece Deus e fala o que Deus ordena, mas é aí que começa a diferença: Moisés escuta o que Deus diz, às vezes concorda, outras vezes discute ou se cala, mas age com integridade: ele faz o que pensa. Bilam escuta o que Deus diz, mas o que faz nem sempre é o que pensa que deveria ser feito. Moisés ama os animais e o cuidado por seu rebanho o leva a encontrar Deus. Bilam maltrata o burro que só fazia servi-lo, a ponto de o animal ter que falar “o que eu lhe fiz para você me bater três vezes?” para Bilam entender que este lhe salvara a vida.

Em outras palavras: a Torá de Moisés − a sua relação com Deus, com os seres humanos e com as criaturas – é completamente diferente da Torá de Bilam. Talvez seja a isso que se refere o Talmud ao afirmar: “Moisés escreveu o seu livro [a Torá] e a Parashát Bilám” (Bavli, Baba Batra 70b).

Mesmo assim, lemos esta semana o relato sobre Bilam dentro da Torá. Mesmo que o Talmud diga que Moisés escreveu a sua Torá e, em separado, o relato sobre Bilam, é fato que Moisés não deixou a “Torá de Bilam” de fora da Torá de Moisés. Que bom. O mesmo Bilam que poderia ter sido um pesadelo para Israel foi quem nos brindou com o Ma Tovu.

Conta-se que certa vez, quando Amimar, Mar Zutra e Rav Ashi estavam juntos, foi proposto que cada um dissesse aos demais algo que jamais haviam escutado antes. Um deles falou: “Quem tiver tido um sonho e não souber dizer o sonhou, levante-se e diga: ‘Senhor do Universo… entre os sonhos que tive, dos que precisarem de cura, que sejam curados como pelas águas amargas das mãos de Moisés… e assim como Você fez com que a maldição de Bilam se tornasse uma benção, faça com que meus sonhos venham para o bem’.” (Bavli, Brachot 55b)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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