Drashá da semana: Parashat Pinchas

Rabino Uri Lam

Em uma conversa dos tempos do Talmud, Rava vai até Rav Idi e lhe faz a seguinte pergunta:

“Rav Idi, li uma passagem estranha no livro de Isaías. Ali está escrito: ‘Falem do justo que é bom’. Por que o Tanach fala do justo que é bom? Não é óbvio que toda pessoa justa é boa pessoa? Será que existem justos maus?”

Rav Idi respondeu:

“Meu querido Rava, escute bem o que vou lhe dizer. Há homens que fazem o que é justo aos olhos de Deus e das pessoas; estes são homens justos e bons. Por outro lado, há aqueles que só levam em conta a justiça de Deus, mas se esquecem das pessoas. Estes são homens justos, mas não são homens bons.” (Bavli, Kidushin 40a)

Pouco antes de chegarem à Terra Prometida, nossos antepassados passaram a seguir cultos e orgias ao deus canaanita Baal Peor. Deus ficou tão furioso com isso que fez com que os israelitas passassem a morrer aos montes.

Foi em meio a esta tensão que o príncipe israelita Zimrí apareceu junto com a princesa midianita Cozbi na frente de Moisés e de toda a comunidade. Fica nas entrelinhas que o casal dava uma demonstração explícita de um culto a Baal Peor para quem quisesse ver. Foi a gota d’água.

O sangue do sacerdote Pinchas, neto de Aarão, ferveu. Sem ver mais nada na frente, como se fosse um touro bravo, Pinchas abriu caminho no meio da multidão, pegou uma lança, foi em direção aos jovens e os atravessou ao meio. Ainda podemos ouvir a multidão gritar em alvoroço: “Justiça, Justiça!”

Depois desta ação de Pinchas, Deus ofereceu a ele uma aliança de paz. Afinal, parece que Pinchas fez o que era justo aos olhos de Deus. Mas será que isso basta?

A partir do dia 17 de Tamuz, nesta semana, contamos 21 dias até Tishá beAv, o dia 9 de Av, a data mais triste do calendário judaico. Um dos motivos mais alardeados para a destruição do segundo Grande Templo é a disseminação do ódio gratuito. Graças a tanto ódio entre irmãos, quem precisava de inimigos? É como se nós mesmos tivéssemos destruído o Templo com as próprias mãos, sujas de sangue.

Não me parece à toa que a parashá de Pinchas dê início aos nossos estudos até Tishá beAv. O neto de Aarão não pensou duas vezes antes de matar em nome de Deus. Certamente, Pinchas se orgulhou do que fez. E com toda a certeza, muita gente o vê como um herói até os dias de hoje. Mas a Torá parece não pensar assim. Na passagem em que Deus faz um pacto de paz com Pinchas, a letra yod do nome do sacerdote vem diminuída e a letra vav da palavra shalom vem cortada. Ambas as letras fazem parte do Nome Impronunciável de Deus. Ao matar por impulso, Pinchas diminuiu o seu próprio nome – e ainda pior, ao matar dois seres humanos, um homem e uma mulher, Pinchas diminuiu a imagem de Deus na Terra. A paz não foi uma paz de fato, porque foi alcançada com sangue e horror.

Na haftará desta semana também lemos sobre outro jovem sacerdote. Estamos falando do profeta Jeremias. Quando Deus diz que conhece Jeremias antes mesmo que ele tivesse sido concebido, o jovem retruca: “Deus, mas não estou preparado para ser profeta, sou inexperiente!” Enquanto Pinchas nem piscou antes de matar, Jeremias refletiu mil vezes antes de entender que era digno de ser escolhido por Deus. Conta um midrash que depois que Jeremias disse a Deus que se considerava muito jovem para ser profeta, o Todo Poderoso respondeu: “Mas é dos jovens que eu mais gosto, porque eles ainda não experimentaram o sabor da transgressão”.

O sacerdote Pinchas era justo, mas era mau. Por outro lado, o profeta Jeremias era um homem justo e bom. Nossos profetas, que aliaram a justiça à bondade, deram origem à ética judaica, um dos maiores legados do povo judeu à humanidade. A ética dos profetas, aliás, é a maior referência pela qual se pauta o judaísmo progressista nos últimos dois séculos.

Nossos rabinos foram sábios em reunir em uma mesma semana as histórias de Pinchas e de Jeremias. Talvez assim consigamos explicar outra passagem enigmática da Torá: Tzedek Tzedek Tirdof: Justiça, Justiça Buscarás. Por que duas vezes a palavra justiça? Talvez para entendermos que não se deve buscar a justiça somente por ser justa; devemos busca a justiça que seja boa. A justiça, inclusive a justiça divina, se compreendida ao pé da letra, pode ser má. O monoteísmo ético, legado dos nossos antepassados, nos diz que para que possamos construir um mundo melhor, devemos buscar a justiça composta, a justa justiça, a justiça boa, temperada com ética e amor por Deus e pelos seres humanos.

Rabino Uri Lam

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