Drashá da semana: Parashiot Matot-Mas’ê

Rabino Uri Lam

Verás que um filho teu não foge à luta

O que a Torá tem em comum com o hino nacional brasileiro?

No hino nacional está escrito: “Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora a própria morte. Terra adorada…”. Já na Torá está escrito: “Vossos irmãos irão à guerra e vós ficareis aqui? Por que, pois, desanimais o coração dos israelitas, para que não passem à terra que o Eterno lhes deu?” (Núm. 32:6)

Eis que as leituras desta semana, que fecham o livro de Números, tratam de dois temas bastante atuais:

Com quem contamos?

Na parashá Matot, enquanto Israel se preparava para a guerra, as tribos de Ruben e Gad se preocupavam mais em ocupar com seu gado as terras conquistadas na guerra anterior. Moisés reagiu com indignação. Então aqueles que enriqueceram em guerras passadas vão para longe e deixam de se preocupar com o bem estar de todos? Esta indignação, tão relevante naquela época, ainda se mostra relevante hoje em dia. Muitos daqueles que já foram “do povo” ou estiveram ao seu lado, hoje chocam o país com demonstrações de riqueza enquanto a maioria suporta uma péssima infraestrutura física em seus bairros, meios de locomoção sucateados e violência em tantos aspectos da vida. Aqueles que um dia foram jovens, que lutaram para deixar a escravidão no Egito – ou lutaram contra governos totalitários, de direita e de esquerda – não podem hoje, simplesmente, virar as costas aos jovens de hoje e dizer “iremos criar o nosso gado em outro lugar, de preferência longe dos baderneiros e dos conflitos das ruas”. Na Torá, Deus também fica indignado e afirma que aqueles que deixaram o Egito há 40 anos não entrarão na Terra Prometida – exceto Kaleb e Josué, que lutaram então contra a opressão e seguiam fieis aos seus valores, mesmo já mais velhos. No caso das tribos de Ruben e Gad, estes ouviram, por assim dizer, o clamor das ruas, voltaram atrás e se juntaram ao povo. Ainda havia muitos desafios a vencer.

De onde viemos?

A viagem continua. Pouco antes de entrar na Terra Prometida, foi feito um censo do povo. Agora era chegada a hora de reconstituir as jornadas dos israelitas pelo deserto: de onde viemos, por onde passamos. O resgate da memória é sempre importante. Ele pode fortalecer a alma de um povo e prepará-lo para os desafios do futuro. O passado deve ser relembrando, não para vivermos no passado nem do passado. Mas para relembrarmos o que aprendemos com ele e levarmos as lições para o futuro. Isso vale para a Israel de então e para o Brasil de hoje.

Quais são os limites?

Quais são os limites de um Estado democrático? O que é permitido, o que deve ser proibido? O que é censura e o que são normas mínimas de coexistência? Quais são as fronteiras entre um estado democrático e um estado ditatorial? A pergunta é difícil e depende, muitas vezes, do posicionamento político de quem fala. Na nossa leitura da Torá falamos de outros limites, de outras fronteiras, com os mesmos problemas: sua localização depende de quem as expõe e de como as expõe. Entendo que são muito mais fronteiras ideológicas do que físicas; muito mais humanas do que divinas. Na parashá Mas’ê encontramos (Núm. 34:1-13) uma definição das “fronteiras de Canaã”, conhecidas como “as fronteiras dos que saíram do Egito”, que se estendem de Kadesh Barnea, no sul, até regiões que hoje fazem parte do Líbano, Síria e Jordânia; são fronteiras muito diferentes das atuais, tão discutidas. Segundo o professor Yehuda Elitzur, da Universidade Bar Ilan, há pelo menos outras duas definições de fronteiras no texto bíblico: a dos nossos Patriarcas, muito mais ampla; e a do Profeta Ezequiel, semelhante à do período que tratamos na leitura desta semana.

Como terminarão as manifestações no Brasil, com quem contamos, de onde viemos e para onde vamos, ainda é uma história que está sendo escrita. Apenas desejo que reencontremos o rumo, que nos esforcemos com todas as forças para preservar o estado democrático, a prosperidade econômica e a justa distribuição social. Eu escutava quando era mais jovem um velho bordão: “se você reivindicar seus direitos e os de seu povo quando jovem, você é um idealista; mas se você reivindicar seus direitos e o do seu povo depois dos 40 anos, você é um louco”. Pois me junto aos loucos que escutam a indignação de Moisés e a memória coletiva brasileira, sempre que se sentirem confortáveis demais diante de tanta miséria: “Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora a própria morte. Terra adorada… pois vossos irmãos irão à guerra e vós ficareis aqui?”

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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Um pensamento sobre “Drashá da semana: Parashiot Matot-Mas’ê

  1. É o perigo que corrermos quando buscamos apenas o cuidar da “nossa vida”, esquecendo que a “nossa vida” ganha Vida quando nos esforçamos pelo coletivo, pela comunidade… Porque dependemos dela e ela de nós. Se virarmos o rosto para o outro lado, para cuidar apenas das “nossas vidas”, das “nossas causas particulares” estaremos construindo (inconscientemente) um labirinto da incerteza da nossa própria identidade e da responsabilidade que temos na construção dessa mesma sociedade pela qual, mesmo que momentaneamente, viramos as costas. De certo, tudo aquilo que não cuidamos tende a findar-se!!!! A sociedade não é uma entidade, a sociedade é cada um de nós decidindo, deliberando, confrontando, ora recuando, argumentando, trabalhando, construindo, desconstruindo, reconstruindo, aprendendo… Em síntese, somos nós agindo!!!!!
    Shavua Tov!!!!
    Lucinha

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