Drashá da Semana: Parashat Ékev

Rabino Uri Lam

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, Você”
(Carlos Drummond de Andrade)

E agora Israel, o que o Eterno, seu Deus, espera de você? Imagine…

Há quem diga que “se” é uma palavra que não deveria existir: as coisas são de um jeito ou de outro, sem meio termo. Se fosse assim… mas não é, não foi, não aconteceu assim. O “se” da leitura da Torá desta semana constrói um universo paralelo no qual, se assim fosse, o mundo seria perfeito, as pessoas se respeitariam e se amariam e o único trabalho de Deus seria contemplar a Sua bela obra coletiva de criação. O perdão seria uma prática inexistente, pois não haveria o que perdoar. O Iom Kipur não teria razão de existir, pois não haveria transgressões pelas quais pagar nem erros a se reconhecer. O “se” é tão real quanto o mundo no qual todos os homens e mulheres são férteis, assim como todos os animais e todos os campos. Mas assim como a tradução do termo hebraico “ékev” para o condicional “se” é incomum, do mesmo modo o mundo pintado nesta situação bíblica está mais para o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley do que para a realidade em que vivemos.

Se todos cumprissem as leis, metade do nosso vocabulário jamais teria existido. Viveríamos em um mundo em que somente o bem prevaleceria, sem a contraposição do mal. Não haveria guerras nem mal-entendidos. As pessoas não falariam mal umas das outras por trás, filhos e pais sempre se respeitariam, casais viveriam em harmonia e sem crises conjugais. Não haveria necessidade de religiões nem de partidos políticos. Não precisaríamos de nações. Imagine all the people, diria John Lennon, reproduzindo o mesmo “se” imaginário. Se apenas cumpríssemos todas aquelas leis… Este é o “imagine” de Deus. Imaginem só… ninguém pode imaginar.

Conta um midrash que no início, quando Deus entregou os Dez Mandamentos a Moisés e o povo de Israel afirmou “naassê venishmá”, “faremos e escutaremos”, Deus acreditou em nós. No entanto, não demorou muito para que o Todo Poderoso percebesse as dificuldades daquela gente insubordinável, nas palavras Dele mesmo, cumprir a sua palavra. O Eterno então baixou as expectativas e passou a exigir somente que cumpríssemos pelo menos a segunda parte do acordo: “Escute Israel”. Ele só esperava agora que respondêssemos, com sinceridade: “Escutaremos”.

E agora, Israel, o que o Eterno seu Deus espera de nós – agora que Ele já sabe que somos incapazes de cumprir o que prometemos? Deus parece esperar que sejamos capazes de pelo menos escutar o que Ele tem a dizer e que pelo menos tentemos seguir por Seus caminhos, amar e respeitar as Suas criaturas e valores, “e servir ao Eterno de todo coração e com toda a alma” (Deut. 10:12). Diferente do que nos foi ordenado no Shemá – amar a Deus de todo coração, com toda a alma e com todas as forças – agora se pede para servirmos a Deus (em vez de amá-Lo) de todo coração e com toda a alma, pois amar é algo que não pode ser ordenado; e não com todas as forças ou posses, pois isso se mostrou inviável. Por um lado, Deus não espera mais que sejamos perfeitos, mas por outro lado, passa a exigir que cada um reconheça seus erros, peça perdão aos seus semelhantes e a Ele mesmo, e busque ser uma pessoa melhor a cada dia.

Agora, Deus baixa expectativas, mas não as anula. Se é para pedir perdão, que seja de verdade. Perdoar e pedir perdão não significa esquecer o passado, mas deixar o passado no passado e seguir em frente. Caso contrário, o pedido de perdão é vão e vazio. Deixa de ser perdão e passa a ser perda, perda de tempo. Não. Deus abre mão das ações sempre corretas, mas não abre mão do reconhecimento dos erros e da tentativa, ao menos, de nos tornarmos pessoas melhores.

Na semana passada lemos o primeiro parágrafo do Shemá e nesta lemos o segundo parágrafo. O “plano A” de Deus era que O amássemos de todo coração, com toda a alma e com todas as forças. O “plano B” é nos dar a opção: se O escutarmos de todo coração e com toda a alma – mesmo que não por amor, mas por respeito – teremos vida longa sobre a terra e seremos férteis. Se não… temos ainda a oportunidade do arrependimento e do perdão sincero. E agora, Israel?

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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