Comentários sobre a peça: Alma Imoral de Bonder-Niskier

Roberto Ponczek

Roberto Ponczek

A Peça de Clarice Niskier ,Alma Imoral, baseada em texto do livro homônimo do Rabino Nilton Bonder, foi recentemente encenada em Salvador. Assisti no Rio e aqui. Gostei muito da empatia da atriz carioca com o público baiano. A atriz conferiu ao texto um caráter pedagógico, oferecendo ao público a possibilidade de repetições das passagens mais complexas. Os baianos, nesse quesito, foram mais participativos que os cariocas, solicitando à atriz várias repetições.

A temática da peça , e do livro, gira em torno do dialético conflito de contrários entre uma “alma imoral” e um “corpo moral” que habitam nossas mentes. Estes dois conceitos embora conflituosos, são complementares, podendo estar presentes ora na individualidade do ser humano como na coletividade de um povo. Entre ambos trava-se um difícil e tenso dialogo, que tentarei exemplificar:

Diz o corpo moral à alma imoral:
– Sra Alma Imoral, por favor, não tenha desejos tão transgressores , pois me colocarás
seriamente em risco.
No que alma imoral lhe responde:
– Sr. Corpo Moral, não estou preocupada com sua segurança. Saia de sua zona de conforto!
Dispa-se!*
– Responde-lhe de volta o corpo:
– Não consigo, lembre-se que sou o representante da tradição, dos bons costumes e da
sensatez…
E a alma desafiadora diz-lhe então:
Pois eu sou a traição, a transgressão que no final dar-lhe-ão mais prazer do que sua sensatez
permite!

Esse diálogo que simulei ( não existe na peça) entre a alma e o corpo (ou id e superego numa linguagem psicanalítica) que comumente passa-se em nossas mentes individuais também podem ocorrer em níveis coletivos na história de um povo. Em particular, a Torah é muito rica em descrições de conflitos que envolvem seus principais protagonistas. O pecado original com a expulsão de Adam e Hava do Éden ;depois de comerem do fruto proibido; os conflitos entre Moshé e o povo hebreu quando surgem as grandes dificuldades na travessia do deserto rumo à Éretz Israel; o combate violento de Jacob e sua alma transmutada em anjo; o tenso diálogo interno de Abraham com D’us que lhe ordena buscar a Terra Prometida, são apenas alguns exemplos dos embates entre a desafiadora alma imoral e o corpo moral de
nosso povo judeu.

Para Bonder (e Clarice que se declara uma “judia budista” ), somente a moralidade e a tradição não são suficientes para evolução de um povo, pois em alguns momentos históricos cruciais fazem-se necessárias as transgressões e a traição, que promovem , o rompimento com o passado imobilizador.

Finalizo com uma piada:

Um jovem rabino percebe que em algumas brahot, parte da comunidade se levanta e parte
permanece sentada para rezar. Chama o mais velho membro da comunidade e lhe pergunta:
– Senhor, a tradição, nesta comunidade, é levantar-se?
– Não Rebe, responde-lhe o ancião.
Então, a tradição é permanecer sentado?
-Não, repete-lhe o ancião.
– Então qual é a tradição?- volta a lhe perguntar o jovem Rabino.
– A tradição é que uns se levantem e outros fiquem sentados, responde-lhe finalmente o velho.

O texto de Bonder, e a representação teatral de Clarice, mostra-nos que a unanimidade e
a conduta moral certa nem sempre são possíveis, ou nem mesmo desejáveis. Em alguns
momentos cruciais de nossas vidas individuais ou coletivas precisamos que nossa alma imoral
transgrida as normas e rompa com o passado. Em suma, é necessário sair de nossos “Egitos”

  • Atriz apresenta-se na peça ora despida, ora cobrindo-se parcialmente com uma precária túnica.

 

2º texto de Roberto Leon Ponczek como colunista do SIB e-News. Você também pode colaborar com o SIB e-News enviando um e-mail para sib.e.news@gmail.com. Mais informações na nossa página de contato

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