Drashá da Semana: Parashát Ki Tetsê

Rabino Uri Lam

“Ei vocês, atenção: lembrem-se do que Amalec fez conosco quando saímos do Egito. Não nos esqueçamos!”

Não dá para esquecer. Impossível! Em tantos e tantos momentos da nossa história, os amalekitas de cada época nos identificaram, nos discriminaram, nos colocaram para fora do nosso caminho, nos tiraram do eixo. A característica do amalekita é atacar covardemente, por trás; eles atacam primeiro os mais frágeis – as crianças, as mulheres, os velhos, os portadores de deficiência – mas a mira está apontada para a destruição de todo o povo judeu. Assim desejava o cruel ministro Haman, ao nos discriminar como “um povo que não se curva nem segue as leis do reino da Pérsia”, no Livro de Ester. Assim também fizeram os inquisidores na Espanha e os cossacos na Rússia. De maneira covarde, ao saírem para a guerra, os nazistas tentaram, sem sucesso, nos desumanizar, e então mataram muitos dos nossos avós, pais, irmãos, maridos e esposas, amigos e amigas. Eles não temiam a Deus.

Nesta semana a Torá fala justamente da postura que se deve ter quando saímos à guerra – qualquer guerra: guerra entre países, conflito entre pessoas, entre partidos políticos, entre movimentos judaicos, entre denominações religiosas. A Torá fala, essencialmente, como não ser um amalekita: em outras palavras, o tema trata de como devemos nos conduzir em relação a quem é diferente de nós, sobretudo em situação de guerra, de conflitos; sobretudo quando não somos nós os fragilizados, mas o outro.

Nada melhor do que um caso de amor para servir de exemplo. A parashá desta semana começa se perguntando o que deve fazer um soldado quando, ao sair para a guerra contra o inimigo, encontra uma linda mulher que pertence aos quadros inimigos. Rashi aproveita para nos contar a passagem bíblica como o caso de um relacionamento conturbado que teria se iniciado ainda no campo de batalha. O homem tomou a mulher por esposa não por amor, mas por troféu, o que mais tarde gerou tantos conflitos familiares e um filho tão rebelde, mas tão rebelde, que o caso foi parar nos tribunais. O jovem rebelde foi condenado e morto no mesmo dia — e todos os israelitas presentes escutaram e temeram.

Custa acreditar que a Torá defenda um enredo tão trágico. Os sábios do Talmud também custaram a acreditar, a ponto de, no tratado Iebamot, sugerirem que a linda mulher se converteu ao judaísmo antes de se tornar esposa do soldado. Mas o fato de o jovem nascer judeu, filho de uma idishe mame, não o impediu de ser rebelde e terminar morto pelos seus – como exemplo ditatorial para os demais.

Sempre gosto de imaginar como Tevye, o sábio leiteiro e maravilhosa criação de Scholem Aleichem, recorreria às fontes hebraicas, não importa se verdadeiras ou da cabeça dele, para propor uma solução judaica e amorosa para este caso. Tevye, que sofreu na pele os horrores dos pogroms na Rússia e as tzures com suas filhas e respectivos noivos, costumava perguntar ao Todo-Poderoso: “Deus, eu sei, eu sei. Nós somos o Seu povo eleito. Mas de vez em quando, Deus, só de vez em quando, Você não poderia escolher outro povo?” Bem que Tevye o leiteiro poderia contar a história da parashá Ki Tetsê para nós. Como seria?

Rebe Tevye na minha sinagoga, visita ilustre

“Boa noite a todos, shabat shalom. É muito bom ter vindo de Anatevka para Salvador. Como é quente aqui! Minha renite e minha sinusite nunca mais serão as mesmas, Baruch Hashem! E vocês poderão experimentar, no kidush, as delícias de Anatevka, derivadas de leite… mas consumam hoje, antes que estrague, com este calor do Sinai…

Bom, com a ajuda do Misericordioso, vamos lá. Onde estávamos? Ah sim. Ao sair para a guerra contra o inimigo e retornar vitorioso, o bravo soldado judeu conheceu uma linda mulher e os dois se apaixonaram. De comum acordo, ele a levou para a terra dele. No início ela considerou o lugar um paraíso, mas com o tempo, viu que não era fácil se adaptar aos novos costumes nem à nova terra. Mas como eles se amavam – assim pensava o jovem soldado – tiveram a chance de se conhecer melhor. Depois de uns poucos meses, logo perceberam que compartilhavam dos mesmos valores espirituais e religiosos, pareciam almas gêmeas! Vocês precisavam ver os dois, de mãos dadas, passeando por aí.”

Eles finalmente decidiram se casar sob a hupá, na praça central de Salvador. Convidaram todos os judeus da cidade, inclusive Tevye e sua família, para a cerimônia. Desta relação nasceu um filho. Depois outro, e depois mais outro. Todos muito queridos pelo casal. Tevye, que gostava de ser chamado de Rebe Tevye pelas crianças, radicou-se na cidade e foi contratado para fazer o que mais gostava, além de ser leiteiro: ensinar Torá. E todos os judeus que ali moravam escutavam e se admiravam com tanta sabedoria.

Para os sábios do Talmud, um filho rebelde jamais foi morto para servir de exemplo aos demais. Para o Tevye da minha imaginação, o filho rebelde parece servir para advertir sobre os males que podem advir de um pai ausente ou de pai e mãe distantes. A rebeldia é mais um pedido de ajuda do que fator de condenação. A comunidade deveria tentar suprir o papel de família, em vez de destruí-la de vez. Mas cabe ao filho ou à filha rebelde querer também.

No fim das contas, parece ser disto que fala a Torá nesta altura do ano, no meio do mês de Elul, poucos dias antes de Rosh Hashaná. No próximo ano, quando você for sair para enfrentar o mundo lá fora, não seja como Amalec. Seja Mensch, seja gente. Vamos transformar Ki Tetsê lamilchamá, quando saíres para a guerra, em Ki Mitsion Tetsê Torá, Quando a Torá sair de Tsion para o mundo – neste dias ninguém mais sairá para a guerra, porque haverá amor, paz e respeito entre todas as pessoas.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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