Drashá da Semana: Parashá Ki Tavô

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

E o Eterno te colocará por cabeça e não por cauda… em outras palavras: tenha atitude!

A vida de cada pessoa pode se organizar de acordo com suas próprias decisões – ou de acordo com as decisões de terceiros. Cada um de nós passa por momentos que podem ficar marcados como bênçãos ou maldições. Objetivamente, para quem olha de fora, parece fácil considerar uma situação vivida como boa ou ruim. Mas subjetivamente, cada um dá o significado que lhe parece o mais apropriado para cada experiência vivida. Às vezes este significado é alcançado por uma reflexão honesta; às vezes, nós nos enganamos com justificativas que não se sustentam – e no fundo no fundo, nós sabemos disso.

Uma escolha errada na vida pode parecer algo mau – pela tristeza e dor gera. No entanto, o reconhecimento do erro e o retorno às demais possibilidades que a vida oferece – “uvacharta bachaim, escolherás pela vida” – tem grandes possibilidades de gerar o que é bom, decidido com mais consciência e maturidade. Os ferimentos causados pelas más escolhas podem arder no início; mas como um machucado na pele, se bem cuidados, logo param de sangrar, formam uma casca, cicatrizam – e se formos inteligentes e não ficarmos cutucando as feridas, estas finalmente desaparecem.

Às vezes, como nos ferimentos na pele, é preciso ajuda de outros para a cura de um ferimento na alma. Mas a tomada de decisão de limpar a ferida e fechá-la é um passo enorme para a sua cura. “O Eterno te colocará por cabeça e não por cauda” (Deut. 28:13). É preciso atitude, seguir em frente, confiar na cura da alma e do corpo.

Não te desvies de todas as palavras que Eu te ordeno hoje, nem para a direita nem para a esquerda, indo atrás de outros deuses” (28:14). Deus não nos diria isso se, por natureza, não nos desviássemos de Suas palavras. No entanto, foi Ele mesmo quem nos deu o livre arbítrio. E livre arbítrio pressupõe a possibilidade do erro – mas também do aprendizado e do crescimento com o mesmo. Não deveríamos nos desviar, mas ao mesmo tempo, precisamos nos desviar para crescer e amadurecer. Retornar e reparar erros cometidos, longe de ser sinal de fraqueza, é sinal de crescimento. Em qualquer fase da vida: “letaken olam bemalchut Shadai”, recuperar o mundo sob o reino do Todo Poderoso. Ele é Todo Poderoso, não nós. Nós erramos. Mas temos a possibilidade maravilhosa de assumir o erro – e seguir em frente.

Estamos nos aproximando do ano novo judaico e os dias se tornam cada vez mais intensos. Ser cabeça da situação pode tornar estes dias maravilhosos; deixar-se levar como uma cauda, omitirmo-nos de assumir as rédeas da própria vida, pode significar renunciar à vida ou à suas múltiplas possibilidades: pode tornar nossos dias, dias terríveis.

Escutar a voz divina – o que significa? A Torá nos adverte que, se ouvirmos a voz de Deus coletivamente, “virão sobre ti todas as bênçãos e estas te alcançarão” (28:2). É preciso ser corajoso(a) para enfrentar as maledicências dos que não querem que não sejamos o que eles querem que sejamos. O processo de mudança, de retornar para um ponto anterior, de retomar as rédeas da própria vida, também pode gerar sofrimento e dúvida – mas se escutarmos a voz divina no coração, as chances de sermos alcançados por bênçãos são maiores, bem maiores. Em outras palavras: se estamos conscientes de que estamos seguindo a voz divina, dentro de nós, ao mudarmos a rota temos uma enorme chance de escutar Deus nos dizer “Salachti”, “Eu te perdoei”. Re-tornar é tornar a ser.

Os dias que vivemos no mês de Elul e logo no início de Tishrê nos convidam a limpar o caminho, a reorganizar a vida e assim, abrir novas perspectivas. Aprender com o passado, sem viver no passado nem do passado. Em uma das versões do Kol Nidrê somos convocados a pedir que nossas promessas para o próximo ano sejam consideradas nulas – não as do ano que passou, mas do ano que virá. Pressupõe, de modo otimista e amoroso, que aprendemos dos erros do passado e não precisamos retornar a eles. Ficaram no passado. Do passado fica a gratidão por nossos acertos e a gratidão por termos aprendido com nossos erros. Que aprendamos dos erros que virão no futuro, pois com os do passado já aprendemos.

Ki tavô – literalmente, “porque você virá”. A Torá nos convoca a seguir em frente, a entrar na terra que Deus nos dá para habitar – esta terra é a nossa própria vida. A Torá nos ordena mais: que não retornemos ao Egito. Lembremo-nos dos nossos egitos, para que não se repitam e não fiquemos escravos deles. O Egito ficou para trás. Que entremos de cabeça no futuro; escutemos o que Deus nos diz e sejamos donos do nosso próprio destino. Paradoxal? “Não sigam outros deuses”… Agora, os outros “deuses” estão para o lado da cauda. Usemos a cabeça!

É a nossa atitude de podar nossos galhos secos e mortos, de nos cuidarmos, de limparmos as folhas secas, de aceitarmos novas águas – que permitirá o nascimento de novos frutos a serem oferecidos em gratidão no ano que está para se iniciar: “Eis que agora eu trouxe as primícias do fruto da terra que me deste, Eterno!… E te alegrarás com todo o bem que o Eterno teu Deus te tem dado” (26:10-11).

Que já nestes dias de Elul, limpos dos erros do passado, possamos nos alegrar com o enorme bem que Deus nos oferece para o ano que está chegando. Que estes dias intensos sejam o prenúncio de anos maravilhosos. Que sejamos, juntos, inscritos no Livro da Vida de 5774 em diante.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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