Drashá da Semana: Parashiot Nitzavim-Vaielech

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Há muitos anos um homem levantou-se pela manhã e percebeu que havia algo muito importante para realizar. Ele sabia que era chegada a hora de partir da sua cidade, na região de Ur, na Caldeia. Ele se colocou a caminho.

Este homem buscava paz. Ele sabia que paz não é algo que se alcança sozinho, mas somente na relação com outras pessoas. Este homem sabia que suas decisões individuais não eram só problema dele e que as coisas que outros faziam não eram só problemas dos outros. Este homem sabia que as decisões de uma pessoa influenciam, sempre, nas vidas de outras pessoas, para o bem e para o mal.

Este homem conhecia o sentido da palavra Povo – Am, em hebraico – que lido de outra forma, também forma a palavra Im, “com”. Por outro lado, a palavra “sem” em hebraico é bli, também pode apontar literalmente para “algo dentro de mim” e só dentro de mim. Ao contrário de estar com, quem decide que suas atitudes são só da sua conta não entende o sentido de pertencer a um povo, a um grupo, a uma família. A pessoa egoísta não tem este homem como modelo.

***

Quando se deu conta do que deveria fazer, este homem escutou uma voz diferente de tudo o que já havia escutado na vida: LECH LECHÁ, “Vá, vá por si mesmo, sai da tua terra, da tua pátria, e da casa dos teus pais, e vá para a terra que Eu te indicar” (Gên. 12:1). Este homem era Abrão, o primeiro patriarca de Am Israel, o Povo de Israel; ele estava im Israel, com Israel.

Força e Coragem

Cada um de nós já experimentou momentos, nos negócios, na vida comunitária e na vida familiar, em que o destino de outras pessoas dependeu, em parte, de uma decisão nossa. Nesta semana, a Torá valoriza a pessoa, aquele(a) que está do nosso lado, com suas qualidades e defeitos, mas está do nosso lado. Moisés está com 120 anos e sabe que não “cruzará este Jordão”, consciente de que morrerá antes de entrar na Terra de Israel. Neste momento, Moises chama Josué e diz a ele diante de todo o povo: “Chazak veemátz, força e coragem, pois você levará este povo para a terra que Deus jurou aos seus antepassados…”. (Deut. 31:7)

Moisés não busca desfazer de Josué. Moisés não valoriza os defeitos de Josué, que certamente os tinha. Moisés não o chama de incapaz, nem por diversão, nem por convicção. Moisés diz “força e coragem, força e coragem”. Moisés valoriza seu companheiro. Moisés respeita quem está do seu lado.

Moisés via em Josué um homem pronto a correr riscos, disposto inclusive a errar, mas certamente a dar a vida por aquilo que acredita. Josué não era o líder ideal; Josué era um líder de verdade, de carne e sangue nas veias. E Moisés soube valorizar este homem.

Quando Deus disse a Abrão que era preciso abandonar a sua terra, o que foi mesmo que Deus disse? Deus disse que era preciso abandonar o conhecido para se enfrentar com o desconhecido. Mas entre o conhecido e o desconhecido, era preciso viver o presente, encontrar o parceiro ou a parceira que o acompanhasse nesta grande aventura, e confiar em Deus que tudo daria certo, no final das contas.

Nesta semana nós nos encontramos com os descendentes de Abrahão, prestes a terminarem a sua longa peregrinação. Milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, jovens e velhos. Essa gente toda estava diante de Deus para reafirmar o brit, a aliança. Como num casamento judaico, podemos imaginar o momento cerimonial e emocionante em que “a noiva”, o povo de Israel, diz ao “noivo”, Deus: Ani ledodi vedodi li, eu pertenço ao meu amado e meu amado me pertence. E Deus responde: “Eu te consagro para Mim, através desta Aliança, conforme as Leis de Moisés e de Israel”. É de mexer com os sentimentos de qualquer um e de qualquer uma. Desde que se sinta parte; desde que se dê conta de que os seus problemas são também os meus problemas e que juntos podemos encontrar as soluções. Povo. Am. Com. Im. Gente.

Toda cerimônia de casamento é linda – e os noivos estão sempre lindos debaixo da hupá. O momento é de festa, de alegria, de abraços e beijos, de cumprimentos mil.

Passado este momento, inesquecível com certeza, é preciso lembrar que um casamento também significa – novamente – que não se faz nada sozinho. E no caso de um casamento tao especial quanto este, entre o Povo de Israel e Deus, mais do que nunca fica explícita a certeza de que Deus e nós somos parceiros na Obra da Criação. Assim como, lá no início, Abrão deixou a sua terra, a sua pátria e a casa de seus pais para ir em direção a uma terra desconhecida, podemos imaginar que também Deus deixou a tranquilidade dos mundos espirituais e a companhia dos anjos para se unir ao ser humano numa viagem cujo futuro era incerto, porém promissor. Assim como o povo de Israel não tem como prosperar e se estabelecer sozinho, Deus também não tem como ser significativo no mundo sem ter com quem compartilhar Seus sucessos e Seus desafios. “Não é bom que o homem esteja só”, diz a Torá. Não é bom que Deus esteja só.

Deus deixa bem claro, na Torá, que aquele ou aquela que imagina ser capaz de fazer tudo sozinho ou que considera que pode realizar o que bem quiser somente de acordo com os desejos do seu coração ou com as conclusões de sua mente apenas – este está fadado ao fracasso. E por que? Porque não se dispõe, de verdade, a escutar e a amar o outro.

Estamos às vésperas do novo ano judaico, 5774. Neste momento estão se abrindo os portais para os mundos espirituais, que nos colocam em contato ainda mais próximo e sensível com Deus e com as pessoas a quem amamos. Ninguém constroi nada sozinho, ninguem cruza os portais para Deus sozinho, ninguém constroi uma comunidade sozinho, ninguém constroi uma família sozinho. A aliança entre nós precisa ser renovada de tempos em tempos, e esta é a época mais propícia.

Agora é chegado o momento de renovarmos esta aliança. Eu me coloco junto a todos vocês, como num casamento, com o desejo enorme de que possamos entrar em 5774 juntos – e juntos seguirmos construindo e honrando nossos valores judaicos em harmonia com os valores democráticos e éticos dos tempos em que vivemos.

Neste momento de união, de aliança, de alegria, Deus nos dá a escolha: Ele coloca diante de nós a vida e o bem, a morte e o mal (Deut. 30:15). E a ordem é: Uvacharta bachaim, Escolha a Vida. Sendo assim, desejo a todos nós uma feliz aliança neste novo ano de 5774 – e que sejamos merecedores de dizermos todos juntos, unidos: LECHAIM!!!

Shaná tová umetucá, um ano bom e doce, com muito, mas muito amor

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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