Drashá da Semana – Parashat Haazinu

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Nestas últimas semanas vivemos dias muito intensos, cheios de encontros e desencontros, de recordações para se lembrar e para se esquecer, repletos de potencial para mudanças em um futuro que já começou, tão promissor quanto incerto, em alguns momentos até assustador.

O mês de Elul este ano coincidiu com o mês de agosto, conhecido no Brasil como “mês do cachorro louco”. Se Elul é um mês de reflexões sobre o ano judaico de 5773 que agora termina, o mês de agosto, por motivos de superstição ou por razões que a própria razão desconhece, tem para alguns o dom de desconstruir sonhos, de derrubar aviões – ou até governos – e de proporcionar experiências as mais estranhas. Juntemos os dois, Agosto e Elul, e temos dias realmente intensos, que podem ser encarados de fato como dias de capará, de expiação.

Por outro lado, Elul foi um mês intenso também do lado positivo, como não poderia deixar de ser: pois com a desconstrução de supostas realidades estabelecidas, abriu-se espaço para novas construções, para o novo, para a criatividade, para a esperança e para o amor. É o momento propício de nos prepararmos para o novo ano de 5774 que inicia esta semana.

Neste Shabat escutamos Moisés recitar a Shirat Haazinu, um poema com 43 versos escritos na forma de duas colunas. Do meu lado, imaginei o branco entre as colunas de palavras de Shirat Haazinu como a brilhante coluna de fogo pela qual Deus guiava nossos antepassados e nos guia ainda hoje pelas noites de nossos desertos pessoais, e assim temos a coragem de enfrentar nossos medos da escuridão; como rezamos em nossa liturgia, assim como a luz envolve a escuridão, em seguida a escuridão é envolvida pela luz. Nada como um dia depois do outro, como sempre disse a minha idishe mame… Por sua vez, as escuras colunas laterais me parecem a coluna de fumaça com a qual Deus guiou nossos antepassados – e nos guia ainda hoje – durante o dia, com sua fuligem destacando ainda mais as fagulhas brilhantes que flutuam ao seu redor, em fogo, revelando as letras da Torá.

Assim começa o poema de Haazinu: “Que ouçam os céus o que eu direi; que escute a terra as palavras da minha boca”.

Conta um midrash (Midrash Rabá, Devarim 10:4) que perguntaram a Moisés: “Por que você se dirige aos céus e à terra?” E Moisés respondeu – tão judaicamente: “Estou prestes a morrer; não sei se a minha alma vai para o céu ou para a terra. Por isso me dirijo aos dois. Assim, para onde a minha alma for, ela irá tranquila e estará bem.”

O poema de Moisés pode nos elevar até os céus como se carregados pelo som do shofar. Por outro lado, pode soar como uma canção de protesto. Podemos imaginar o nosso maior líder e profeta diante do povo e diante da terra, o rosto ruborizado e brilhante, o coração saltando pela boca, os lábios trêmulos: “Não é hora de gaguejar”, ele poderia estar pensando… Um filme passa pela sua cabeça: a infância e juventude na corte egípcia, o susto de ser o escolhido para liderar o povo em direção à liberdade, a inimaginável coragem para enfrentar o Faraó, a paciência para resolver conflitos, a consolidação da liderança e as forças para seguir adiante. E aquele povo ali: rebelde, difícil, teimoso, resistente.

Como falar de forma que eles escutem? Certamente não foi como a famosa canção de protesto do fim da década de 1960: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber…”, de Geraldo Vandré. Se tivesse cantado isso, talvez escutasse uma voz Divina vinda do Céu: “Moisés, que papo é esse de ‘vem vamos embora’? Esqueça! Você não entrará em Israel.”

O poema teria que ser outro: teria que mexer com o coração do povo. Algo assim, como Disparada: “Prepare o seu coração, prás coisas que eu vou contar / Eu venho lá do sertão (3x) E posso não lhe agradar…” – outra canção de Geraldo Vandré, agora sim, a meu ver, com o espírito de Haazínu. As palavras de Moisés eram palavras de amor, mas duras como a terra do sertão e vibrantes como a batida do tambor – poderiam não agradar, mas eram necessárias.

“Prepare o seu coração prás coisas que eu vou contar”. Finalmente, após 40 anos, ali estavam: Moisés, o povo e a terra. Moisés fala para emocionar, para provocar, para mexer com todas as estruturas. “E posso não lhe agradar”, diz a canção. Moisés repreende, adverte, até ameaça: Deus é perfeito, mas nós,as pessoas, somos insensatos. Deus é Pai, amigo, companheiro de todas as horas. Deus é Mãe, a Águia que cuida dos filhotes, a Rocha que nos protege e nos alimenta com mel e azeite, com os temperos da vida. Mas as pessoas abandonam a Deus e assim, ficam órfãs de pai e mãe. “E posso não lhe agradar”. Mas era preciso dizer, claramente. Talvez, com bondade, na forma de poema.

Quem é o Moisés que recita estas palavras de Haazinu? Será um Moisés na terra, cansado e sem esperanças no futuro do povo de Israel? Ou será um Moisés no céu, que mede exatamente o peso de cada palavra como se cada letra fosse a gota de orvalho exata a regar a alma de cada judeu e de cada judia?

Moisés, que um dia foi gago – segundo o midrash – hoje fala firme; ele sabe que palavras bem ditas são palavras benditas e duram para sempre. As palavras de Moisés são tão eternas quanto os céus e a terra convocados a escutar o seu último poema.

Assim como Moisés, nós também não completaremos todas as nossas viagens nesta vida. Nossas aspirações mais elevadas em busca da paz, de consertar o mundo, talvez não possam ser completadas. Nem todos os nossos anseios pessoais poderão ser satisfeitos. Afinal, assim como Moisés, não somos imortais.

Por outro lado, a Torá nos ensina: desesperar jamais! Quando Moisés vê a Terra de Israel pouco antes de morrer, Deus lhe diz: “Coloque sua mão sobre Josué”. Josué continuará a viagem iniciada por Moisés, diante do povo, para a Terra Prometida. O tempo não pára, nem pode parar. Devemos ser otimistas, devemos acreditar e dar a oportunidade para que a próxima geração continue e complete o que nós um dia iniciamos e continuamos.

A última parashá da Torá inicia assim: Vezot habrachá asher berach Moshé, ish haElohim, et bnei Israel. “Esta foi a bênção com a qual Moisés, homem de Deus, abençoou o povo de Israel.” Que bênção foi esta? Conta outro midrash que a bênção com a qual Moisés abençoou o povo foi a própria Torá! Vezot habrachá é Vezot haTorá – asher sam Moshé lifnei bnei Israel, a bênção é a Torá que Moisés colocou diante do povo de Israel.

Com a sabedoria da Torá entregue para nós, diante de toda a Terra de Israel ainda por desbravar e sob a nova liderança de Josué – Moisés, realizado, estava pronto para ver o seu povo seguir adiante: “Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar / E a morte, o destino, tudo, a morte, o destino, tudo / Estava fora do lugar”; Mas Moisés – e todos nós, ao seguirmos o seu exemplo, vivemos prá consertar.

Shaná tová, que tenhamos sucesso neste ano em consertar o máximo de coisas que estão erradas neste mundo – e sejamos felizes!

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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