Para receber bem o Ano Novo 5774

Shana Tova linguas Pequeno

Rabino Uri Lam – SIB

Em uma reunião com membros de nossa comunidade, no salão da sinagoga, em preparação para as comemorações de Rosh Hashaná, ano novo judaico; e do Iom Kipur, o Dia do Perdão, pude perceber que cada pessoa carrega consigo não apenas a sua própria experiência de vida judaica, mas a herança de seus pais e avós e a história do ishuv da Bahia. Desta história fazem parte diversas tradições judaicas que vieram junto com judeus ashkenazim e sefaradim, mas também com os sionistas e os comunistas; e mais recentemente, com visões desde as mais ortodoxas até as conservadoras e as mais progressistas/reformistas.

É comum, quando falamos na diversidade de visões judaicas de mundo, aparecerem aqueles que dizem: “Rabino, na minha opinião temos que fazer como no filme ‘O Violinista no Telhado’: O que importa? TRADITION, Tradição!. Não temos que mudar nada. Não podemos mudar nada. O que os mais velhos irão pensar?”

Como rabino da comunidade, tendo a dizer “sim, você tem razão, tradição é muito importante!” Contudo, embora eu concorde que tradição seja importante, é muito provável que a minha visão de tradição esteja mais em harmonia com o modo como o autor da obra prima “Tevye o Leiteiro”, Sholem Aleichem, queria dizer com tradição, do que com o modo como a maioria das pessoas se prende a este termo. Se nos lembrarmos do filme, veremos que a tradição é somente o início da história: com o desenrolar dos acontecimentos, Tevye e sua família terão que confrontar a tradição com o dia a dia, com a realidade. Do encontro entre tradição e o dia a dia surgirão novas tradições.

Sim: a mudança é a maior tradição judaica e o segredo de nossa sobrevivência como povo. Tudo começou com uma enorme mudança: Abrão questionou a sociedade em seu redor e, diante de ameaças à sua integridade – física e espiritual – partiu para uma nova terra e instituiu um novo modo de lidar com Deus. Já mais para frente, as filhas de Tzelofchad questionaram Moisés sobre o direito das mulheres à herança – e uma nova mudança foi instituída. Os nossos antigos rabinos, por sua vez, proporcionaram uma mudança radical de se viver judaicamente, após a destruição do Templo. Com o passar do tempo, foram surgindo novas tradições, como a cerimônia de matrimônio judaico, por exemplo, com inúmeras e diferentes expressões sobre o mesmo tema. Nos tempos modernos, tradições de origens diversas, vindas de diversas comunidades ao redor do mundo, só enriqueceram e diversificaram a vida judaica, ora através de novas liturgias, de novos elementos simbólicos, da participação da mulher de modo mais ativo e igualitário.

Afinal de contas, o que é a tradição? No senso comum, a tradição é algo instituído no passado e que não temos permissão para mudar, em respeito aos antigos, aos mais velhos.

Mas numa comunidade diversificada como a nossa, há diversos antigos e diversos mais velhos, de origens diferentes, que aprenderam valores diferentes advindos de circunstâncias e de gênios criativos os mais diferentes. E agora, se considerarmos que há uma única tradição, qual delas devemos seguir?

Chadesh iamenu kekédem

“Renove os nossos dias como no início”. Esta afirmação, que faz parte da nossa liturgia, pode significar algo como “faça nossos dias como eram no passado”. Eu a entendo como “permita-nos renovar nossos dias e dar a eles novos significados, assim como nossos antepassados fizeram nas suas respectivas épocas”.

Rosh Hashaná é um período que nos convida a renovar nossas tradições. Talvez a principal tradição judaica seja a nossa enorme capacidade não de repetir o passado, mas a nossa capacidade de mudança, revendo a forma para manter a essência. Todos os anos comemoramos o nascimento do mundo e do ser humano, mas todos os anos somos pessoas diferentes. Uma tradição necessariamente será formada de muitas vozes, desde as que ecoam de um passado quase mítico, passando por um passado mais recente, alcançando o presente e já com sons que parecem vir do futuro.

Assim, há valores importantes que nos preparam para Rosh Hashaná, mas a expressão destes valores e o seu sentido se renovam de geração em geração. Podemos até dizer que, como parte da dinâmica judaica, tradições ashkenazis e sefaradis, sionistas e dos antigos comunistas, ortodoxas, conservadoras, reformistas e de toda tendência de renovação judaica se mesclam numa dança das mais belas para tornar cada ano, de fato, um novo ano, recriando (e não somente repetindo) a Obra da Criação.

É com este espírito que podemos iniciar o nosso jantar de Rosh Hashaná, logo após o serviço religioso noturno. Nossos rabinos de épocas passadas eram bastante criativos. Eles criaram e nos ensinaram diversas bênçãos para os vários alimentos simbólicos desta época, de modo a amplificar a nossa consciência e o nosso impulso de tornar este novo ano realmente especial.

A maioria de nós conhece os símbolos da maçã e do mel como representantes da doçura esperada para o novo ano. Mas além de doçura, o que mais esperamos? O que mais podemos fazer? Desejamos um ano de prosperidade, de desenvolvimento e de realizações materiais e espirituais. Desejamos que o ciclo da vida siga seu rumo, com novos nascimentos, novas cerimônias de bar e bat mitsvá, novos casamentos – e que tenhamos uma comunidade suficientemente unida e bondosa para confortar aqueles que perderem seus entes queridos ao longo do novo ano.

Com o tempo, novos elementos foram sendo agregados à mesa de Rosh Hashaná. Citaremos aqui alguns deles e suas bênçãos. A minha sugestão é que você agregue pelo menos mais um elemento à sua mesa e crie a sua própria benção, somando mais um significado de alegria, amor, prosperidade e saúde como desejos de realizações para o novo ano. Com isso manteremos viva a comemoração de mais um ano judaico, mantendo vivas as diversas chamas que alimentam o judaísmo.

Rosh HaShana Shofar Mel Maca

JANTAR DE ROSH HASHANÁ

Se o ano novo judaico começasse este ano em uma noite de Shabat, poderíamos começar com a canção “Shalom Aleichem”, dando boas vindas aos anjos da paz. Nada impede, porém, que cantemos também esta canção na noite de Rosh Hashaná, pois em sua letra não se refere especificamente ao Shabat. Assim, fica uma sugestão: que os anjos nos acompanhem no início do novo ano judaico!

Podemos também acrescentar canções modernas, como “Bashaná Habaá” (No ano que vem) de Ehud Manor, cujo refrão diz: “Od Tirê od tirê cama tov ihiê bashaná bashaná habaá…” – você ainda verá como bom será no ano que virá.

Na sequência, recitamos o Kidush de Rosh Hashaná e em seguida agradecemos através da benção Shehecheiánu, quando reconhecemos que estamos aqui, firmes e fortes, graças à bondade do nosso Deus, ao mesmo tempo firme como um Rei acolhedor como nossos pais.

NETILAT IADAIM – LAVAR RITUALMENTE AS MÃOS
Mais do que lavar normalmente as mãos, trata-se aqui de um processo espiritual de purificação, de nos conectarmos com o alimento físico e espiritual que iremos consumir em seguida. Enchemos um recipiente de água e a vertemos três vezes sobre a mão direita e três vezes sobre a mão esquerda. Em seguida recitamos a benção:

BARUCH ATÁ ADONAI ELOHENU MELECH HAOLAM, ASHER KIDESHANU BEMITZVOTAV VETZIVANU AL NETILAT IADAIM. Bendito seja, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, por nos santificar com Suas mitzvot e nos ordenar cumprir o ritual de lavar as mãos.

BÊNÇÃO PARA O PÃO
Pega-se uma das chalot agulot ( redondas, como o ciclo do tempo) e se diz a brachá:

BARUCH ATÁ ADONAI ELOHENU MELECH HAOLAM, HAMOTZI LECHEM MIN HAARETZ.
Bendito seja, Eterno, nosso Deus, Rei do universo, por extrair o pão (alimento) da terra.

MAÇÃ
A maçã, que pode ser cozida com açúcar o imersa em açúcar derretido (ou no mel), representa o nosso desejo de termos um ano doce, amoroso e pleno de bondade. Seguramos um pedaço de maçã e dizemos:

BARUCH ATÁ ADONAI ELOHENU MELECH HAOLAM, BORE PRI HAETZ.
Bendito seja, nosso Deus, Rei do universo, por criar o fruto da árvore.

Comemos a maçã passada no mel ou no açúcar e dizemos:

IEHI RATZON MILEFANECHA, ADONAI ELOHENU VEELOHE AVOTEINU VEIMOTENU, SHETITCHADESH ALENU SHANA TOVÁ UMETUKÁ, MERESHIT HASHANÁ VEAD ACHARIT HASHANÁ.
Eterno, nosso Deus e Deus de nossos antepassados, que seja a Sua vontade permitir que este ano venha renovado para nós com bondade e doçura, do início ao fim.

ROMÃ

Segundo uma tradição, a romã contém 613 sementes, número igual ao das mitzvot. Ao comermos romã em Rosh Hashaná, expressamos os nossos desejos de cumprir mais mitzvot e ajudar a tornar o mundo melhor, através de nossas ações práticas de tikun olam, de consertar o mundo. Pega-se a romã e se diz:

IEHI RATZON MILEFANECHA, ADONAI ELOHENU VEELOHEI AVOTENU VEIMOTENU, SHEIRBU ZECHUIOTENU CARIMON.
Eterno, nosso Deus e Deus de nossos antepassados, que seja a Sua vontade permitir que nossos méritos sejam tantos quanto as sementes da Romã.

VAGEM

Ao comermos a vagem, desejamos que as nossas boas ações no ano que se inicia cresçam como as vagens no campo. Vagem em hebraico é Ruviá, que tem a mesma raiz do que o verbo Leharbot, multiplicar-se:

IEHI RATZON MILEFANECHA, ADONAI ELOHENU VEELOHE AVOTENU VEIMOTENU, SHEIRBU ZECHUIOTENU KARUVIÁ.
Eterno, nosso Deus e Deus de nossos antepassados, que seja a Sua vontade permitir que os nossos méritos se multipliquem como as plantações de vagem.

CABEÇA DE PEIXE

A cabeça de peixe simboliza a passagem bíblica segundo a qual devemos ser a cabeça e não a cauda – em outras palavras, sermos proativos, estarmos na vanguarda, sermos soberanos sobre os caminhos de nossas vidas. O conceito é oposto a uma canção brasileira que diz “deixa a vida me levar…”. Nós devemos levar nossas vidas, através do estudo, da prática de boas ações, da busca da justiça e das relações amorosas com todos os seres humanos e com o mundo do qual fazemos parte. Por isso pedimos:

IEHI RATZON MILEFANECHA, ADONAI ELOHENU VEELOHE AVOTENU VEIMOTENU, SHENIHIE LEROSH VE LO LEZANAV.
Eterno, nosso Deus e Deus de nossos antepassados, que seja a Sua vontade permitir que estejamos no comando de nossas vidas e não levados como caudas.

Que neste novo ano de 5774 renovemos nossas vidas para o bem, para as boas ações, para os estudos, para termos uma comunidade unida, em que todos e todas colaborem entre si a fim de que o ano possa ser bom, próspero e criativo para todos.

Shaná tová metuká umevorechet, um ano bom, doce e abençoado para todos nós!

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