Israel visto por um descendente do Holocausto

Roberto Ponczek

Roberto Ponczek

Nasci no Brasil, no mesmo ano da Independência de Israel (Hatzmaut) e apenas três anos depois do final da II Guerra Mundial. Meus pais eram poloneses, sobreviventes do Gueto de Varsóvia e chegaram ao Brasil em 1946, desprovidos, doentes e traumatizados pelos horrores que presenciaram. Viram quando seus pais foram levados aos comboios da morte para serem gaseificados nos campos de concentração de Auschwitz e Treblinka. Passei a minha infância/adolescência no Rio de Janeiro ouvindo os terríveis relatos e histórias presenciadas por Wanda Goldblum e Tadeusz (David Tevel) Ponczek; estes eram os nomes de meus pais. Por consequência, desenvolvi em minha mente juvenil um conceito trágico do que venha a ser o Judaísmo. Para mim, os judeus eram fracos, encurvados, branquelos e tristes. Séculos de perseguições, pogroms e o holocausto nazista fizeram com que os judeus do Leste europeu fossem, de fato, fracos, doentes, tristes e branquelos como meus pais.

Durante muitos anos depois da Guerra meus amedrontados pais praticaram o cripto-judaísmo tal qual os marranos em Portugal e Espanha, que se escondiam da Inquisição, passando-se por cristãos. Tivemos, eu e minha irmã, ordens de jamais dizer publicamente que éramos judeus e fazíamos as rezas do Shabat e do Seder com as cortinas de casa devidamente cerradas para que a vizinhança não suspeitasse. Mais de uma década depois do final da II Guerra, eles se sentiam ameaçados como se estivessem sendo perseguidos pela Gestapo. Meus pais eram marranos poloneses!
À medida que Israel foi se consolidando irreversivelmente como nação estável, principalmente depois da Guerra dos Seis Dias, meus pais foram gradativamente se encorajando e, finalmente, reassumiram suas plenas identidades judaicas, passando a frequentar a Sinagoga da ARI, no Rio de Janeiro, à época dirigida pelo saudoso Rabino Henrik Lemle. Para meus pais, a existência de Israel era uma garantia de que os fatos ocorridos na Europa, jamais se repetiriam. Meu pai costumava sempre dizer de alto e bom tom: “Israel não permitirá que algo de mal nos aconteça de novo”.

Na minha mente de adolescente, passaram a coexistir duas imagens contraditórias, mas complementares do povo judeu: de um lado, a do judeu, fraco, pálido e doente do Leste europeu, contrapondo-se a do judeu sabra israeli, forte, musculoso e moreno. A melhor explicação que encontrei é que os judeus da diáspora europeia eram fracos e branquelos porque passavam a vida estudando nas yeshivás e orando nas bujnitzas (sinagogas) espalhadas pelos shtetels da Polônia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Rússia, Lituânia, Letônia, etc. Já os sabras eram fortes e musculosos porque cultivavam a lavoura nos kibutzim da Samaria e Galileia, e combatiam no exército, curtindo suas peles morenas debaixo do escaldante sol dos desertos do Neguev, Sinai e Judéia.

Éretz Israel nasceu assim, como uma fênix, das cinzas ainda fumegantes do holocausto nazista e dos pogroms. Seus fundadores eram quase todos, como os meus pais, “branquelos” do Leste europeu, mas, apenas duas gerações depois, seus netos já eram sabras morenos e musculosos, arando e defendendo o país recém-criado. Israel nasceu e desenvolveu-se assim sob o estigma dos genocídios europeus, mas bastaram três gerações para converter-se numa grande, produtiva e organizada colmeia humana, pois tal qual as abelhas, os israelis dedicam-se a produzir o seu mel. No entanto, se alguém se aproximar agressiva ou sorrateiramente da colmeia será prontamente repelido por um organizado e agressivo exército de abelhas soldados. Os ingleses que já foram os senhores do mundo, e mandatários daquilo que os romanos chamavam de Palestina, costumam paradoxalmente afirmar que a força de Israel é desproporcional a de seus vizinhos. Será que as abelhas-soldados, que defendem sua colmeia, atacando seus agressores com dolorosas ferroadas, o fazem de forma desproporcional ou apenas lutam para preservar a sua existência tantas vezes seriamente ameaçada? Israel reage não só para se autodefender de agressões presentes, mas para defender a memória de seus ancestrais humilhantemente perseguidos há milênios.

Roberto Leon Ponczek é colunista convidado do SIB e-News. Você também pode colaborar com o SIB e-News enviando um e-mail para sib.e.news@gmail.com

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9 pensamentos sobre “Israel visto por um descendente do Holocausto

  1. Parabenizo o SIB e-News e o Roberto Leon Ponczek por trazerem neste post mais um testemunho, tanto do sofrimento quanto da força de nosso povo em se agarrar à vida. Depois de quase dois milênios de privações e humilhações conseguimos construir uma Nação de Homens fortes e determinados que somados à tecnologia nela desenvolvida, estão aptos a fazer frente e se impor a centenas de milhões de vizinhos hostis. Nossa vontade de viver com dignidade fala gigantescamente mais alto do que o fanatismo daqueles que querem “nos jogar ao mar”. Graças a Deus os pais do Roberto perceberam em vida a força dessa Grande Nação. Cabe a todos nós que vivenciamos depoimentos como este, hoje por descendentes e 1a linha e depois, pelos de outras gerações, preservarmos essa memória, o exemplo de Israel e nossa força de viver, para nunca sucumbirmos às agressões gratuitas de quem não quer o nosso bem.

    • Querido amigo,
      Vc captou totalmente o espírito do texto. Os judeus morenos de Israel não se deixaram intimidar como infelizmente fizeram os judeus branquelos do leste europeu, como meus queridos e assustados pais. Que D’us os tenha! Tomarei a liberdade de transcrever parte desse tua resposta no nosso grupo Judaísmo do F.B. Vc permite?
      Um grande abraço Roberto Leon

      • Caro amigo Roberto, somos um povo moral e culturalmente forte. Não consigo entender a diferença entre morenos, branquelos ou negros. Essa multiplicidade, típica do judaismo, com Maimonides, Spinoza e também com Rabin, Einstein e inúmeros outros Grandes Homens fazem nossa história. Pode usar o texto, Mas suas palavras já dizem tudo.

        do amigo Aba Cohen

      • Complemento o meu comentário sobre a força moral e cultural impregnada no judaísmo: Soma-se a tudo isto o nosso direito, na condição de Seres Humanos iguais aos de qualquer outro povo, de nos sentirmos humilhados, derrotados e mesmo fracos, como míseros joguetes, sem possibilidades de defesa, nas vis mãos de algozes inimigos. A manifestação do Roberto Leon reflete essa indignação que todos gostaríamos de gritar aos 4 ventos, contra a força bruta e irracional que quer ou quis nos massacrar com o discurso de um “povo (ironicamente) menor”.

  2. As gerações sempre se sobrepõem antagonicamente em toda a história. A uma geração de puros, sobrepõe-se uma de devassos. A uma geração de rebeldes, sobrepõe-se uma de pacifistas e assim tem sido através dos séculos. Mas, em relação ao povo judeu, a sequência não se fez presente. A uma geração de judeus, “fracos, branquelos, e doentes”, sobrepôs-se uma geração de fortes, morenos e guerreiros, e a esta, sempre uma outra igual e mais outra e mais outra e mais outra. E assim o será para todo o sempre. Amém.

  3. Querido Robero
    Achei muito profundo o seu relato. Senti-me mobilizada pois tb sou protagonista desta Historia dramatica e heroica. Um bjo, sua irma, Ivone

  4. Ivone, você vivenciou , junto comigo, os angustiantes anos após o pós-guerra, ao longo dos quais nossos pais viviam em pânico, adotando uma postura cripto-judaica pelo temor de uma “volta de Hitler”.
    Bjs,
    Roberto

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