Simchat Torá – Marcar hora com a alegria

Simchat Tora ha SIB

 

São só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também de despedida, a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar, é a vida desse meu lugar, é a vida.
Encontros e Despedidas – Milton Nascimento e Fernando Brant

Dizia o Rebe Nachman de Breslav: “É uma grande mitzvá (obrigação) estar alegre, sempre”.

Será possível estar sempre alegre, sempre feliz, sempre contente? Será possível que alguém seja obrigado a ser feliz através de um mandamento?

A festa de Simchat Torá, que comemoramos nesta semana, dá a entender que há momentos nos quais somos espontaneamente felizes e há momentos em que devemos marcar hora com a alegria. É de se imaginar que Rebe Nachman de Breslav soubesse que é impossível ser feliz o tempo inteiro. Creio que quando ele afirmava para si mesmo que ser feliz deve ser uma obrigação, esta foi a maneira que ele encontrou para marcar hora com a alegria, forçar-se a sair de seus costumeiros estados de tristeza e depressão, levantar a cabeça e buscar ser feliz. Parece que ser feliz não ocorre por “combustão espontânea”; para ser feliz é preciso esforçar-se, alimentar a chama da vida.

Depois de um ano inteiro de vida comunitária, chegamos ao término da leitura da Torá.

Vale a pena lermos juntos o último e o primeiro trechos da Torá, lidos no dia de Simchat Torá:

Moisés subiu das planícies de Moav em direção ao Monte Nevo, no topo do seu ápice, voltado para Jericó; e o Eterno lhe mostrou toda a terra… O Eterno lhe disse: “Esta é a terra que jurei a Abraão, Isaac e Jacob, dizendo: Eu a darei para os seus descendentes e a mostro para você, mas para lá você não passará”. Lá morreu Moisés, servo do Eterno, na terra de Moav, conforme o Eterno. E o sepultou no vale da terra de Moav, diante de Beit Peor; mas ninguém soube onde foi sepultado – até hoje. Moisés tinha 120 anos ao morrer… Os filhos de Israel choraram por Moisés nas planícies de Moav por trinta dias… Josué bin Nun estava pleno do espírito de sabedoria, pois Moisés o ordenou com suas mãos; e os filhos de Israel o escutaram e fizeram conforme o Eterno ordenara a Moisés. Mas nunca mais houve um profeta em Israel como Moisés, a quem o Eterno conhecera face a face, quanto a todos os sinais e maravilhas que o Eterno o enviou para fazer na terra do Egito – ao Faraó, a todos os seus escravos e a toda a sua terra. E por toda a mão forte, e por todo o grande respeito [temor] que Moisés teve na prática aos olhos de todo o povo de Israel. (Deut. 34)

No princípio Deus criou o Céu e a Terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom. E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi. E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra, E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto. (Gênesis 1)

Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados. E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.

Vamos à última leitura da Torá: onde está a alegria? Moisés, o nosso maior mestre, morreu… Isso lá é hora de se alegrar?

Se lermos com mais cuidado, este é um momento de grande alegria. Moisés viveu seus 120 anos na plenitude; ele viveu cada minuto como se fosse o primeiro e cada instante como se fosse o último. No momento de sua morte, Moisés estava no auge: no topo do pico do monte, com os olhos brilhantes e as faces coradas. O povo chora a sua morte, mas o luto tem começo e tem fim. A Torá não termina com o choro do povo, mas com o reconhecimento da maior realização de Moisés: levar o seu povo da escravidão para a liberdade; e apesar dos percalços no meio do caminho, no final ficou a imagem de um líder seguro e respeitado por sua gente. Moisés enche o seu povo de orgulho até hoje. Que grande alegria!

Mas não podemos ficar parados no tempo, admirando a história de Moisés. É preciso recomeçar, sempre. A alegria não é constante, como queria Rebe Nachman de Breslav. A alegria é cíclica. Querendo ou não, a tristeza, a angústia, o medo e o luto exigem também seu lugar ao sol – ou à escuridão, depende do ponto de vista. É preciso o esforço para que a alegria possa surgir. Ser feliz é resultado de um processo constante de criação de felicidade. Enfim, é preciso se arrumar, se preparar e marcar hora com a alegria.

Desde quando comemoramos Simchat Torá?

Uma aluna certa vez me perguntou como se comemorava Simchat Torá na época bíblica. Cheguei a pensar por um tempo na pergunta, que de boba não tem nada. Eu pensava: como se comemorava Pessach quando os israelitas caminhavam pelo deserto? Ou quando receberam a Torá? Ou quando os judeus escaparam, aliviados, do decreto genocida do perverso Haman? Certamente a alegria de vivenciar a conquista da liberdade, de presenciar o espetáculo de sons e cores no Monte Sinai, a ansiedade por conhecer o que seria transmitido por Moisés em primeira mão como a Torá entregue por Deus – tudo isso é bem diferente da alegria de contarmos estas histórias, dos rituais que criamos para rememorá-las, do sentido que emprestamos a cada uma delas.

A festa da Alegria da Torá, é de se presumir, só surgiu num período bem posterior, quando já era uma prática institucionalizada estudar o texto da Torá em caráter regular e continuado. Foi somente no século 11 que o marco do fim e reinício da leitura da Torá passou a ser conhecido como Simchat Torá e comemorado anualmente. Sim, porque não é óbvio que sua comemoração deve ser anual: ela não está vinculada a nenhum ciclo agrícola, nem a nenhuma estação do ano, tampouco ao ciclo solar ou aos meses regidos pela lua. Simchat Torá é uma festa criada totalmente por mãos e corações humanos.

Na Terra de Israel, por exemplo, havia a prática de ser ler a Torá em um ciclo trianual, que poderia levar até três anos e meio. É de imaginar que somente ao final deste período coubesse e houvesse a comemoração de toda a leitura. Já o ciclo anual era a prática mais comum entre os judeus que viviam na Babilônia.

A festa de Simchat Torá tal qual conhecemos hoje só pôde se tornar algo mais universal no século 8, quando os diferentes costumes no tocante ao ciclo de leitura da Torá foram equacionados de modo que todo mundo pudesse comemorar o fim do ciclo de leitura anualmente e na mesma data – mesmo que chegassem até o fim deste ciclo de modos diferentes.

Em Simchat Torá os rolos da Torá (Sifrê Torá) são retirados da arca sagrada (Aron Hakódesh) e carregados por membros da comunidade por sete vezes ao redor da sinagoga em circuitos conhecidos como Hakafot. Durante as hakafot é comum que os rolos da Torá passem de tempos em tempos de uma pessoa para outra e que todos cantem alegres canções judaicas em hebraico, carreguem bandeiras coloridas e bandeiras de Israel.

Em muitos lugares em Israel e ao redor do mundo, costuma-se realizar a comemoração de Simchat Torá na noite seguinte à do feriado, com muita música e dança, acompanhados de músicos e seus instrumentos musicais eletrônicos. Neste dia, os circuitos são chamados de hashkafot shniot – que podemos traduzir como segundas procissões ou circuitos alternativos. Esta foi a forma que muitas comunidades encontraram para comemorar Simchat Torá sem as restrições próprias do feriado religioso. Em muitas comunidades liberais, as hashkafot shniot são uma alternativa para a comemoração de Simchat Torá fora da data exata, no fim de semana, a fim de reunir um número maior de congregantes impossibilitados de participar da festividade em um dia de semana.

Em Simchat Torá todos e todas podem e devem segurar, carregar, abraçar e dançar com a Torá: homens, mulheres e crianças. O recado é claro: cada judeu tem o direito de tomar posse da herança que é sua, dançar com ela, divertir-se com ela, sentir-se à vontade com a sua Torá. O bem mais precioso do povo judeu deve ser incorporado em cada judeu como o seu bem mais precioso. Ao final da leitura de cada livro da Torá costumamos dizer “Chazak Chazak Venitchazek”, Força Força – e nos Fortaleceremos. Cada um e cada uma que abraça a Torá fortalece a si mesmo e à sua comunidade. O próximo passo é realmente se envolver com a Torá: com o estudo de seus valores, com a prática proposta em suas palavras, somada à interpretação de nossos sábios de todas as épocas até os dias atuais.

O serviço de leitura da Torá é o auge da comemoração. Neste momento é chamada uma pessoa para ser o Hatán Torá, no caso de um homem – ou Calát Torá, no caso de uma mulher: este(a) é o noivo(a) da Torá, que fará a última aliá do 5º livro da Torá, o Deuteronômio (Devarim), que fala da morte de Moisés, como já vimos. Em seguida outra pessoa é chamada para iniciar a leitura de outro livro da Torá e ler a primeira aliá. Este(a) é chamado(a) de hatán ou calát Bereshit, o noivo(a) do Bereshit, que fala da criação do mundo e do ser humano primordial. Há comunidades que chamam, para a última leitura, os mais velhos da comunidade; e para a primeira, as crianças que ainda não se tornaram bnei/bnot mitzvá. Sobre ela é estendido um talit, elas recebem uma benção especial e, em seguida, acompanhadas de um adulto, recitam as bênçãos sobre a leitura da Torá.

Por fim, podemos dizer que, por um instante, através da Torá, morte e vida se tocam e se conectam. O legado de Moisés não desaparece, mas entra delicadamente no meio do turbilhão do tohu vavohu, no início da criação do mundo. O ciclo da criação reinicia, mas não do zero; e sim, a partir de um aprendizado já adquirido pelas gerações anteriores. A união entre o passado e o presente se dá pela união da última letra da Torá, o Lamed, com a primeira letra do alfabeto hebraico, o Bet. Juntas, formam a bomba orgânica que impulsiona a vida do primeiro ao último momento; Lev, o coração. Como diz mesmo o hino do Estado de Israel? Kol od balelav penimá, néfesh yehudi homia – Enquanto no fundo do coração palpitar uma alma judaica… veremos que a alegria da Torá continuará vibrante dentro de todos nós, do povo de Israel.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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