Drashá da Semana: Parashat Noach

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Muitos de nós crescemos lendo histórias, assistindo filmes ou seriados que tratam de um tema recorrente: o dia a dia das pessoas na cidade ou no mundo está ameaçado por malfeitores, gente poderosa e tão ruim que ninguém normal é capaz de detê-los: a única esperança recai sobre um super-herói. O super-herói em geral sofre para alcançar seus objetivos, pois os vilões não estão para brincadeira – eles são maus de verdade. Além disso, enquanto o super-herói clássico é uma figura íntegra, que luta pelo bem e é do bem, o vilão costuma apelar para o cinismo, a soberba, o humor histérico – e principalmente para os golpes baixos. Há vilões que se veem como messias, salvadores do mundo. A sua loucura é tão grande que, convencidos de seu poder redentor, não medem esforços para destruir qualquer um que encontrar pelo caminho que possa atrapalhar seus planos belos somente para ele – e sórdidos para quem está ao redor.

No relato bíblico, porém, muito cedo na narrativa encontramos um dos primeiros exemplares de anti-herói. Um homem simples, tranquilo, casado, pai de três filhos também já casados. Este homem já tinha uma idade respeitável: 600 anos. Ele era um tam (um tonto) – ou assim poderia ser visto pelos crápulas da sua época.

“Eis as gerações de Noé; Noé era homem justo, tamim em suas gerações; Noé se encaminhava conforme os caminhos de Deus”. (Gênesis 6:9) Noé era um homem justo. Noé era um homem simples. Noé era um tam – termo que pode significar “tonto”, mas que também pode significar “integro”.

Contam-nos os sábios do midrash que Noé não era lá essas coisas; há os que dizem que se ele tivesse vivido na geração de Moisés ou do profeta Samuel, provavelmente não seria visto como um alguém digno de ser levado a sério. Outros, porém, afirmam que se ele já era um justo em meio a um bando de gente maldosa, quanto mais justo seria entre outros justos, quando poderia exercer o seu senso de justiça e bondade na sua plenitude. Afinal, com todas as dificuldades, Noé salvou o planeta!

***

Antes de Noé, o ser humano já havia demonstrado sinais de maldade relacionados ao poder:

“Os filhos dos senhores viram as filhas dos homens, pois eram boas, e as tomaram por mulheres – as que foram selecionadas… e delas geraram filhos, os heróis no mundo, gente de fama. O Eterno viu que era muita a maldade do ser humano na terra – todo pensamento originado no seu coração era mau o dia inteiro. O Eterno se arrependeu de ter feito o ser humano na terra e entristeceu-se… porém Noé encontrou graça aos olhos do Eterno.” (Gênesis 6:1-8)

Imagino Noé, um homem justo e simples, tendo que se enfrentar e conviver com gente como estes “filhos dos senhores”, que se consideravam nada menos do que deuses. Noé, por sua vez, era o anti-herói.

Noé encontrou graça aos olhos de Deus: curiosamente, o termo hebraico Noach (Noé) espelha a palavra hebraica Chen (graça). Ambas as palavras se escrevem com as letras nun e chet, apenas em ordem trocada. Noé reflete a própria graça. Isso ficava ainda mais marcado diante da maldade dos que o cercavam – na linguagem dos jovens de hoje, pode ser dito que aqueles homens “se achavam”.

A história da arca é muito conhecida. Deus ordenou que Noé construísse a arca e justificou os motivos: acabar com esta gente maldosa, estes que se consideram poderosos acima do bem e do mal, com um sorriso cínico no rosto, com ares triunfantes, que olham para todos como se todos fossem noés tontos e frágeis. Deus decidiu que era a hora de acabar com isso.

Houve um dilúvio. Os “filhos dos deuses” daquela geração desapareceram. Morreram afogados na própria soberba. Contudo, Deus pensava consigo mesmo, um tanto desconsolado talvez: “Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do ser humano, porque o impulso do coração do ser humano é mau desde a sua meninice” (Gênesis 8:21) na semana passada, comentei que havia uma enorme responsabilidade por parte dos pais de criarem seus filhos para o bem ou para o mal. Uma grande amiga argumentou algo que, em uma palavra, eu poderia resumir assim: e o livre-arbítrio do filho? Ele pode ter recebido a melhor educação e se tornado um “filho de deus”, um homem mau ou uma mulher má, consumido pela soberba. Ou pode ter recebido uma educação sofrível e decidir ser uma pessoa boa.

Noé deve ter sofrido muito, muito, nas mãos destes poderosos. Mas no final, foi ele quem salvou o mundo do seu fim. Os “filhinhos de deus” foram levados pelas ondas furiosas das águas.

Pouco depois, viu-se que o ser humano não tinha aprendido. Deus tinha razão: não adiantava simplesmente matar; o mal vinha da “meninice” (um bom debate, levantado pelos sábios do midrash, é se esse mal vinha antes do bebê nascer ou depois – numa linguagem atual, se a maldade era herdada ou aprendida). Logo um grupo de homens decidia construir um edifício que tocasse os céus. Mais uma vez o poder encantava aqueles homens que, assim como seus antepassados mortos pelo dilúvio, achavam que poderiam se tornar “filhos de deuses”, que pouco importa a realidade ao redor, o mundo deveria se curvar aos seus desejos. Hoje em dia diríamos que eles, mais cedo ou mais tarde, cairiam do cavalo. Pois bem, o tombo foi muito pior: eles caíram do alto da Torre de Babel. A partir daí, passaram a falar línguas diferentes… eu diria que eles falavam a mesmíssima língua de antes, só que finalmente tinham perdido a credibilidade: ninguém mais os escutava, ninguém mais os entendia.

Noé era um homem justo, de modos simples para as suas gerações. Alguns viam nesta simplicidade sinal de fraqueza, alguns o viam como tonto. Ao contrário: a integridade e a simplicidade de Noé foram a sua força. É uma mensagem otimista a da Torá: tem vezes em que a integridade de caráter vence o cinismo, que a simplicidade vence a soberba. É sofrido, é duro o caminho – mas aí é que esta a graça: Noé achou graça aos olhos de Deus. Noé e suas gerações. Nós pretendemos ser bnei noach, descendentes de Noé. Que assim seja; muito mais saudável – e íntegro – do que pretendermos ser filhos dos deuses.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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