Parashat Lech Lechá – O Livro de Abrahão

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Por me debruçar tantas e tantas vezes sobre os midrashim – textos rabínicos que, por assim dizer, complementam e comentam, subvertem o texto da Torá e o viram de ponta cabeça, buscando significados extras nas meias palavras e somando histórias e diálogos entre as “falhas de continuidade” – já não posso mais imaginar a Torá sem a leitura fértil desses brilhantes comentaristas que proliferam desde os tempos talmúdicos até os dias atuais. Eles e elas vão tão longe que levam o sentido do texto aos limites da criatividade: se assim como está escrito no Gênesis, no início Deus criou os céus e a terra, os “midrasheiros e midrasheiras” do nosso povo interpretam desde os grãos de areia à beira do mar até as estrelas no céu.

O filósofo Yeshayahu Leibowitz (1903-1994) também adorava midrashim. Em um de seus comentários, Leibowitz traz um midrash que busca justificar o papel central de Abrahão no primeiro livro da Torá através de um interessante jogo de palavras:

אֵלֶּה תוֹלְדוֹת הַשָּׁמַיִם וְהָאָרֶץ בְּהִבָּרְאָם.

“Eis as origens dos céus e da terra behibarám (ao serem criados)…” (Gênesis 2:4)

Os rabinos dos tempos talmúdicos se deram conta de que a palavra hibarám continha as mesmas letras do nome do primeiro patriarca: é só trocar a primeira letra hebraica, He, pela penúltima, Alef – e temos Avraham. Conclusão? Podemos ler este versículo da seguinte forma: “Eis as origens dos céus e da terra para Avraham”.

Por esse ponto de vista, a criação do universo e das primeiras 29 gerações da humanidade foram tão somente a pré-história, a preparação necessária para o surgimento do primeiro ser humano consciente da existência de um Deus único: Abrahão. Uma visão um tanto “Abrahãocêntrica”, não é? De qualquer modo, para Leibowitz, o livro de Gênesis tem na figura do primeiro patriarca de Israel o pivô da história, o que justifica denominar o Gênesis de “O Livro de Abrahão”. De fato, a história do povo judeu começa com Abrahão e Sara. Somos bnei Avraham, descendentes de Abrahão.

Leibowitz continua:

“Nosso patriarca Abrahão não viveu no mesmo mundo pré-histórico de intervenção divina continuada, que modificava as leis da natureza, mas sim no mundo pós-dilúvio, que é um mundo que se conduz por si mesmo; e num mundo assim é preciso que o indivíduo conheça Deus por seu próprio esforço… a posição do ser humano diante de Deus não é iniciada por Deus, mas sim pelo ser humano”.

A partir de Abrahão e Sara inaugura-se o período no qual o ser humano deve descobrir Deus através do seu intelecto, da sua capacidade de sentir e de suas ações. Ao receber a ordem “Lech Lechá”, “Vá para si mesmo” (Gênesis 12:1), aos 75 anos Abrão parte em uma viagem arriscada para uma terra que não conhece: uma viagem de crescimento pessoal. Ele parte rumo ao desconhecido e terá que aprender que, muitas vezes na vida, aprende-se a caminhar caminhando: Abrahão terá que se arriscar – às vezes irá acertar e outras vezes, errar. Bem vindo à vida!

A responsabilidade aumenta na medida em que Abrão (ainda sem h) não seguirá sozinho: ao seu lado estão a esposa Sarai, o sobrinho Lot – e todas as “almas que fizeram em Haran” (idem 12:5). O midrash nos conta que estas “almas” eram gente politeísta, isso é, que dirigiam suas práticas religiosas aos astros; mas que foram convertidas por Abrão à nova crença monoteísta: Abrão convertia os homens e Sarai convertia as mulheres. Muito diferente do que imaginamos hoje em dia, o povo de Israel tem na sua origem a prática de converter pessoas à sua crença em um Deus único. Foi com essa gente que Abrão chegou a Canaã.

Logo no início do caminho vem um duplo desafio: por conta da fome em Canaã, foi preciso descer ao Egito. Parte do desafio recai não sobre Abrão, mas sobre todos nós – vejamos: o patriarca pede à sua esposa, Sarai que, ao ser abordada pelos egípcios, apresente-se como sua irmã, porque sendo ela uma mulher muito formosa, os egípcios poderiam matá-lo para a entregarem ao Faraó por mulher.

Qual é o nosso desafio? imaginar como Sara, então com 65 anos, poderia ser considerada uma mulher jovem e atraente para o Faraó. Isso será possível somente se tivermos a liberdade de imaginar que: (1) Abrão e Sarai estavam muito bem conservados para a idade; ou (2) a idade bíblica não corresponde exatamente à idade tal como contamos hoje em dia.

Já o desafio de Abrão é adotar a decisão mais acertada diante das circunstâncias. Como saber? Alguns sábios da Idade Média dirão que Abrão errou ao pedir que sua esposa se apresentasse aos egípcios como sua irmã: foi um sinal de fraqueza, pois não confiou que Deus poderia defendê-lo de uma provável agressão dos egípcios (só mais adiante Abrahão irá até o fim numa situação de perigo mortal, quando chega às vias de fato para sacrificar o próprio filho, Isaac, mas é impedido por um anjo). No final das contas, Abrão acaba se saindo bem: o Faraó é punido por Deus por tentar algo com Sarai, entrega-a de volta para Abrão e os manda embora do Egito, carregados de gado, prata e ouro.

O segundo desafio de Abrão foi saber lidar com o sobrinho Lot, que por sua vez também encontrou o seu modo de acumular ovelhas, vacas, tendas e pastores… Desde aqueles tempos, pode-se dizer que muita riqueza nem sempre traz felicidade; pode também trazer muitos problemas. Abrão opta pelo caminho da paz – separa-se de Lot; vai cada um para o seu lado. Desta vez parece que a decisão foi acertada: só depois de se separarem, Deus o abençoou e à sua descendência: “A terra que você vê, eu a darei para você e para seus descendentes para sempre. Farei a sua descendência como o pó da terra…” (Gênesis 13:15-16)

O povo de Israel nunca foi dos mais numerosos. Hoje em dia somos uma parcela quase insignificante da população mundial: cerca de 14 milhões num mundo de 7 bilhões. Se somos como o pó da terra, comparados à humanidade somos como um punhado de areia. Tenho dois grandes amigos, Grzybowsky e Goldman, que interpretaram esta passagem com muita sensibilidade e poder de síntese em seu livro em quadrinhos “Bíblia Versão Não Autorizada”. Nele há um quadro no qual Abrahão aparece mirando o céu, coberto de estrelas de seis pontas, cruzes e estrelas-e-luas – símbolos respectivamente do judaísmo, cristianismo e islamismo. Abrão aparece pensando, num canto: “Que meus filhos nunca esqueçam que são irmãos”.

Outros desafios estavam à espera de Abrão: guerras e mais guerras; seu sobrinho Lot é sequestrado e Abrão o resgata. Mais adiante, no horário do crepúsculo, Abrão caiu em sono profundo no qual escutou Deus dizer o que iria acontecer com seu povo no futuro: eles iriam para uma terra estranha onde seriam escravos por 400 anos, mas Deus julgaria a nação opressora e faria com que saíssem de lá com grande riqueza – um resumo do período de escravidão, libertação e êxodo do povo de Israel no Egito desde os tempos de José (bisneto de Abrahão) até a época de Moisés: em outras palavras, temos aqui a síntese do que viria a ocorrer na Torá até o início do Êxodo. Quando já era noite, Deus estabeleceu uma aliança com Abrão, prometendo à sua descendência um território enorme, muito maior do que o do Estado de Israel hoje: do rio Nilo (Egito) ao rio Eufrates (nos atuais Iraque, Turquia e Síria). Há quem sonhe até hoje com a “Grande Israel” bíblica.

Se na vida pública, por assim dizer, a vida de Abrão não era fácil, na vida pessoal as coisas não eram mais simples. Depois de dez anos em Canaã, Sarai não engravidava. Na esperança de ter filhos, Sarai entregou sua serva, a egípcia Hagar (segundo o midrash, uma princesa entregue a Abrão como serva, parte da riqueza acumulada no Egito) ao marido. Não demorou muito e Hagar engravidou, o que gerou muita raiva em Sarai, por se sentir desprezada pelo marido. Maltratada por sua senhora, Hagar partiu para o deserto, onde teve seu filho, que recebeu de Abrão o nome de Ismael.

Foi somente treze anos depois que Deus voltou a falar com Abrão, mudou seu nome para Abrahão e o de Sarai para Sara, prometeu-lhes um filho e estabeleceu com eles uma nova aliança (brit) marcada pela circuncisão (milá) dos homens. Depois de passar por tantos desafios, Abrahão riu-se do que parecia sobrenatural e pensou: “Sendo eu da idade de cem anos, nascerá um filho? Sendo Sara da idade de 90 anos, dará à luz?” Deus confirmou: “Sara, sua mulher, dará à luz um filho e você o chamará de Isaac; estabelecerei Minha aliança com ele – uma aliança eterna – e com a sua descendência depois dele.” (Gênesis 17:17-19) No mesmo dia, Abrahão e Ismael foram circuncidados, assim como todos os homens da sua casa e os estrangeiros que viviam com eles.

Abrahão viveu 25 anos intensamente, entre os 75 e os 100 anos de idade. Se dividíssemos as idades de Abrahão e Sara pela metade, talvez a história soasse mais verossímil à lógica dos nossos tempos: ao descerem para o Egito, Sarai seria uma bela mulher no auge dos seus 32 ou 33 anos, chamando a atenção dos egípcios e colocando a vida de Abrão em risco; e seria difícil, mas não impossível, ela engravidar aos 45 anos. Talvez, dada a intensidade da vida do primeiro casal hebreu, cada ano tenha sido vivido como se fossem dois!

Numa leitura psicológica, podemos ver o tempo de modo subjetivo: “Vá para si mesmo”, o tempo de amadurecimento existencial, não deve ser contado em anos objetivos. Cada indivíduo determina o próprio tempo de desenvolvimento existencial, independente da sua idade física. E ao que parece, aos 100 anos e aos 90 anos respectivamente, Abrahão e Sara estavam na flor da idade, prontos para encarar novos desafios, prestes a iniciar a vida em família. Um novo ciclo os espera.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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