Drashá sobre Parashat Vaierá

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Cenas de violência

Desde o dilúvio não se via tanta violência sobre a terra. Na verdade, com o dilúvio a violência permaneceu oculta: “E o Eterno viu que era grande a maldade do ser humano sobre a terra e que todo impulso dos pensamentos de seu coração era mal o dia inteiro.” (Gênesis 6:5). A maldade é assumida, mas não detalhada. Veio o Dilúvio e levou a maldade embora – mas não era tão simples assim, como o próprio Deus logo se deu conta.

Passadas muitas gerações, nós nos deparamos com cenas de enorme violência, de todos os tipos: entre homens e homens, entre homens e mulheres, entre mulheres e homens, entre mulheres e mulheres – e entre Deus e o ser humano.

Sodoma e Gomorra

Deus é informado da enorme maldade que só cresce naquelas cidades. Ele decide “descer” até lá para verificar se isso é verdade: em caso positivo, irá provocar o fim de Sodoma e Gomorra. Porém antes da verificação divina, Abrahão questiona: “Destruirá o justo com o mau!?” (Gênesis 18:23) Em uma curiosa negociação, Abrahão propõe que, caso se verifique que há 50 justos no local, Deus deveria perdoar as cidades e não exterminá-las. No final, mesmo antes da verificação, Deus e Abrahão chegam a um acordo: se houver dez justos, as cidades não serão destruídas.

Dois anjos se dirigem para Sodoma. A recepção inicial é razoável para uma cidade tida como tão perigosa: eles encontram Lot, sobrinho de Abrahão, à entrada da cidade. Este insiste para que eles durmam na sua casa e oferece uma boa hospitalidade. Se as coisas parassem por aí, pode ser que Sodoma e Gomorra escapassem da destruição. Mas nem bem a noite veio, a casa foi cercada por homens de todas as idades dispostos a “conhecer” os dois forasteiros: “Faça-os sair!” (Gên. 19:5), eles dizem.

A violência começa – mas dentro da própria casa, pelo próprio Lot: “Tenho duas filhas virgens; eu as farei sair para vocês, façam com elas o que bem quiserem, mas não façam nada a estes homens.” (Gên. 19:8) Os homens de Sodoma ficam ainda mais violentos, chamam Lot de estrangeiro como seus convidados e decidem que irão fazer mal a ele junto àqueles. Qual violência é a pior, se é que é possível classificá-las? A de Lot com suas filhas ou a daqueles homens com Lot? Se o sobrinho de Abrahão e seus dois convidados são “os outros” na cidade, as filhas de Lot são “os outros dos outros”, colocadas na mais frágil e violenta das situações. De algum modo, Lot se faz como um dos homens de Sodoma ao oferecer suas filhas para a enorme agressão que se afigura contra elas.

Neste momento, os dois convidados estendem suas mãos para fechar a porta da casa de Lot e ferem os homens do lado de fora com a cegueira – como se já não estivessem cegos pelo ódio. Então anunciam que foram enviados por Deus para destruir a cidade e que é hora de partir: a essa altura, no calor da situação, nem precisavam contar quantos homens havia para estarem certos de que não havia nem dez justos naquele lugar. No entanto, decidem salvar a família de Lot: Por quê? É certo que Lot havia oferecido hospitalidade, mas e a atitude condenável de oferecer as filhas àquela gente sedenta por violência?

A Torá justifica que Lot e sua família não foram salvos pela bondade de Lot, mas sim pela consideração que Deus tinha por seu tio, Abrahão: “Deus recordou-se de Abrahão e tirou Lot da destruição…” (Gên. 19:29).

Lot resiste em deixar sua casa, mas por fim parte junto com a esposa e as filhas – os noivos das mesmas não acreditam que a cidade será destruída e ficam. Assim que nasce o dia, “Deus fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra” (Gên. 19:24). Se os homens e mulheres maus dos tempos de Noé morreram afogados pelo dilúvio, os homens e mulheres maus de Sodoma e Gomorra morreram queimados pelo fogo. Quando a família estava em fuga, a mulher de Lot – qual é o seu nome? A Torá não menciona – olha para trás e se transforma em um bloco de sal. Diz o midrash que ela queria ver se suas filhas estavam a salvo – e acabou morrendo por isso. Uma leitura mais machista costuma apontar para a fatal curiosidade que seria inerente às mulheres. Podemos também refletir do seguinte modo: quando a desgraça é grande demais, devemos seguir em frente e não olhar para trás, sob o risco de ficarmos presos ao passado, como blocos de sal, como mortos vivos.

As filhas de Lot

Após a fuga, as filhas de Lot, aquelas mesmas que haviam sido oferecidas pelo pai para serem entregues à fome dos homens de Sodoma, viviam com seu pai dentro de uma caverna, num monte no meio do deserto. Por quanto tempo? Não se sabe. A violência da solidão e da falta de perspectiva quanto ao futuro pode tê-las levado a embebedar seu pai para dormirem com ele – uma atitude insana, em situações normais.

A Torá dá a entender que Lot ficou tão embriagado que não se deu conta de que foi abusado pelas próprias filhas. Ambas engravidaram: a primeira deu à luz Moav. A segunda deu à luz Ben-Ami, “patriarca dos descendentes de Amon até hoje” (Gên. 19:38). Parece-me plausível imaginar que estas duas mulheres não cresceram num ambiente saudável e que qualquer juízo de valor moral tenha ido por água abaixo ao terem sido oferecidas pelo próprio pai para serem abusadas por uma multidão de homens. “Salvar a humanidade” ao ter relações com o próprio pai pode ter sido uma racionalização, da parte delas, para uma situação que não se ajustava à realidade: afinal, elas sabiam, no mínimo, que havia outros homens na terra: a começar pela cidade de Tsôar, para onde seu pai se propôs a ir e depois voltou atrás, seguindo para a caverna de um monte e isolando-se do mundo. O fato de que, desta loucura toda, de uma das filhas de Lot descende Ruth, a moabita; e em última instância, o Rei David, faz pensar: é possível condenar as gerações seguintes pela violência vivida por seus antepassados? Seria justa a “lei do karma”? Para pensar. Não tenho resposta.

Abrahão e Sara

Depois de ter sido tão generoso com três homens que apareceram diante da sua tenda, oferecendo-lhes abrigo, comida farta, água fresca e banho; e de ter negociado com Deus as vidas dos habitantes de Sodoma e Gomorra, sem sucesso, Abrahão partiu com Sara e foram viver em Guerar, cujo rei era Avimélech. Vamos nos lembrar que, há quase 25 anos, Abrão (ainda sem h) havia pedido a Sarai que se apresentasse diante dos egípcios como sua irmã (Gên. 12:13), o que gerou uma enorme confusão. Como se não tivesse aprendido a lição, Abrahão desta vez se volta para Avimélech e diz pessoalmente ao rei que Sara é… sua irmã: mais uma violência contra Sara e contra o rei que, sem culpa alguma, é ameaçado de morte por Deus, por ter tomado a mulher de Abrahão. Neste meio tempo, o rei, sua esposa e servas se tornam estéreis, como parte da punição divina. Avimélech protesta e explica a Deus que é inocente. Por sua vez, Deus revê Sua decisão e o ordena que ele devolva Sara ao seu verdadeiro marido. Aliviado, mas não satisfeito, Avimélech vai tirar satisfações com Abrahão – e com toda razão. Abrahão justifica de maneira pouco convincente – que ele contou meia verdade, pois de fato Sara era sua irmã por parte de pai. Meia verdade é mentira inteira, como se diz.

Num estranho acordo, Avimélech paga para Abrahão com servos e servas, ovelhas e vacas, além de “indenizar” Sara com 1.000 moedas de prata para ela entregar ao “ao seu irmão” (Gên. 20:16) Abrahão. Por sua vez, como parte do acordo, Abrahão reza para Deus pela cura de Avimélech, sua esposa e servas – e estes voltam a poder ter filhos. Acordo justo? Não me parece. Por duas vezes Abrahão entregou o que tinha de mais precioso – a sua esposa – para salvar a própria pele; e no final, por incrível que pareça, se saiu bem. Como ele se sairia se passasse por uma situação na qual, de fato, pudesse perder quem ele mais amava?

Sara finalmente engravidou, como foi previsto um ano antes pelos três peregrinos/anjos que os visitaram em sua tenda. Tudo parecia finalmente se acalmar. Abrahão deu ao menino o nome de Isaac (Itzchak – “E riu”), sem dúvida o nome mais apropriado: Abrahão riu-se quando Deus lhe prometeu um filho (Gên. 17:15); depois foi a vez de Sara rir da situação de ser mãe já velha (Gên.18:12). Agora era só alegria. Isaac passou pelo rito da circuncisão aos oito dias de vida e a primeira família hebreia ofereceu um grande banquete assim que o bebê foi desmamado.

A quase morte de Ismael

Mas a violência voltaria a se manifestar. Sara se irrita com Ismael, filho de Abrahão com a egípcia Hagar, e ordena que o marido expulse mãe e filho, “porque o filho desta serva não herdará com meu filho, com Isaac”. (Gên. 21:10) Abrahão não gosta, mas Deus reforça que ele deve escutar o que sua esposa diz e o consola, dizendo que também fará dos descendentes de Ismael, seu filho, uma grande nação. Hagar se perde no meio do deserto de Beer Shéva, com um pouco de pão e água. Quando a água terminou, a mãe, alquebrada e sem esperanças, abandona-o debaixo de uma árvore e se afasta para não presenciar a morte do próprio filho. Deus escuta o choro do menino, questiona Hagar sobre o que está acontecendo, ordena que ela se levante e dê a mão ao filho. Mais adiante, ela vê um poço de água. Estão salvos! Mas foi por pouco. Ismael cresceu no deserto e se casou com uma mulher egípcia.

A quase morte de Isaac

Depois que Abrahão e Sara quase causaram a morte do filho de Abrahão com Hagar, Deus decide submeter Abrahão a um quadro semelhante, desta vez submetendo seu filho com Sara a uma situação de quase morte: “Abrahão!… Toma o seu filho, o seu único filho, a quem você ama, vá para a terra de Moriá e ofereça-o lá como oferenda de elevação…” (Gên. 22:1-2) Parece que Abrahão entendeu muito bem a ordem, pois nem tentou argumentar com Deus, como fizera antes para salvar a pele dos habitantes de Sodoma e Gomorra. Seguiu em silêncio, com Isaac, um jumento e um servo, em direção ao local do sacrifício do próprio filho.

Conta o midrash que Sara só veio saber do que estava acontecendo através de Satan (ou do demônio Samael), que lhe contou o que estava prestes a acontecer com seu filho. Uma versão conta que ela lamentou e chorou alto por três vezes, para em seguida morrer de tristeza. Outra versão diz que Sara morreu de choque quando soube que seu filho havia sobrevivido: teria morrido pela emoção da alegria, em meio à terrível tristeza da certeza da morte iminente de Isaac? Seja como for, Sara mais uma vez foi vítima de uma enorme agressão.

Abrahão, por sua vez, é levado ao limite do sofrimento, desta vez pelas mãos do próprio Deus. Sacrificar o único filho que tinha ao seu lado – a estas alturas, o outro filho, Ismael, estava longe – sem questionar pode ser visto como a admissão da própria culpa por ter colocado outros em situações semelhantes: desde gerar enfermidades e tragédias no Egito, a impossibilidade de o rei Avimélech ter filhos e até a quase morte de Ismael, seu filho com Hagar, no deserto. “Agora chegou a minha vez”, pode ter pensado, desconsolado.

No último momento, quando Abrahão já estava com a faca erguida para sacrificar Isaac, um anjo o impediu – e justificou: “Agora sei que você é temente a Deus e não negou o seu filho, o seu único filho, para Mim” (Gên. 22:12). Será que até então Abrahão não tinha sido temente a Deus? Talvez não. Ele não temeu a Deus quando entregou Sara aos egípcios como “sua irmã” nem quando repetiu o feito ao entregá-la para o rei Avimélech. Ele não temeu a Deus nem discutiu com Ele quando expulsou seu único filho com Hagar para uma provável morte no deserto. Abrahão teve que passar por uma experiência violentíssima proporcionada por Deus – estar prestes a matar o próprio filho com Sara – para demonstrar ser temente a Ele.

E se Abrahão tivesse agido diferente?

Se Abrahão tivesse agido diferente e não entregasse Sara para outros homens por temer ser morto; se ele tivesse temido a Deus mais do que temia aos reis; se tivesse ousado argumentar com Deus para não expulsar Hagar e Ismael de casa – seria necessário passar por tudo o que passou junto ao seu filho Isaac? Nunca saberemos. Mas parece que há coisas na vida que só aprendemos quando passamos por situações limite, de quase morte, de sacrifício, de dor física, emocional e existencial. Sim, porque o sacrifício de Isaac significaria o sacrifício do próprio Abrahão, através de nós – seus descendentes.

Abrahão sobreviveu

Ele não tinha ideia do que iria passar na vida quando Deus o ordenou da sua terra, da sua pátria natal e da casa dos seus pais para uma terra que Ele iria indicar. Apesar dos pesares, sobreviveu. Nós, seus descendentes, somos gratos por isso. Que aprendamos com seus acertos e com seus erros.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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