Parashat Chaiê Sara: A Caverna dos Casais de Amor Eterno

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

 

 

 

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes

Há relações de amor que nascem e morrem muito cedo; às vezes tão cedo que nem há tempo para sentir dor ou luto. Há relações de amor que nascem e parecem crescer, mas de repente morre, deixando marcas e dores que precisam de um tempo para se dissipar. Há relações de amor correspondido e relações de amor não correspondido.
Há relações de amor que duram uma vida inteira
[longa ou breve, quem pode medir? – e, quando interrompidas, deixam um difícil vazio]
E há relações de amor que duram uma vida eterna.
***
A leitura da Torá desta semana fala, entre outras coisas, do amor entre Abrahão e Sara, amor de uma vida inteira, amor de uma vida eterna. No início acompanhamos a morte de Sara e, no final a morte de Abrahão. O primeiro casal de Israel é enterrado no mesmo local: a caverna da Machpelá – cuja tradução literal seria “a caverna dos duplos”, mas bem poderia ser “a caverna dos casais”.
Segundo o Talmud (Eruvin 53a) e o Midrash Bereshit Raba, quatro casais foram enterrados nesta caverna: Adão e Eva, Abrahão e Sara, Isaac e Rebeca, e Jacob e Lea. Séculos depois, a tranquilidade do local foi perturbada por Rabi Banaa.
Um dos últimos rabinos da época da Mishná e dos primeiros da época da Guemará, rabi Banaa se ocupava de marcar os locais de cavernas que serviam de cemitério, a fim de prevenir as pessoas de entrar em contato com os cadáveres e evitar o estado de impureza decorrente disso. No decorrer do seu trabalho, Rabi Banaa chegou à caverna da Machpelá –a Caverna dos Casais, como eu a chamo. Na entrada da caverna – que aponta para a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos – Rabi Banaa encontrou Eliézer, o fiel servo do Patriarca Abrahão, montando guarda.
Dois mundos, duas épocas, duas dimensões humanas se encontram. A fronteira entre a vida e a morte desaparecem. Rabi Banaa puxa conversa com Eliézer: “E o que Abrahão tem feito?” Eliézer responde: “Ele está deitado nos braços de Sara com ela está olhando para a cabeça dele”.
Mais do que invadir o mundo dos mortos, Rabi Banaa está prestes a invadir a intimidade do primeiro casal hebreu. Lá estão eles, Abrahão e Sara, ele deitado nos braços dela, que por sua vez o observa carinhosamente.
Como não se dando conta, o rabino diz a Eliézer: “Vá e diga a ele que Banaa o aguarda na entrada [da caverna]”. Abrahão escutou a conversa e disse, lá de dentro: “Deixe-o entrar. Ele sabe que não há iétzer neste mundo”.
O rabino entrou, olhou, saiu – e seguiu em frente, mais para dentro da caverna. Ao chegar ao local onde estavam enterrados Adão e Eva, escutou a Bat Kol, o eco da Voz Divina: “Você já olhou para a semelhança da Minha imagem; não olhe para a Minha imagem em si!”
Rabi Banaa protestou: “Mas eu só quero medir a caverna!”
E a Bat Kol respondeu: “Como as dimensões da externa assim é a dimensão da interna”.
“Mas e se a Caverna dos Duplos tem este nome por ter um andar embaixo e outro encima?”
“Como as dimensões da de cima são as dimensões da de baixo.” (Talmud, Baba Batra 58a)
Apesar de saber que o contato com os mortos impurifica, ao encontrar Eliézer “vivo”, Banaa decide que é possível encontrar outros “mortos” ilustres, como Abrahão e Sara. Estes, por sua vez, desfrutam de uma intimidade tranquila, trocam carinhos e não se sentem invadidos em receber uma visita nestas condições; afinal de contas, no mundo dos mortos (ou no mundo espiritual) não há iétzer, não há o impulso físico, o desejo físico – não há mais o físico! Neste sentido, Abrahão está deitado nos braços espirituais de Sara, que o observa com um carinho enorme: o abraço de almas que se amam para sempre.
É isso o que Rabi Banaa encontra: para quem demarcava o terreno da morte, ele encontra a vida no seu estado mais puro e amoroso; e decide ir mais a fundo. Se já encontrou isso entre o primeiro casal hebreu, o que poderia encontrar no casal primordial, Adão e Eva?
Mas o eco da Voz Divina o desencoraja. Ele não tem nada para fazer lá embaixo: “Como as dimensões da de cima são as dimensões da de baixo.”
Rabi Banaa ultrapassou uma camada do mundo espiritual e teve uma visão belíssima: o carinho, o amor eterno entre um casal que, em vida, passou por muitos desafios juntos. Rabi Banaa pôde presenciar um dos maiores desejos de todos os que têm no amor o maior impulso existencial: amar eternamente, para além da chama da vida terrena; o encontro, o amor pleno, o amor entre almas.
Mas Rabi Banaa quis ir além, ele quis chegar à essência da vida humana, ao Adão e Eva primordiais. O que a Voz Divina talvez tenha tentado contar para Rabi Banaa, ao dizer que “a dimensão do interno é como a dimensão do externo” é que ao presenciar o amor entre Abrahão e Sara ele já havia encontrado a essência do ser humano. Porque no fim das contas, depois de tantos desafios em vida, tudo o que é material se esvai; mas espera-se que o amor permaneça. Parafraseando o “poetinha” Vinícius de Moraes, em memória do centenário do seu nascimento:

Eu possa me dizer do amor (que tiver):
Que seja imortal, mais do que chama
Mas se por acaso for finito, que seja infinito enquanto dure.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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