Rebeca, a primeira estudante de Yeshivá: uma rosa entre espinhos

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Disse Rabi Acha bar Yaakov: Venha e veja o que está escrito: “E Isaac suplicou para o Eterno na presença de sua esposa, pois ela era estéril [e o Eterno o atendeu e Rebeca concebeu]” (Gên.25:21) – Disse Rabi Acha: Por que ela é estéril? Porque as forças do iétzer hará estão ausentes do mundo. Por isso não há fertilidade e concepção… na medida em que se desperta o yétzer hará, há fertilidade e concepção. (Zohar, Toldot)

Há muitos anos tive um sonho muito real. Sonhei que estava em uma casa à beira do mar, num morro. Entre a casa e o mar havia um lindo jardim de rosas que cobria a encosta. No mar estava se banhando uma linda mulher, por quem eu era apaixonado. Com um gesto, ela me chamou para entrar na água. Desci por entre as rosas e recolhi algumas para lhe dar. Quando cheguei, ela sorriu, mergulhou e sumiu entre as ondas. Senti a alma e o corpo arderem: a alma, pela perda da pessoa amada; o corpo, arranhado e sangrando graças aos espinhos das roseiras, ardia dolorosamente em contato com a água do mar. Eu estava vivo.
***
Rebeca é definida no Midrash como uma rosa entre espinhos. E por quê? Porque ela teria crescido em uma casa de trapaceiros: seu pai Betuel e especialmente seu irmão, Lavan.
Rebeca era uma mulher ousada – provavelmente também seria vista assim nos dias atuais, para o bem e para o mal, aos olhares de muitos de nós. Ela decidiu ir ao encontro do seu noivo e chegou a “cair do camelo” ao vê-lo. Ela alternou timidez ou modéstia – quando cobriu o rosto antes de encontrá-lo – com extroversão e ousadia ao seguir com ele para a tenda de sua mãe, onde Isaac foi consolado em seus braços.
O casal passou muito tempo sem engravidar, como parecia ser a sina da família – vide Abrahão e Sara. Passados 20 anos, Isaac suplicou a Deus, na presença dela, para terem filhos. Rebeca engravidou. De gêmeos. Que corriam um atrás do outro dentro do seu ventre. Em um de seus célebres debates, Rabi Iochanan e Resh Lakish discordam sobre o conflito pré-natal: “Um quer matar o outro”, diz Rabi Iochanan; “Um permite o que o outro proíbe [só para irritá-lo]”, diz Resh Lakish. Seja como for, o “amor” entre Esaú e Jacob é mútuo.
Depois de 20 anos e finalmente grávida, Rebeca parece se desesperar com o que a espera: “Se é assim, por que isso para mim? – E foi compreender [Lidrósh] o Eterno”. (Gên. 25:22)
A tradução convencional nos conta que, dada a situação, Rebeca foi consultar Deus para saber o que se passava. Segundo o midrash, Rebeca teve uma postura mais ativa: ela foi para a yeshivá, ou seja, estudou nos batei midrásh (casas de estudos) de Shem e Éver, precursores de Abrahão, para tentar Lidrósh – compreender, interpretar o que Deus reservou para ela.
Rebeca teve despertado o seu yétzer hará. Geralmente traduzido como “mau impulso”, é graças ao yétzer hará que se colocam filhos no mundo, criam-se novos empreendimentos, reinventa-se o mundo – e em vez da fé cega, busca-se entender Deus. Talvez, o yétzer hará seja um aspecto daquilo que o rabino Nilton Bonder chamou de “alma imoral”. Graças ao yétzer hará – apesar da dor causada pelos espinhos, que muitas vezes se dizem guiados pelo yétzer hatov, o “bom impulso” – as rosas podem nascer, colorir e perfumar o mundo.

Rabino Uri Lam
Sociedade Israelita da Bahia

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