Parashat Vaietzê

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
(Carlos Drummond de Andrade)

Diz o ditado: “Quem sai na chuva é prá se molhar”. Quem decidir sair por aí, já está avisado: a vida lá fora não será fácil. Outros costumes, outra língua, outro mundo. A princípio o novo pode parecer tudo, menos a realidade. Às vezes a primeira impressão é desoladora; às vezes pensamos que fomos para o Paraíso. No meio do caminho tudo pode se inverter – e mesmo assim, ainda assim a realidade não lhe mostrará o quadro todo. O novo é imprevisível: um dia sentimos que podemos arriscar; no outro descobrimos que não podemos tudo; um dia achamos que não podemos nada; no outro, que podemos alguma coisa. Depois de um bom tempo, quando olhamos para trás, podemos nos dar conta de que pudemos muito, mas pouco do que havíamos planejado no início. Como se diz? O homem planeja e Deus ri.
Antes Jacob “vivia em tendas”. O aventureiro, o caçador, o viajante era seu irmão, Esau. Mas havia chegado a hora de sair de casa. Ficar significava enfrentar a fúria do irmão, disposto a matá-lo por ter tido seus direitos como irmão mais velho roubados – é bem verdade que Esaú só deu valor à primogenitura quando a perdeu, mas isso pouco importa agora. O futuro de Jacob, apesar de tudo, estava no passado: Harán, onde viviam os parentes da família há tempos deixada para trás. Mas Jacob estava jurado de morte. “Nada pode ser pior”, poderia ter pensado. Vamos fugir deste lugar, rumo ao futuro, em direção ao passado.

Foi em um ambiente pastoril que Jacob viu Raquel pela primeira vez. Já haviam lhe contado que era filha de Laván, seu tio – um conhecido trapaceiro e bajulador – mas Jacob ou não sabia disso ou não prestou atenção. Raquel foi amor à primeira vista: era uma mulher linda e vistosa. Como o herói de algum filme romântico dos anos 1930, Jacob viu Raquel, a mocinha, em dificuldades para dar de beber às suas ovelhas. Ele removeu a pedra da boca do poço, deu de beber ao rebanho e, num gesto talvez tão inesperado quanto comovente, beijou-a – afinal, quem está na chuva… Clima de romantismo no ar. A amada o levou, quem sabe, à casa do futuro sogro, com quem acertou os termos do contrato nupcial: trabalharia sete anos como pastor para ter Raquel, a quem tanto amava – embora isso não fosse necessariamente recíproco: a Torá não diz uma única vez que Raquel amava Jacob. Talvez ele, pouco experiente por ter passado a vida inteira até então em tendas (estudando em yeshivot, segundo alguns midrashim), só estivesse convencido de que ela o amava também – o que a tornava ainda mais bela aos seus olhos.
A vida no campo era dura. Os dias de pastoreio não eram tão românticos como à primeira vista. O sol ardia de dia, as geadas castigavam à noite. As condições de trabalho não tinham graça: ao longo dos anos o sogro mudou seu salário por dez vezes – e pela insatisfação de Jacob, não foi para melhor. Já naquela época, pelo visto, patrões não respeitavam direitos trabalhistas, a não ser que fossem obrigados a isso.
Quem chorava pela morte do bezerro não era Lavan; o prejuízo era sempre de Jacob. Mas tudo bem, tudo valia à pena por Raquel. Até que chegou o dia do casamento. A festa deve ter sido sensacional: muita comida e muita bebida, muita gente festejando e dançando. A uma certa altura da noite, Jacob, no auge da alegria, foi se deitar acompanhado da sua amada esposa. Mas na manhã seguinte, ao acordar… “Quem é esta, Lea?! Ei Lavan, que história é essa, e o nosso acordo?!” “Eu não lhe contei?”, disse Lavan, com a cara mais deslavada do mundo e provavelmente um sorriso cínico no rosto: “Onde já se viu entregar a filha mais nova antes da mais velha? Este é o costume por aqui”.
Jacob havia sido trapaceado e não tinha mais como confiar no tio-sogro, mas não havia alternativa. Fizeram um novo acordo: ele aceitou trabalhar mais uma semana para casar-se também com Raquel – e outros sete anos após a união, para pagar a dívida.

Estava formada a estranha família: Lea que amava Jacob que amava Raquel que não amava Jacob que não amava Lea.

A irmã mais velha se iludia pensando que iria conquistar o amor de Jacob dando-lhe filhos – veio um atrás do outro: outra escada de Jacob. Por sua vez, Raquel invejava tanto a irmã por isso que, imagina-se, em tom nada amoroso, exigia de Jacob: “Dá-me filhos senão estou morta!” E Jacob retribuía a “delicadeza” com juros: “Acaso estou por trás das decisões de Deus, que lhe impediu de ter filhos?” Em outras palavras: “Eu lá tenho culpa se você não consegue engravidar?”
Os sábios do Talmud não gostaram nada da reação de Jacob. “Não se responde assim para quem está fragilizado”. Os rabinos enfiaram o dedo na ferida, pois o que Raquel mais queria na vida era ter filhos. E mais: os rabinos notaram que ele disse: “Você não pode ter filhos”, como dizendo: “Eu posso, eu tenho filhos”. Conta um midrash que o próprio Deus repreendeu Jacob: “A sua esposa tão amada há anos tenta e não consegue ter filhos – e você fala com ela com tanta grosseria? Por isso no futuro os seus filhos (com Lea) terão que se acertar com o filho dela (José).” O resto da história vocês conhecem: quando os filhos de Jacob maltrataram e por fim venderam José – filho primogênito de Raquel – como escravo, mentindo ao pai ao dizerem que o jovem morrera tragicamente, devorado por uma animal selvagem, o patriarca sofreu por muitos anos enfurnado em seu luto. Mas passados alguns anos, seus filhos passaram maus bocados nas mãos de José, que deu a volta por cima com louvor e, de escravo e mais tarde prisioneiro, agora era o braço direito do Faraó no Egito.

Quem está na chuva é prá se molhar – e Jacob tomou um banho demorado de como não se deve agir: ele havia trapaceado com seu irmão, o que lhe custou: ser trapaceado pelo tio-sogro-patrão, amar uma mulher que provavelmente não o amava, não amar a mulher que provavelmente o amava, ser enganado por seus filhos e perder, por ora, o filho que mais amava. Nas próximas semanas saberemos se ele aprendeu algo com tudo isso.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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