Drashá sobre Parashat Vaishlach: Fazer as pazes – será sempre possível?

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Eu me recordo de ter passado, há alguns anos, por uma situação muito embaraçosa: uma pessoa que até então eu via como meu amigo – não tão próximo, mas amigo, com alguns valores e ideias semelhantes aos meus – colocou em mim toda a culpa pelo que estava passando e deixou de falar comigo. Por alguns meses eu achei que, com o tempo, aquela situação desagradável iria se desvanecer no tempo, que ele perceberia que eu não era o endereço correto para suas frustrações – e que faríamos as pazes. Por alguns anos alimentei a ideia de que poderíamos voltar a nos falar e a nos respeitar, pelo menos; fiz diversas tentativas e cheguei a pedir perdão por algo que não fiz, simplesmente para tentar encerrar as animosidades. Infelizmente, isso não foi possível. O outro lado não aceitou e seguimos cada um o seu caminho.
Houve outros momentos em que me senti na pele dele: senti-me enganado e não havia o que me mobilizasse da condição de aceitar um pedido de perdão da outra parte, por não sentir sinceridade da parte desta. É como se as atitudes dela dissessem o contrário das suas palavras. Por outro lado, às vezes também não sei dizer o quanto o pedido de perdão dela era sincero mesmo e se era eu que não estava preparado para aceitar as desculpas, por ainda estar muito machucado com o que ela me fez, intencionalmente ou não.
Até onde somos capazes de perdoar? Até onde podemos esperar que o outro nos perdoe?
***
Jacob já era um homem maduro, com seus 60 anos. Assim também seu irmão gêmeo, Esau. Ambos casados, com família e um patrimônio respeitável acumulado durante suas vidas. Jacob morou muitos anos longe de sua terra; estava na hora de voltar. No meio do caminho foi avisado de que seu irmão – que o jurou de morte, assim que o pai deles, Isaac, morresse para não ver o conflito fatal entre os filhos – vinha em sua direção, acompanhado de outros 400 homens. Jacob se sentiu a menor das criaturas e rezou a Deus para não morrer: “Katonti, Eu me diminuí… Livra-me, eu Te rogo, da mão de meu irmão, da mão de Esaú porque eu o temo; para que porventura não venha e me fira, nem a mãe com os filhos(Gên. 32:10-11). Jacob sabe que o encontro já não mais envolve somente eles dois, mas suas respectivas famílias. Mesmo assim ele não foge e decide enfrentar o destino.
Ao longo do caminho, Jacob envia ao irmão diversos presentes através de seus servos. Ele imagina o irmão lhe fazendo uma pergunta existencial (indiretamente, através de seu servo): “De quem és e para onde vais…?” (Gên. 32:18) e a resposta preparada é “de teu servo Jacob, presente que envia ao meu senhor” (idem 19). Em nome da paz – e do medo? – Jacob se refere ao irmão como “seu senhor” e apresenta-se como “seu servo”.
Jacob sente culpa? Ou simplesmente não é capaz de imaginar que seu irmão mudou de ideia e que o rancor e ódio se desvaneceram com o tempo? Quanto tempo é preciso para que a dor de quem se sente enganado seja aplacada?
É chegada a noite: Jacob se prepara para o pior. Ele separa sua família em dois acampamentos, faz com que elas cruzem o rio Yabok e se abandona, sozinho, do outro lado. Nesse momento um homem luta com ele até os primeiros raios de sol. Quem é? Qual é o seu nome? O homem não revela. Jacob é ferido “na juntura da coxa”, presumivelmente na altura da virilha. Eu me pergunto se, simbolicamente, Jacob trava uma luta consigo mesmo e é ferido na sua virilidade: será que ele é suficientemente homem, suficientemente maduro para enfrentar o que o espera?
A resposta é sim. Ao nascer de um novo dia, aquele “homem” afirma: “Não te chamarás mais Jacob, mas sim Israel; pois te confrontaste com Deus e os homens – e foste capaz.” (Gên. 32:28) Jacob enfrentou um dificílimo rito de passagem; foi dolorosamente ferido, mas sobreviveu e saiu mais forte: ele agora é Israel, preparado para o encontro, para o que vier pela frente.
O encontro é tenso: ao vê-lo, Esau corre ao seu encontro, abraça-o e cai sobre seu pescoço – e ambos choram. Diz um midrash que Esau tentou matá-lo cravando seus dentes na sua jugular, mas o pescoço de Jacob se enrijeceu de tal modo – de medo? Talvez – que os dentes de Esau se quebraram e ambos choraram de dor. Eles chegaram ao limite das tensões de tantos e tantos anos, mas finalmente – depois de uma catarse de grandes proporções – fizeram as pazes.
Esau e Jacob conheceram as respectivas famílias, conversaram muito, mas logo se separaram. É melhor não desafiar ainda mais o destino. Cada um para o seu lado e a paz se mantém, pelo menos por um período de tempo maior – outro midrash conta que Esau não matou Jacob; mas seu descendente, Amalek, se tornaria o perseguidor por definição de Israel, por todas as gerações. Houve perdão? Tenho minhas dúvidas.
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A dificuldade de perdoar se reflete nos filhos de Jacob. A mesma porção semanal nos conta que Diná, a única filha de Jacob, foi tomada a força por Shechém. Apesar da violência, Shechém se apaixonou por Diná e ela por ele: “Ele falou ao coração da jovem”. (Gên. 34:3) Mais uma das cenas politicamente incorretas da Torá… Apesar do amor entre os dois, os filhos de Jacob não perdoaram a violência de Shechém. Num acordo de paz entre os pais, ficou decidido que se os homens da família de Chamor – pai de Shechém – fossem circuncidados conforme o costume dos filhos de Jacob, as tribos se uniriam em um só povo. Mas assim que os primeiros foram circuncidados e ainda convalesciam, Shimon e Levi, irmãos de Diná, protagonizaram uma chacina, matando todos os homens ao fio da espada, em vingança por Shechém ter violentado Diná.
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No caso do encontro entre Jacob e Esau, o primeiro estava preparado para fazer as pazes e a desejava, mas também para ser atacado. Já no caso do encontro entre os filhos de Jacob e os filhos de Chamor, os últimos estavam preparados para fazer as pazes; o seu erro, porém, foi não estarem preparados para um ato de vingança.
Lembro-me, por fim, de uma frase de Woody Allen: “O leão e o bezerro podem até dormir juntos, mas o bezerro não vai conseguir dormir muito bem”.
Ainda acredito que é possível fazer as pazes com quem consideramos que nos enganou ou nos traiu – ou com aquele(a) que acha que nós o(a) enganamos ou traímos. Mas entre tantas coisas que esta parashá me ensina, uma delas é que não podemos ser ingênuos: é bom buscar a paz, mas é preciso estar preparado para tudo.
Aqui a reza que Jacob fez para Deus antes do encontro com Esau é bastante pertinente: “Deus de meu pai Abrahão e Deus de meu pai Isaac…” – eu errei e me sinto a menor das criaturas, indigno de toda a bondade e de toda a confiança que Tu depositaste no Teu servo; mas “por favor, salve-me!” (Gên. 34:9-11)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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