Parashat Vaieshev – José e Tamar: ou como a vida dá voltas

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

José era um jovem pastor e um sonhador. Seu pai não escondia dos demais que ele era o seu filho mais amado – o que provocou o ódio de seus onze irmãos. Vestido com uma bela túnica listrada, presente do pai, lá ia José denunciar ao mesmo a má conduta dos irmãos. Apesar disso, ele os via como seus irmãos e fazia questão de compartilhar seus sonhos com eles. Quanta ingenuidade! Aquele José ousava dizer, por metáforas, que um dia governaria sobre os demais. Mas isso não aconteceria, se dependesse deles: o plano dos “irmãos” era acabar com ele, humilhá-lo – e se possível, matá-lo.

Ruben, o irmão mais velho, se contrapôs: “Não derramem sangue”. Em vez disso, propôs uma solução intermediária: deveriam lançá-lo em um poço no deserto; assim José morreria por si mesmo e eles não sujariam as mãos de sangue. Resolveriam, assim, dois problemas: acabariam com quem incomodava e ainda, acreditavam, conseguiriam colocar a cabeça no travesseiro e dormir.

Mas Judá teve outra ideia: “Vamos vendê-lo aos ismaelitas”. E assim foi feito. José foi vendido por 20 pesos de prata e os ismaelitas o levaram como escravo para o Egito. Para que só matar, se podemos ainda lucrar com o sofrimento alheio, além do prazer perverso de sentir que lhe demos uma boa lição?
Jacob enlutou-se. Seus filhos, sentindo-se donos da situação, acharam que poderiam levar suas vidas tranquilamente, como se nada tivesse acontecido – sem aquele sonhador por perto.

***

A vida parecia continuar sem maiores problemas. De todos os irmãos, a Torá destaca a vida de Judá. Ele se casou com Shuá e teve três filhos: Er, Onán e Shelá. Judá apresentou Tamar para o filho mais velho, Er. Mas Er morreu sem ter filhos com Tamar. Judá então disse ao segundo filho, Onán, para desposar a jovem viúva e ter filhos com ela, para que seu irmão tivesse descendentes. Onán se evitou ter filhos com Tamar e teve o mesmo destino que o irmão mais velho. Quando chegou a vez do terceiro filho, Judá decidiu ser mais cauteloso e disse a Tamar: “Fica viúva na casa do seu pai até meu filho Shelá crescer”. Judá tinha medo de que também este morresse ao se casar com Tamar.

***

Afinal de contas, seria Tamar uma “mulher fatal”? Seria ela a culpada pela morte dos filhos de Judá? Mas que culpa tinha ela se seus dois maridos anteriores agiam mal?

Tamar via o tempo passar, Shelá crescer e nada de se casar novamente. Ela se deu conta de que, se dependesse de Judá, morreria viúva e sem filhos. Mas Tamar queria ter filhos; então decidiu que deveria assumir o comando desta história.

A jovem mudou suas roupas, colocou um véu sobre o rosto e sentou-se na esquina do caminho para Timna, que sabia ser o percurso de Judá. Este, já viúvo, a viu na estrada, mas não a reconheceu. Tomando-a por zoná, prostituta, chamou-a para deitar-se com ele. Tamar aceitou, mas exigiu pagamento; Judá respondeu que depois enviaria um cabrito. Como confiar? Tamar exigiu garantias: que ele lhe entregasse seu anel-selo, seu manto e seu cajado. Ela os devolveria quando recebesse o pagamento pelo programa. Sem pensar e cheio de desejo, Judá concordou e entregou os símbolos de seu poder.
Mas Tamar tinha outros planos: assim que Judá a deixou, ela voltou a se vestir com as roupas de viúva. Era como se a prostituta nunca tivesse existido. Judá cumpriu sua palavra – provavelmente para resgatar seus acessórios – mas não a encontrou mais. Ele perguntava aos homens: “Onde está a kedeshá – a prostituta sagrada?” Ninguém sabe, ninguém viu.

***

Por que, ao ver Tamar na esquina da estrada, Judá pensou tratar-se de uma zoná, uma prostituta comum – e depois procurou por uma kedeshá, uma prostituta sagrada? Qual é a diferença? Segundo alguns comentaristas, a zoná é a prostituta ou mulher adúltera que vende seu corpo para quem quiser; a kedeshá, por sua vez, vende seu corpo como parte de uma cerimônia sagrada. A prostituta comum cobriria o rosto por vergonha do que faz; já a prostituta sagrada mostra o rosto com orgulho, convencida de que entrega seu corpo em nome de Deus.

Aparentemente, a kedeshá fazia parte de cultos religiosos canaanitas. Por outro lado, no último livro da Torá consta que “nenhuma das filhas de Israel será uma kedeshá nem nenhum dos filhos de Israel será um kadesh”. (Deut. 23:18) Então por que Judá procurava pela kedeshá?
Outros comentaristas dirão que, quando estava sozinho, Judá expressou exatamente o que pensava daquela mulher na esquina: ela era uma prostituta qualquer e ele estava desejoso de dormir com ela. Mas quando a perdeu de vista, ao consultar outros homens, procurou por uma “prostituta sagrada”, para não admitir publicamente que ele, Judá, estava atrás de uma prostituta. A impressão que tenho é que, sozinho e na hora do desejo, Judá não pensou no que estava fazendo; mas agora já se dava conta da enrascada em que havia se metido.

***

Três meses depois, Judá soube que Tamar estava grávida; ele nem sonhava que ela teria filhos dele. Furioso (por que? Ele tinha qualquer intenção de desposá-la com seu terceiro filho?), considerando-a adúltera, ordenou que fosse queimada. Dona da situação, Tamar mandou avisar: “Engravidei do homem a quem pertence isso!” e mostrou o anel-selo, o manto e o cajado. Judá não teve outra coisa a fazer além de assumir a paternidade e reconhecer que aquela mulher havia sido mais justa do que ele, pois ele havia sido injusto: em vez de liberá-la para se casar com outro, a deixou numa espécie de limbo, à espera do filho mais novo crescer, como viúva e sem filhos.
Os mais tradicionalistas costumam dizer que os homens são mais racionais e as mulheres mais impulsivas. A história de Tamar parece demolir esta ideia: aqui, o homem agiu com impulsividade enquanto a mulher agiu de modo racional.
Tamar deu à luz gêmeos: Péretz e Zérach. De Péretz veio a linhagem que culminou com o nascimento de ninguém menos que o Rei David, de cuja descendência se espera a vinda de do Messias.

***

A história de Tamar e Judá é contada no meio da tumultuada história de José e seus irmãos. O que Tamar e José têm em comum? Em linhas gerais, ambos foram traídos: José foi vendido como escravo, Tamar foi privada de ter filhos; ambos foram ameaçados de morte: José, pelas mãos dos irmãos ou abandonado no fundo de um poço; Tamar, esteve para ser queimada, acusada de adultério. Ambos estiveram submetidos às amarras da tradição: José incomodava o modo viciado de conduta de seus irmãos, enquanto Tamar desafiou o que seu sogro havia determinado que seria seu destino, baseado nas tradições da lei do levirato ou da pena de morte para a mulher adúltera. Ambos foram injustiçados, mas deram a volta por cima, cada um com a sua estratégia.

E fico pensando comigo mesmo qual sentido estas histórias têm para nós hoje. O quanto podemos ser levados a ficar presos à história de outros, que não medirão esforços em destruir quem desafiar a norma, mesmo que esta seja injusta. O quanto até mesmo os que estão próximos – “os irmãos” ou “o sogro” – podem deixar de agir com bondade, se contrariarmos seus interesses. Nestas situações é preciso se esforçar para não sermos levados pelas emoções, se quisermos sobreviver e escrever, assim, a nossa própria história. E parece ser da coragem para desafiar o status quo e questionar a injustiça estabelecida que virá a era messiânica.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s