Cripto -Judeus e Marranos poloneses no Brasil: renascimento e superação do Judaísmo Oculto

(continuação do artigo do dia 10 de outubro passado)

Como muitas famílias de judeus poloneses liberais e seculares, meus pais conseguiram sobreviver à guerra graças a dois fatores linguísticos que foram determinantes. Falavam um alemão fluente, conseguindo ludibriar a Gestapo e falavam o polonês sem sotaque yidish, conseguindo enganar os dedos-duros poloneses. Passada a guerra, meus pais emigraram para o Brasil, mas por muitos anos ainda praticaram o cripto-judaísmo (prática secreta do judaísmo). Acendiam as duas velas do Shabat e reuniam a família no Seider, tomando o cuidado de fechar as cortinas para não chamar a atenção dos vizinhos. Na escola, eu e minha irmã Ivone, éramos instruídos a preencher as fichas de matrícula escrevendo “católicos” no espaço destinado à religião. Éramos assim uma família de marranos1 brasileiros. Frequentávamos, em Ipanema, por algum tempo, um clube polonês (33 Polski Club) composto, em sua grande maioria, por cripto-judeus que se passavam por cristãos poloneses.

Temiam eles uma suposta “volta de Hitler”, dando ouvidos a rumores de que o Fürer, e seus mais importantes colaboradores, depois de receberem asilo no Vaticano, dado pelo filo-germânico, Papa Pio XII, embarcaram rumo à Argentina, protegidos por salvo condutos dados pelo ditador General Juan Domingo Peron. Segundo meus pais, e seus amigos do Polski Club, poderia ocorrer, a qualquer momento, uma invasão nazista oriunda da Argentina, então governada por Peron e sua corrupta e demagógica mulher, Evita Peron.

Mesmo seguros no Brasil, meus pais viviam sob constante síndrome de pânico. Minha mãe tinha crises de taquicardia toda vez que o telefone ou a campainha tocava, exclamando: “nos descobriram, vieram nos pegar”!

Em junho de 1967, ocorreu um divisor de águas na história de minha família, pois com a rápida vitória de Israel sobre o Egito, Síria, Líbano e Jordânia na Guerra dos Seis Dias, meus pais tiveram coragem suficiente para reassumir plenamente suas identidades judaicas. Diziam então que “agora temos Israel para nos defender”. Passamos a frequentar regularmente a Sinagoga Reformista da ARI em Botafogo, e de marranos poloneses passamos a ser judeus brasileiros assumidos. Minha mãe além de fazer o barch polonês (sopa de beterraba coberta com creme de leite) e o bigos (repolho azedo com batatas), lembrou-se das antigas receitas de crán e gefilte fish (bolinhos de peixe moído, cozidos em banho-maria temperados com raiz forte). Já meu pai, deixou o Polski Club, e tomando-se de coragem retirou do fundo do baú seus velhos discos e livros de orações, há muito tempo guardados, como uma antiga Chagadá, e pôs a tocar na “Radio Victrola”, de pés de palito, o Concerto de violino de Mendelssohn2, executado por Jasha Heifetz. Voltou a cobrir seus ombros com o talit e sua cabeça com a kipá, recuperando não só a sua religião, mas principalmente a sua dignidade…

Depois de passarmos por uma infância religiosamente conturbada por dissimulações, Ivone e eu, conseguimos transmitir a nossos filhos não só a religião, mas também o gosto pela cultura judaica. Assim como está escrito na Torá, que três gerações de patriarcas foram necessárias para construção de uma nação, também três gerações foram necessárias para o nosso renascimento judaico, pois como fênix, renascemos das cinzas tenebrosas e fumegantes do Holocausto!

1 Termo derivado do árabe marranan, que significa porco, com os quais eram designados os judeus ibéricos que ocultamente praticavam o judaísmo.

2  A execução deste concerto foi rigorosamente proibida durante os anos de ocupação nazista e com a vitória dos aliados a BBC de Londres passou a tocá-lo em rede, como símbolo da libertação da Europa.

Mais um texto enviada por Roberto Leon Ponczek. Você também pode colaborar com o SIB e-News enviando um e-mail para sib.e.news@gmail.com

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Um pensamento sobre “Cripto -Judeus e Marranos poloneses no Brasil: renascimento e superação do Judaísmo Oculto

  1. Mais um belo e tocante depoimento, Roberto. Nossas histórias, nossas lutas, nossas dores. E graças a seus pais, assim como aos meus avós, também vindos da Polônia, que apesar de todas as perseguições sofridas conseguiram manter vivas nossas tradições, é que aqui estamos já na 4ª e 5ª geração de sobreviventes, não só do Holocausto, mas de todas as outras guerras também. É que, segundo você mesmo disse, “como fênix, renascemos das cinzas”. Para a geração mais nova, somos como He Man, temos a força, nada há de nos abater.

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