Drashá sobre Parashat Miketz

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Há quem diga que devemos buscar o caminho do meio, sem extremismos nem à direita nem à esquerda. Mas o que é o caminho do meio? Será este o melhor caminho – ou será o meio para nos isentarmos das responsabilidades e das emoções dos “caminhos das pontas”?

À primeira vista, parece que o caminho do meio é o mais equilibrado, algo que dá o devido balanço aos exageros dos extremos. No pensamento judaico, é clássica a sua defesa pelo sábio Maimônides – ele entende que este é o caminho do sábio.

Já o Kotzker Rebe considera o caminho do meio como a passagem dos cavalos: em outras palavras, o meio pode ser medíocre, em cima do muro, nulo. Há aqueles que buscam justamente este tipo de equilíbrio: a “levitação pela evitação” dos extremos, a extinção do ego e a fusão no todo. Eu diria que uma pessoa que fica por horas retirada em meditação não deixa de ser extremista, pois na média, a maioria das pessoas costuma estar longe deste tipo de postura. Por outro lado, há os que procuram somente o risco, a aventura, os extremos; ao contrário do caminho do meio, este é o seu meio para se sentirem vivos.

 

Mas se formos olhar para as nossas vidas, do que nos lembramos? Das experiências medianas, do caminho do meio? Só se neste meio do caminho tiver uma pedra, como aconteceu com o poeta Carlos Drummond de Andrade:

 

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas. (…)

 

Das experiências na vida, só algumas delas são marcantes, nos extremos. Não há meia meditação ou meia vitória ou meia derrota que nos marque. José, o protagonista da porção semanal Miketz (“do extremo” pode ser uma tradução) deveria saber muito bem disso. É provável que só conheçamos dele as histórias passadas no limite: o mais amado dos filhos de Jacob, foi jogado no fundo do poço, mas acabou vendido como escravo. Poderia ter buscado apenas sobreviver, evitado riscos – mas não, ele fez questão de seguir seus sonhos e saiu da condição mais baixa para a mais elevada do Egito, abaixo apenas do trono real, ao propor uma solução também extrema para garantir a prosperidade do reino: transferir a produção do cidadão comum para as mãos do Estado, que supostamente saberia protegê-la e redistribuí-la de forma justa.

 

 

Após os anos de vacas gordas, vieram os anos de vacas magras; mas graças a José o Egito tinha os depósitos abarrotados de comida, enquanto o povo passa fome – extremos: não era melhor o caminho do meio? Depósitos cheios, mas não abarrotados, e o povo bem alimentado? Mas se fosse assim, em que a história nos chamaria a atenção, o que aprenderíamos dela, para onde crescer?

Maltratados pela fome em Canaã, os filhos de Jacob desceram ao Egito para obter alimento e foram recebidos pelo poderoso Tsofnat-Panêach, que é ninguém menos do que José, com o nome que o Faraó lhe deu.

Chegou o momento da verdade: José e seus irmãos se encontram. Ele agora não vestia uma túnica listrada, nem estava nu como quando fora lançado no poço. Suas vestimentas, que exalavam poder e imponência, em nada lembravam o jovem sonhador à mercê dos irmãos. O decifrador de sonhos, que somente por sua ordem as pessoas poderiam se mexer, coloca seus irmãos a prova, maltrata-os, duvida e mente. Por sua vez, os irmãos são sinceros sempre que questionados sobre quem eram e por que vieram ao Egito. José fez com que seus irmãos ultrapassem os limites do suportável para Jacob, ao exigir que buscassem Benjamin, seu irmão mais novo. Insaciável, assim que Benjamin chega, José arma para cima dele, acusa-o de roubo e decide escravizá-lo: “Ele será meu servo; e vocês, subam em paz para o seu pai” (Gênesis 44:17). Subir em paz? Sem Benjamin? Oprimidos e maltratados? Mas é assim que termina a leitura da Torá desta semana.

A leitura da parashá Miketz ocorre no meio da festa de Chanucá, a Festa das Luzes, quando, em Israel, as noites são as mais longas do ano. E então, como é que em plena Festa das Luzes temos uma leitura da Torá tão obscura? Se em Chanucá se costuma dizer que “viemos para espantar a escuridão?”

Há situações na vida que precisamos deixar o caminho do meio, querendo ou não, lidar com nossos medos e enfrentar os extremos, para espantar a escuridão. A escuridão da injustiça, da opressão, da arrogância dos poderosos de todas as épocas e que existem em todos os povos. Chanucá coloca o povo judeu num limite em que a única saída é lutar, mesmo sob condições desfavoráveis. Na nossa história, os irmãos de José agora estavam no fundo do poço; numa visão otimista, se não há mais como a situação ficar pior, a tendência é só melhorar.

Há quem diga que devemos buscar o caminho do meio. Que este não seja o caminho da mediocridade, mas sim da combinação entre bons e maus momentos da vida. Porque a vida medíocre não tem sentido; por outro lado, esforçar-se para se equilibrar diante dos desafios da vida é, muitas vezes, angustiante; mas vencer estes momentos é o que dá sentido à vida.

Chag Urim sameach, feliz Chanucá!

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia
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