O Telegrama da morte

À SOCIEDADE ISRAELITA DA BAHIA,

Quem lhes escreve é Roberto Leon Ponczek, professor de Filosofia e História da Ciência na Universidade Federal da Bahia e membro associado da SIB. Gostaria de compartilhar um pouco da história de minha vida com a Comunidade Judaica da Bahia, que tão bem me acolheu aqui em Salvador e a que considero uma extensão de minha pequena família.

Nasci no Rio de Janeiro, no período do pós-guerra e me mudei para Salvador em 1983. Meus pais são Tadeusz (Tevel) Ponczek e Wanda Goldblum Ponczek, ambos falecidos. Eram poloneses, sobreviventes do Holocausto nazista e chegaram ao Rio de Janeiro em 1945, num navio lotado de emigrantes judeus vindos da Polônia, via Antuérpia. Meus avôs paternos são Leon (Leib) Ponczek e Stefania (Bestseba) Gromb Ponczek, foram ambos assassinados em TREBLINKA. Meus avôs maternos são Ignac Goldblum, assassinado em AUSCHWITZ, e Miriam Moscowsky Goldblum, que conseguiu sobreviver, falecendo no Rio, em 1957. Meus filhos são Milena Ponczek (27 anos) e Vladimir Ponczek (36 anos) e vivem em São Paulo. Tenho uma neta de nome Helena Ponczek de 5 anos, filha de meu filho, e uma irmã Ivone Ponczek que vive no Rio de Janeiro com sua filha Lilian Ponczek. Eis minha pequena família de sobreviventes.

Anexo um telegrama que minha mãe recebeu dos nazistas, comunicando a morte de seu pai Ignac em AUSCHWITZ. Segue-se a tradução do telegrama, doado ao MUSEU YAD VASHEM em Jerusalém e um pequeno relato sobre esse trágico episódio.

Telegrama de Auschwitz - Anuncia a morte do avo de Roberto Leon Ponczek

:O TELEGRAMA

À COMUNIDADE JUDAICA DE LÓDZ, PETRIKAU (PIOTRKÓWTRYBUNALSKI,POLÔNIA)

GOLDBLUM IGNAC ISRAEL MORTO (VERSTORBEN NO ORIGINAL) NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ.

O COMANDO

Este foi o teor do telegrama recebido em 1942 pela comunidade judaica de Piotrków Trybunalski, (pequena cidade situada na província de Lódz), e repassado à minha mãe, comunicando a morte de seu pai Ignac Goldblum.

Existem dois fatos relevantes no documento acima. O primeiro que salta aos olhos no texto original, escrito em alemão, é que ao seu nome civil Ignac Goldblum foi acrescentado o sobrenome “ISRAEL”, aposto a todos os judeus de sexo masculino, enquanto que o sobrenome “SARA” era acrescido ao nome das mulheres. O segundo fato relevante é que como meu avô, em 1942, foi ainda um dos primeiros prisioneiros judeus a serem levados ao recém- construído Auschwitz, o “zeloso” comando do campo, ainda se deu ao trabalho de avisar a sua morte à comunidade judaica onde foi preso. Era apenas o começo da chamada “solução final”. Nos anos que se seguiram, seria tecnicamente impossível enviar telegramas aos milhões de “Israelis” e “Saras” assassinados em Auschwitz, e nos demais 39 campos de concentração auxiliares espalhados pela Polônia.

Cerca de 70 anos nos separam do recebimento do telegrama, pela pequena comunidade judaica de Piotrków Trybunalski, tempo ínfimo se comparado à história da humanidade, mas suficiente para o renascimento da quase dizimada família Goldblum-Ponczek, e de inúmeras outras famílias judias no Brasil, e na Bahia.

É para todos os sobreviventes diretos e indiretos, desta barbárie de dimensões bíblicas, é que escrevo este texto com objetivo de manter viva, na memória coletiva de todos nós, as atrocidades cometidas contra o nosso povo. Uma memória pacífica sem revanchismos no presente, mas que deve ser límpida, clara e permanente no futuro.

PERDOAR, SIM, ESQUECER JAMAIS!

(FORGIVE BUT NOT FORGET!)

Shalom,

Cordiais Saudações,

Salvador, 12/12/2013,

Roberto Leon Ponczek

Nota: Para comprovar a veracidade de meu relato, anexo cópia do telegrama original, que herdei de minha mãe, e que foi doado em 1992 à Naomi Halpern, bibliotecária do Museu Yad VaShem de Jerusalém.

Enviada por Roberto Leon Ponczek. Você também pode colaborar com o SIB e-News enviando um e-mail para sib.e.news@gmail.com

Anúncios

6 pensamentos sobre “O Telegrama da morte

  1. Já conhecia a história da Família Goldblum Ponczek que sofreu com os horrores da guerra. Concordo com você quando diz “PERDOAR, SIM, ESQUECER JAMAIS! . Lembrar dos familiares que morreram é honrar sua memória.

  2. Prezado Roberto, são depoimentos como o seu que se encarregam de manter viva em todos nós, esta dolorosa, mas importante lembrança, Na verdade, posso afirmar, que judeus, em todo o mundo, haverão de ter alguma história parecida com a sua. Certamente alguns de nossos bisavós, avós ou pais, já terão vivido os horrores desta perseguição insana e as atrocidades de um campo de concentraçao. A ferida foi curada (perdoada) mas a cicatriz é eterna, nunca haverá de desaparecer, e nos servirá de alerta permanente para que fatos como estes jamais voltem a acontecer. Shalom, paz, Holocausto, nunca mais!!

  3. Querido Roberto,
    Documento e relato tocantes. Que bom ter você e sua família conosco. Com vocês a memória de seus entes queridos permanecesse viva. Juntos vamos adiante e somos uma grande mishpuche. Um abraço carinhoso.

  4. Meus queridos Eliana, Liliane e Rabino Uri
    Agradeço muito por suas palavras de apoio e incentivo, pois se escrever já é um ato solitário, escrever memórias é ainda mais solitário, pois nos faz evocar fortes emoções de um passado que só a nós pertence e que muitas vezes queremos esquecer. O retorno dos leitores é muito reconfortante, pois nos faz sentir menos solitários. Quanto ao telegrama enviado pelo comado do campo de extermínio à família de um “desparecido”, é de fato um documento raro. As experientes bibliotecárias do Yad Vashem jamais tinham visto um documento dessa natureza.Devido à sua raridade, o telegrama foi emoldurado e posto em exposição num dos salões do Yad Vashem. Um grande abraço,
    Roberto Leon Ponczek

  5. Transcrevo a “Conversa iniciada hoje com Rabino Ary Glikin (com sua autorização)
    04:39
    Ary Glikin
    roberto. um documento importante sem duvida. eu quero nesta oportunidade uma reflexao sobre a frase “perdoar sim, esquecer jamais”. nao compreendo o significado do perdao aqui. os judeus nao perdoamos em nome das vitimas. eles sao os unicos que podem perdoar mas nao estao conosco. imagina que alguem perdoa no seu nome algum ataque que voce for vitima (Ds nao quiser). no caso do holocausto o perdao nao e a questao. eu nao perdoo porque nao posso faze-lo em nome das vitimas, mas tampouco o faria em caso de que a minha tradicao o permita. o assassinato nao tem perdao possivel, so condena e justica. o perdao e minimizar a dimencao da tragedia. um forte abraco e que a memoria dos mortos sejam uma bencao e uma possibilidade de santificar a vida.

    Hoje
    ( a minha resposta ao Rabino Ary) :
    07:52

    Querido Rabino Ary,
    Entendo seu ponto de vista, concordo com vc que o perdão pessoal só pode ser dado diretamente pela vítima ao seu agressor. No entanto, proponho, em meu relato, “O telegrama da morte” o perdão histórico que significa os descendentes de um ser assassinado perdoarem os descendentes dos assassinos. Em outras palavras, seria como o povo judeu contemporâneo perdoar o povo alemão contemporâneo. Tenho alguns amigos alemães que sao ativistas de causas anti-nazis e sentem grande culpa pelo que fizeram seus avós. Creio que estes merecem o nosso perdão. Liliane Orenstein criou uma excelente metáfora: a ferida deixa de sangrar, mas a cicatriz fica eternamente para nos lembrar que a ferida existiu. Este é o sentido de “perdoar , mas nao esquecer”.
    Um grande abraço para vc e toda sua família.
    Shalom Roberto.
    P.S.Quando vc vem nos visitar?

  6. A PIOR FERIDA É A MORTE DE UM PARENTE VIVO. TRAIçÃO E DECEPçÃO JAMAIS SERÁ APAGADO DE UM CORAçÃO QUE SÓ FEZ SER GENEROSO. QUEM SEMEIA VENTO COLHE TEMPESTADE.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s