Comentário sobre Parashat Vaiechi

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

E viveu Jacob na Terra do Egito… (Gên.47:28)

A Doença
E foi depois daqueles acontecimentos que foi dito a José: Veja, seu pai está doente (Gên. 48:1)
Vocês imaginam um mundo em que ninguém fica doente? E um mundo sem desigualdades sociais? Um mundo perfeito, em que todos têm os mesmos direitos e deveres e os serviços públicos funcionam como um relógio? Um mundo em que médicos, psicólogos, enfermeiros e outros profissionais da área de saúde são irrelevantes, pois seus serviços são desnecessários? Um mundo em que advogados e juízes não têm razão de existir, porque não há conflitos a dirimir nem casos a julgar?
Pois é. Este mundo não existe. E se existisse, não seria o mundo ideal, pelo menos não para médicos, psicólogos, enfermeiros, advogados e juízes.
Pareço pessimista? Não, não se trata de pessimismo. Trata-se de falarmos do mundo como ele é. Não existe somente boas situações nem apenas boas pessoas na Torá. Nem mesmo Deus é bom o tempo inteiro. O texto bíblico não retrata somente a justiça e tampouco seus intérpretes estão sempre corretos; tudo, sempre, deve fazer parte de um contexto.
Isso os nossos antigos rabinos – digo, os realmente antigos, milenares, muito anteriores à Idade Média – percebiam muito bem. Quando da morte de Jacob, o midrash destaca que é neste preciso momento que começa a escravidão do povo de Israel no Egito. Mas como? Não está tudo bem? O povo de Israel desceu ao Egito, instalou-se nas melhores terras, logo irá prosperar e multiplicar-se, o Faraó nos respeita e admira – o que há de errado?
A ingenuidade, isso é o que há de errado. Nos comentários do Zohar Haniglá (Mikraot Guedolot), antes, nos tempos da ingenuidade, morria-se sem antes ficar doente: as pessoas viviam saudáveis e, de repente, quando era chegado o momento, simplesmente morriam. A morte súbita era a regra.
Nas palavras do Zohar Haniglá:
Quando veio Jacob, ele pediu ao Santo, Bendito Seja, dizendo: “Soberano do Universo, se Lhe parecer bem, eu lhe peço que o ser humano adoeça dois ou três dias antes e depois seja recolhido ao seu povo… para que se arrependa de suas transgressões”. Respondeu-lhe o Santo, Bendito Seja: “Disse bem! Então você será um sinal disso para o mundo. Venha e veja o que está escrito: ‘foi dito a José – veja, seu pai está doente’ – coisa que não havia ocorrido ao ser humano antes disso”.
Ficar doente é ruim? Por seu aspecto mais aparente, sim. Ninguém gosta de ficar doente, ou quase ninguém. Por outro lado, o midrash aponta para o fato de a doença dar tempo ao indivíduo para avaliar sua vida e corrigir eventuais rumos. Neste caso específico, em vez de morrer repentinamente, Jacob teve tempo de se reunir com seus filhos e abençoá-los, antes de “se reunir ao seu povo”, na delicada expressão da Torá para sua morte.
Os rabinos do midrash enfatizam que os dois ou três dias antes da morte sãos os momentos derradeiros de se arrepender de suas transgressões. A tradição judaica criou suas orações para este momento, tanto para a pessoa que está morrendo quanto para seus parentes e amigos. Seja o tempo que restou, é um tempo terapêutico: não sendo possível a cura do corpo, que seja a cura da alma. Momento de rever decisões, momento de pedir perdão, de abraçar, de dizer “eu te amo”, de despedir-se.
Jacob era o irmão mais novo de Esaú. Na sua juventude, por um ato enganoso, recebeu a benção de seu pai que era destinada a seu irmão. Em seus últimos momentos, foi a sua vez de abençoar os netos. Ao contrário de seu pai Isaac, que o abençoou achando que era Esaú (por mais que desconfiasse… como está escrito: “a voz é de Jacob, mas as mãos são de Esaú” (Gên. 27:22), agora Jacob, embora cego como o pai, decide conscientemente abençoar o neto mais novo, Efraim, antes do mais velho, Menashe.
Em seguida Jacob abençoou José com a oração conhecida como “Hamalach Hagoel Oti”, com a qual até hoje costumamos abençoar nossos filhos: “O anjo que me salva de todo mal abençoe os jovens e seja chamado por meu nome e pelo nome de meus antepassados Abrahão e Isaac; e multipliquem-se como os peixes, muito, no meio da terra”. (Gên. 48:16)
Mas se Jacob repetiu, conscientemente ou não, o ato de seu pai Isaac, abençoando o mais novo antes do mais velho – onde ele corrigiu sua ação? No seu caso, seu irmão Esaú foi excluído da continuidade do povo hebreu; agora Jacob incluiu os dois: “Que Deus lhe faça como Efraim e como Menashe” (Gên. 48:20)
Mais do que isso: Jacob incluiu todos os filhos na sua herança, destinando a cada um deles a benção que considerou apropriada. Mas falou Diná, que também era sua filha, sua única filha. Por que Diná não foi incluída nas bênçãos finais de Jacob? Uma explicação é que Jacob, patriarca do povo de Israel, não abençoou especificamente seus filhos, mas suas tribos – e numa época patriarcal, as tribos eram encabeçadas por homens. Diná não deu origem a uma tribo ao lado de seus irmãos e dos sobrinhos Efraim e Menashe. Em outras palavras: Jacob era um homem da sua época e fez o que estava ao alcance de sua consciência para aconselhar seus descendentes de acordo com uma visão de mundo patriarcal.

A Morte
“Ao terminar de ordenar a seus filhos, Jacob juntou seus pés na cama, expirou e foi reunido a seu povo” (Gên. 49:33)
Assim que morreu Jacob, nosso patriarca, começou a escravidão no Egito (Bereshit Raba)

José foi o primeiro a ser chamado por Jacob para que seu pai abençoasse seus filhos Efraim e Menashe; agora foi quem esteve ao lado do pai quando este morreu. José atirou-se sobre ele, chorou e o beijou. Então fez como era o costume no Egito: chamou os médicos para embalsamarem Jacob. Durante 70 dias, choraram por Jacob no Egito. Em seguida, em grande cortejo – digno do pai do braço direito do Faraó – o corpo de Jacob foi levado para a gruta da Machpelá, em Canaã, para ser enterrado ao lado de sua esposa Lea e de seus antepassados: Isaac e Rebeca, Abrahão e Sara. Acompanharam o cortejo e o enterro os anciãos e servos do Faraó, cavaleiros e caravanas – lado a lado com toda a família de José e seus irmãos. O que chamou a atenção do povo canaaneu neste enterro? “Este é um luto pesado para o Egito!” (Gên. 50:11) Da sua parte, os filhos de Jacob ficaram de luto por sete dias – o que pode ter se tornado uma das referências para a tradicional Shivá, a primeira fase de luto de sete dias após o enterro, na tradição judaica.
Seja como for, José decidiu pedir aos irmãos que, quando da sua morte, também o enterrassem na Terra de Israel. E assim foi, mas seguindo a prática egípcia, José foi embalsamado e colocado num caixão no Egito.

O renascimento de um povo – cenas dos próximos capítulos
Os israelitas viveram muito bem no Egito por muitas e muitas gerações, mas não sabiam que a escravidão já havia começado. Pois antes de chegar à escravidão física, a escravidão já havia chegado à alma. Seus costumes e práticas eram cada vez mais egípcios. Até seus corpos eram embalsamados na hora da morte, prática corrente na terra dos Faraós. Há quem diga que a única coisa que os israelitas preservavam no Egito eram seus nomes.
A escravidão física, portanto, era só uma questão de tempo. Antes de sair do Egito e mesmo depois do Êxodo, em algum momento seria preciso tirar o Egito da alma. Esta será a missão de Moisés na longa caminhada que passamos a acompanhar a partir do livro do Êxodo, que iniciamos na próxima semana: o processo contínuo de libertação da alma e o renascimento de Israel como um povo dotado de leis, costumes e práticas próprias – o êxodo é um processo que continua até os nossos dias.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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