Drashá sobre Parashat Vaerá

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Então me conte: qual é o milagre?

Nestes dias uma amiga querida me fez uma pergunta: “Oi Uri, como vai? Posso recorrer aos seus conhecimentos judaicos? Como o judaísmo aborda o(s) milagre(s)? Em qual texto principalmente?”(sic)

Como sempre me ocorre, passaram pela minha cabeça duas, três, um sem número de possibilidades de respostas, não necessariamente convergentes, ao contrário. A reação mais imediata e impulsiva seria “Não existe como o judaísmo aborda o(s) milagre(s), mas sim como judeus e judias, pensadores de diversas épocas abordaram o tema.” Mas não cheguei a expressá-la, pois não levaria a lugar nenhum.

A segunda reação foi fazer uma busca rápida pela memória. O primeiro fato que me surgiu foi a oração “al hanissim”, que fala sobre os milagres e maravilhas que ocorreram ao nosso povo em tempos passados nesta época do ano – pensei especificamente em Chanuká, a última festa comemorada. Em seguida veio à mente Maimônides, o grande rabino e filósofo do século 12, com sua definição de que milagre é algo sobrenatural que acontece uma única vez e não se repete. Em seguida eu mesmo contrapus esta definição com a lembrança de uma história chassídica, se não me engano coletada por Martin Buber no início do século 20, na qual uma pessoa perguntou ao rabino se ainda há milagres nos tempos atuais. O rabino respondeu algo como: “Claro que sim! Abra os olhos, olhe pela janela, admire o nascer do sol, a natureza, os animais, as pessoas, a noite e as estrelas, a vida que renasce a cada dia. Os milagres ocorrem o tempo inteiro!”. Por outro lado, fiquei aqui pensando, se tudo o que nos acontece é milagre, então nada é milagre…

Eis que a leitura da Torá desta semana me fez pensar não na natureza dos milagres, mas sim no lugar que Deus ocupa na vida de cada um de nós e, a depender desta relação, qual é o lugar dos milagres.

Elo-h-im (Deus) falou com Moisés dizendo: “Eu sou YHVH. Apareci para Abrahão, Isaac e Jacob como El Shadai – e o Meu Nome, YHVH, não o fiz conhecido para eles”. (Êxodo 6:2-3)

 O livro do Zohar oferece diversas interpretações dos motivos pelos quais Deus se apresenta para Moisés de modo diferente daquele com o qual se apresentou aos patriarcas fundadores do povo de Israel: “… Eles não falaram Comigo face a face, como fiz com você (…) Há matizes visíveis e matizes ocultos. Um e outro são um segredo superior da crença: os seres humanos não sabem deles e não os veem… até que vieram os Patriarcas e estiveram diante deles [os matizes visíveis]; por isso está escrito Vaerá (Eu Me fiz ver), pois eles viram os matizes que foram revelados. E quais são os matizes revelados? Aqueles de El Shadai, que são matizes superiores que podem ser vistos. Mas os matizes superiores que estão ocultos e não podem ser vistos, não os revelei a eles… Venha e veja: Moisés é mais perfeito do que os patriarcas, motivo pelo qual O Sagrado, Bendito Seja, falou com ele desde um nível mais elevado do que para todos; Moisés era interno da Casa do Rei Superior…” (Zohar, Vaerá)

Parece haver, segundo esta visão do Zohar, pelo menos três níveis de percepção:

(1) a percepção do mundo sensível, acessível a todo ser humano;

(2) a percepção dos matizes visíveis dos mundos superiores, acessível aos patriarcas Abrahão, Isaac e Jacob, através da qual puderam perceber Deus como El Shadai, Deus Todo Poderoso.

(3) a percepção do matizes ocultos dos mundos superiores, que somente Moisés era capaz de alcançar, no qual Deus se revelou como YHVH, tradicionalmente traduzido em português como O Eterno, mas que também pode ser compreendido como Havaiá, a Existência.

Mais do que isso: enquanto Deus se revelou aos patriarcas como El Shadai e esta revelação ficou restrita aos mesmos, Moisés não só pôde alcançar a dimensão de Deus como a Existência, como lhe foi incumbida a missão de transmitir esta revelação a todo o Povo de Israel.

Mas ao ser convocado para libertar o povo de Israel da escravidão no Egito, Moisés questionou sua missão e perguntou a Deus: “Então Você quer que eu vá até o povo e diga: ‘O Deus dos seus patriarcas me enviou até vocês’. Com certeza eles irão me perguntar: ‘Qual é o nome Dele?’ O que eu digo?!” Moisés parece saber que o conhecimento espiritual concedido aos patriarcas não seria suficiente para convencer os israelitas. O povo – e provavelmente o próprio Moisés – já não tinha Deus dentro de si; em meio ao sofrimento e à dura servidão pela qual passavam há séculos, era preciso apresentar provas externas da Existência de Deus.

Conta um midrash, em Shemot Raba, que quando Moisés fez esta pergunta, recebeu a seguinte resposta: “Que pena que as pessoas se esquecem. Tantas vezes Eu me revelei a Abrahão, a Isaac e a Jacob como ‘El Shadai’…. Nenhum deles perguntou qual era o Meu Nome. Mas você Moisés, antes mesmo de Eu lhe enviar para a sua missão, você perguntou qual era o Meu Nome. E Eu lhe contei. Para que? Para você vir em seguida e se queixar: ‘Desde que me apresentei ao Faraó para falar em Teu Nome, ele tem maltratado este povo’”.

Este midrash expõe um aparente paradoxo: se Moisés tinha uma capacidade de percepção espiritual superior à dos patriarcas, por que justamente ele teve dúvidas sobre cumprir ou não as ordens de Deus – enquanto os patriarcas, com uma percepção mais limitada, não questionaram e cumpriram o que lhes foi ordenado? Vamos dar um passo adiante: quando Deus falou com os patriarcas e se revelou como o Todo Poderoso, Ele não precisou exercer Seu poder de convencimento através de milagres.

Segundo o pensador israelense Yeshayahu Leibowitz, na coletânea Sheva Shanim shel Sichot al Parashat Hashavua (Sete Anos de Palestras sobre as Porções Semanais da Torá), o conhecimento de Deus por parte dos patriarcas não se dava através de revelações que provocassem mudanças na ordem natural das coisas nem na realidade histórica – em outras palavras, eles não precisavam de milagres para aceitarem a existência de Deus e cumprir Suas ordens. Por outro lado, Moisés e o Povo de Israel tinham necessidade de provas sobrenaturais, ou seja, Deus precisaria demonstrar a Sua Existência através de uma atuação milagrosa no campo da realidade natural e histórica para ter alguma chance de ser escutado.

Portanto, diga aos filhos de Israel: “Eu sou YHVH: Eu vos tirarei de debaixo do sofrimento dos egípcios, e vos resgatarei de sua servidão, vos salvarei com braço estendido e com grandes juízos e vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus… E Eu vos levarei à terra pela qual levantei Minha mão, para dá-la a Abrahão, a Isaac e a Jacob, e a darei a vós por herança – Eu, YHVH.” Moisés falou assim aos filhos de Israel – mas eles não escutaram Moisés, por causa do espírito curto e do pesado serviço. (Êxodo 6:6-9)

No final da Torá lemos que “jamais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem YHVH apareceu cara a cara, no tocante a todos os sinais e milagres que YHVH o enviara para fazer na terra do Egito…” (Deut. 34:10-11). Por que Moisés é visto como o maior dos profetas, superior espiritualmente até mesmo do que Abrahão, Isaac e Jacob? Eu realmente não tenho uma resposta. Pois enquanto Moisés viu Deus cara a cara como um Ser – ou Existência – externo a si mesmo, eu sugiro que os patriarcas percebiam Deus dentro deles. Assim, não lhes eram necessárias demonstrações externas de milagres – nem sarças ardentes, nem cajados que se transformassem em serpentes, nem pragas sobrenaturais sobre os egípcios, tampouco haveria para eles necessidade de se abrir o mar ou de parar o sol para que Deus fosse reconhecido e escutado. Em outras palavras: Moisés e o povo de Israel precisavam de milagres, pois viviam em uma época em que já não tinham mais a capacidade de perceber Deus dentro de cada um.

Hoje em dia vivemos em uma época muito interessante: depois de passarmos pelo “desencantamento do mundo” durante os últimos dois séculos, percepção esta causada pelo enorme desenvolvimento das ciências e da tecnologia, em que os milagres – digo, demonstrações maravilhosas de interferência de Deus na natureza e nos processos históricos – pareciam coisa de um passado “encantado” ou supersticioso, nos últimos anos presenciamos uma busca cada vez maior por um reencantamento do mundo: a busca pelo sentido da vida parece não se satisfazer somente com o mundo científico e tecnológico. O crescimento das religiões ou a criação de novas formas de vivenciar o mundo espiritual, seja de modo tradicional, seja de modo renovado, está presente na vida de boa parte da humanidade, ao contrário do que prediziam tantos pensadores há cerca de cem ou duzentos anos. No meio judaico em particular, vemos tanto o crescimento das vertentes mais tradicionais quanto a busca cada vez maior de uma releitura das tradições judaicas, num processo de renovação que integra o racionalismo ao pensamento cabalístico. Um exemplo é o enorme acesso que justamente a tecnologia hoje oferece para entrarmos em contato com a sabedoria dos nossos antepassados de todas as épocas.

Hoje em dia podemos dispor das ciências e da tecnologia para o nosso crescimento espiritual, como indivíduos, comunidades e povo, a fim de fazermos o caminho de volta à capacidade dos nossos antepassados de perceber Deus dentro de cada um de nós – o Deus imanente – integrado à percepção do Deus externo a nós – o Deus transcendente: a unicidade entre o Todo Poderoso dentro de nós, herança de nossos patriarcas; e a Existência além de nós, que recebemos como a Torá de Moisés. “Neste dia YHVH será Um e o Seu Nome será Um” (Zacarias 14:9). Com a integração plena do Eu-Tu, sugerida por Martin Buber, o judaísmo se renova.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia
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