Identidades

Prefácio (da revista israelense Zehuiot/Identidades)

Publicado com a devida permissão de

Naftali Rothenberg 

Zehuiot [Identidades]: Revista de Cultura e Identidade Judaica, Edição 4, Dezembro de 2013, publicada pelo Instituto Van Leer de Jerusalém.

Tradução para língua portuguesa: Uri Lam 

O pai da noiva e o rabino oficiante registraram a lista dos que seriam homenageados com cada uma das Sete Bênçãos Matrimoniais: o rabino-chefe ashkenazi, o rabino-chefe sefaradi, o reitor de uma determinada yeshivá, um ministro do partido religioso, e assim por diante.

“Ninguém do lado do noivo?” Perguntou o rabino, surpreso. O pai da noiva se deslocou com dificuldade e, em seguida, saiu para verificar. A noiva era filha de uma eminente família do campo religioso sionista; o noivo era um estudante de rabinato americano no Hebrew Union College (HUC).

O pai da noiva retornou: “Bem, nós poderíamos dar uma bênção para Chaim Yankel – ele é professor do noivo. Mas isso realmente não é necessário…”.

“É muito importante que o noivo também esteja representado na cerimônia”, respondeu o rabino. Em seguida ele continuou: “Se ele é professor do noivo no HUC, ele é, certamente, um rabino, um doutor ou pode ser que seja os dois. Você pode descobrir qual título ele usa?”

O pai da noiva ficou pálido. “Talvez devêssemos simplesmente esquecer o assunto?”

“Não, é muito importante”, insistiu o rabino.

O pai da noiva saiu para verificar e voltou envergonhado: “É o rabino Chaim Yankel”, disse em voz baixa. “Mas nós realmente não precisamos…”.

Os homenageados foram chamados um após o outro para a hupá, incluindo os dois rabinos-chefes. Quando o rabino oficiante chamou o rabino do Hebrew Union College por seu título e nome, este veio e recitou a bênção com muito sentimento.

Após a cerimônia, o rabino reformista foi até o oficiante: “Eu fui rabino de uma congregação nos EUA por 20 anos. Desde que eu fiz Aliá, há um ano e meio, escutei quase todos os dias que eu não sou um rabino de verdade. Nós exigimos que todos os nossos estudantes de rabinato venham para um ano de estudos em Jerusalém, mas veja como eles nos rejeitam aqui. O que eu vivenciei hoje é um verdadeirotikun (retificação)”. Uma lágrima caiu sobre sua face.

*

Quando eu era jovem, ensinaram-me que “judeus reformistas não tem netos judeus”. Mas isso não é verdade. Eu aprendi que o Judaísmo Reformista, o Judaísmo Conservador e outras correntes judaicas – com suas congregações, escolas rabínicas e organizações seculares – também lutam pela sobrevivência do povo judeu, cada um à sua maneira, e fazem uma grande contribuição para este esforço.

A campanha de líderes ortodoxos contra o reconhecimento de rabinos reformistas pelo Estado é equivocada ou hipócrita – ou ambas. Isso é incompatível com o caráter de Israel como Estado Nação do Povo Judeu e um país democrático que deve oferecer um lugar para todas as comunidades e correntes judaicas. É equivocada porque atribui importância e significado exagerados ao reconhecimento oficial por parte do Estado [de Israel] e cria uma relação de dependência prejudicial à religião. A Torá e a autoridade dos que tomam decisões haláchicas são autônomas e não necessitam de reconhecimento pelo Estado. A maioria dos ultraortodoxos e muitos do público datí leumí (religioso nacionalista) não reconhecem a autoridade do Rabinato Chefe – ainda que este goze de reconhecimento por parte do Estado, ao lado das igrejas cristãs, dos tribunais islâmicos de Shari’a, dos drusos e dos Baha’is.

Alguns protestam em voz alta contra o reconhecimento, por parte do Estado, do título “Rabino Reformista”. Mas essa gente está enganando o público, fazendo-o acreditar que todos os rabinos ortodoxos passam por um curso de estudos sistemático e institucionalizado que leva à ordenação [rabínica]. Em Israel, os rabinos começam a estudar Torá por si mesmos na yeshivá. Quando decidem que querem se tornar rabinos e dayanim, eles estudam textos haláchicos e passam por exames de qualificação. Mas a grande maioria dos rabinos em Israel não teve nenhum treinamento formal para um cargo rabínico. Além disso, dezenas de milhares de homens ultraortodoxos e religiosos nacionalistas em Israel e no exterior, muitos dos quais mantêm postos rabínicos oficiais ou quase oficiais, são tratados como “rabinos” sem terem recebido ordenação. Como, então, alguém pode reclamar que o Estado reconhece rabinos reformistas que foram formalmente educados nos seminários de seu movimento e atendem congregações reformistas?

Será que existe alguma novidade ou ideia moderna que os ortodoxos, ou pelo menos amplos setores do mesmo, não conseguem lidar? Em uma época de infinita variedade de comunidades ortodoxas modernas e ultraortodoxas, será que essas lutas ainda têm algum significado? Ou talvez os pronunciamentos tacanhos têm simplesmente o objetivo de servir a conflitos internos entre os diferentes grupos ortodoxos e de perseguir o objetivo de deslegitimar um rival?

Finalmente, qual é o peso de movimentos e congregações em uma época que tem visto a quase total privatização da vida religiosa (supervisão privada de kashrut, tribunais rabínicos, congregações independentes, tribunais hassídicos, yeshivot, batei midrash, seminários, faculdades e academias pré-militares particulares, e assim por diante?)

Neste período de crescimento, proliferação e renovado vigor, certamente é chegado o momento de a ortodoxia abandonar as expressões de fraqueza que a marcaram há 40 ou 50 anos e pararem de reagir com pânico infundado. Israel é o Estado Nação do Povo Judeu e um país democrático. Segue-se que qualquer comunidade judaica que vive aqui deve ter permissão para se expressar e seguir a sua própria cultura e costumes. Quanto mais as congregações e linhas religiosas sentirem que podem se expressar, estabelecerem-se em novas trilhas e serem criativas, mais em casa elas se sentirão aqui – e será melhor para todos nós!

O Rabino Prof. Naftali Rothenberg é pesquisador sênior do Instituto Van Leer de Jerusalém (desde 1994), onde exerce a cadeira de Cultura e Identidade Judaica e é o editor de Zehuiot (Identidades), Revista de Cultura Judaica & Identidade. Ele também atua como o rabino e líder espiritual de Har Adar, uma cidade no subúrbio de Jerusalém, onde reside com sua família. Suas principais áreas de pesquisa são: A sabedoria do amor, Filosofia Política, Filosofia da Halachá, Educação Democrática.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s