Tu b’Shevat: O Jardim da Sutileza ou O Jardim dos Escrúpulos – um Midrash para os nossos tempos

Tu BeShevatQuando o Sagrado, bendito seja, criou o ser humano, ele o guiou por entre as árvores do Jardim do Éden e disse: “Veja só as Minhas obras, são lindas, admiráveis, você não acha?” O ser humano ficou calado, extasiado. Jamais vira tanta beleza junto: os perfumes dos frutos e flores, as folhas cobertas de orvalho, os rios cheios de vida, a lua prateando suas águas, o sol dourando a pele. Mas na medida em que caminhava, O ser humano não contou a Deus que logo se acostumara com tanta beleza e que a Criação já não parecia mais tão impressionante. No entanto, Deus estava tão entretido com o mundo que não reparou no desencantamento progressivo do ser humano.

É como se Deus, antes de ter criado o Mundo, tivesse sonhado com um lugar que fosse um pedaço do céu. Assim, no início da Criação, ao separar as águas celestiais das águas comuns, decidiu recolher um pouco das águas do céu, misturou às outras águas, combinou mais alguns elementos, deles criou um pedaço do céu na Terra e chamou de Jardim do Éden. Mas ao voltar a realidade, Deus observou que Adão começou a desperdiçar os frutos, cortar árvores, sujar os rios e não recolher o lixo por onde quer que passasse. Então questionou:

“Adão e Eva, estão me escutando? O que acharam do figo? E das videiras? E das macieiras? Gente, acordem!”

O homem e a mulher ouviam uma voz ao fundo, mas não escutavam Suas palavras – eram como se fosse o barulho do vento. Mas Deus não parava de falar:

“Adão e Eva, Eu não criei tudo isso só para Mim, mas também para vocês. Se não entenderam, somos parceiros nessa história: Eu criei, vocês cuidam. Não é para deixar o nosso mundo se deteriorar, nem é para estragar. Senão, uma hora não terá quem recupere. Nem Eu. Vocês estão me escutando?”

Enquanto isso, Adão e Eva estavam entretidos com a serpente, que lhes oferecia um fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal: “Será figo ou maçã? Uva ou romã?” A Torá não conta que fruto era. Mas Adão não soube nem o que comeu? E se Eva lhe disse assim: “Surpresa! Abra a boca e feche os olhos…”?

Séculos depois, os rabinos do Talmud discutiam, como sempre. Qual fruto abriu os olhos da humanidade para o conhecimento: o trigo? Não dá em árvore. As uvas? Pode ser, afinal o vinho dá sensação de sabedoria. Porém conta um midrash – nem precisava – que umas taças a mais e a sabedoria dá lugar à estupidez. O figo? Forte candidato. Afinal, assim que comeram o fruto, Adão e Eva se cobriram com folhas de figo. A consciência se estabeleceu e cobriu a nossa natureza básica. De agora em diante, o primeiríssimo mandamento, “cresçam e multipliquem-se”, teria regras.

“Adão e Eva, vocês queriam conhecimento? Pois saibam que terão que usá-lo para trabalhar a terra, mas não destruí-la. O mundo é uma benção, mas também pode não ser. Agora depende mais de vocês do que de Mim.” No paraíso não havia regras, mas tudo era claro. Ironicamente, a partir do conhecimento surgiram as regras, e foi aí que muita coisa se confundiu.

Quando o ser humano aprendeu a preparar o vinho, veio o Lechaim, o brinde à vida – mas também os devaneios e, com eles, mais regras de conduta. O vinho que solta é o mesmo que torna a vida mais complexa.

O tempo passou. Os pastos substituíram as matas e as garrafas pet foram jogadas na água, estragando, mas demorando a se estragar. O que um dia era tido como benção parecia agora cercear a vida, e arriscar a vida foi considerado por como uma benção. “Precisamos expandir os pastos para o gado e aumentar artificialmente a produção de alimentos em geral, o povo precisa comer, não se pode parar o progresso”. “Energia limpa traz desemprego, são vidas em jogo”. Assim o ser humano entendeu,equivocadamente, a benção de dominar a natureza.

E eis que nesta semana comemoramos Tu b’Shevat, a Festa das Árvores, o ano novo do renascimento da natureza. Nunca foi tão importante refletir sobre este bem tão precioso. É hora de lembrar que a Terra já teve um Paraíso, um Gan Éden, que pode ser traduzido como Jardim da Sutileza ou Jardim dos Escrúpulos.

Falando em escrúpulos, eis as recomendações dos nossos antepassados:

Não cabe a você encerrar o trabalho – não é nosso direito destruir os recursos naturais.

nem você é livre para se isentar dele. – mas sim recuperar o que estragamos.

Não cabe a você completar a tarefa – é tarefa de todas as gerações, inclusive a nossa.

nem você é livre para desistir dela. (Pirkê Avot 2:21)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia
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