Parashat Terumá

Mas cada um cumpre o Destino

 Ela dormindo encantada,

 Ele buscando-a sem tino

 Pelo processo divino

 Que faz existir a estrada.

(Eros e Psique – Fernando Pessoa)

 

Está sendo preparado o momento para um grande encontro. O instante único e indescritível em que os olhares se fazem um, em que o mundo parece desaparecer lá fora, em que o Divino transborda por todos os mundos, por todo mundo – e tudo se torna Um.

 

Uma arca muito especial será produzida para ser colocada no Kódesh Hakodashim, o mais Santo dos Santos lugares doMikdash, o Santuário: “E farão um Santuário e Morarei entre eles” (Êxodo 25:8). Dentro da arca será colocado o Testemunho – Edut, em hebraico. Mas o que vem a ser Edut? Que testemunho é este?

 

Edut e Shemá Israel

Edut fala de amor, do encontro em um momento e espaço divinos. Podemos dizer que Deus ordena ao povo de Israel guardar o Testemunho na Arca, que por sua vez estará no mais santo dos lugares santos do Santuário, no coração em que o Divino e o Humano se encontram.

 

A propósito da parashá Terumá, que fala de doação e entrega, o Zohar ocupa páginas e páginas discorrendo sobre o Shemá Israel, considerada a principal afirmação de fé do povo judeu. Em muitos sidurim, os livros de orações judaicos, costumamos encontrar a última letra hebraica da primeira e da última palavras desta oração em destaque: em negrito ou em um tamanho de fonte maior. A união destas duas letras forma a palavra עד (Ed), Testemunha.  שמע… אחד. Escuta… Um.

 

Escuta… Ame

Quando há muitos anos me tornei um bar mitzvá, no Kabalat Shabat o rabino perguntou a três meninos emocionados e assustados: “Queridos bnei mitzvá, o Shemá é a principal expressão de fé do nosso povo. Qual é a primeira palavra do Shemá, o que significa?” e com seu sorriso característico, reforçou: “Está é fácil!”

 

Respondemos em uníssono: “Escuta”. Então ele continuou: “E qual é a palavra que inicia o primeiro parágrafo do Shemá?”… Silêncio. Ele se virou para mim e repetiu: “Uri, qual é a palavra que inicia o Shemá?” por um instante que me pareceu um século, pensei que era uma pegadinha do rabino: não poderia ser que ele estivesse esperando escutar novamente “Shemá”. Então fui para o primeiro parágrafo e arrisquei, sem certeza: “Veahavtá – E amarás?” O rabino sorriu mais uma vez, fez sinal de positivo com o polegar esquerdo e continuou: “Muito bem! E Amarás. Para amar é preciso, antes, escutar”.

 

Aquele momento foi de arrepiar. Éramos testemunhas da nossa união com Deus, um momento indescritível de entrega. O nosso testemunho era o amor. É claro que não tínhamos consciência disso. Hoje, muitos anos depois, leio o Zohar e busco entender o que senti. Não consigo entender! Mas consigo sentir: sentir algo novo, que me remete ao passado, àquele passado que se agora se torna tão presente. Aquele momento de amor está guardado dentro de mim no coração como em uma arca sagrada, no mais santo dos lugares santos da alma.

 

De todo coração

O Zohar se pergunta por que nesta passagem da Torá está escrito que devemos amar bechol levavchá, “em todo o teu coração”. E explica: “porque são dois corações, duas inclinações, um é o yétzer tov (a inclinação para o que é bom) e o outro é o yétzer rá (a inclinação para o que é mau). E estes dois, cada um deles se chama coração: este é o coração bom e aquele é o coração mau… e como amar com este (o coração mau)?… pois quando esta inclinação para o que é mau é rendida e o ser humano a quebra, este é o amor pelo Sagrado, Bendito seja – uma vez que soube aproximar esta inclinação para o que é mau a serviço do Sagrado, Bendito Seja.” (Zohar, Terumá)

 

O Shemá também é visto no Zohar como o Shemá Israel da União, quando “a mulher adere ao seu marido e tudo se torna integralmente Um… em seguida se unem os três lados – o Eterno nosso Deus, o Eterno Um – para tudo se tornar Um”.

 

O que isso tem a ver com os dois querubins?

Os dois querubins, feitos do mais puro ouro, são “esculpidos e feitos de uma só peça… da mesma peça do tampo (da arca)… com as asas estendidas para cima… suas faces estarão uma frente à outra, olhando para o tampo… E no tempo marcado estarei ali e falarei contigo de cima do tampo – entre os dois querubins… a respeito de tudo o que te ordenarei para os filhos de Israel.” (Êxodo 25:20-22). É eternizado o momento em que os três lados – um querubim, outro querubim, e Deus – se tornam Um; e que Deus e o Testemunho se tornam Um através de um verbo que se renova constantemente e se faz continuamente presente: veahavtá – e amarás.

 

Lemos mais uma vez no Zohar: “Rabi Yossei afirmou: Ai do mundo quando um querubim vira o seu rosto do seu companheiro, pois está escrito: suas faces estarão uma frente à outra – quando houver paz no mundo”.  Quando há paz no mundo, as faces dos querubins estão uma diante da outra num momento eternamente presente. Seus olhares protegem a arca, que por sua vez guarda o Testemunho – ou na interpretação proposta, o amor no seu estado mais puro. Quando a paz é quebrada, os querubins se viram de costas um para o outro, os olhares se perdem no horizonte – e o amor se perde de vista.

 

Os Caçadores da Arca Perdida

Talvez tenha ocorrido o que Rabi Yossei temia. A paz se afastou do mundo, os querubins se colocaram de costas um para o outro, a arca ficou desprotegida – e o Testemunho/Amor contido nela desapareceu. Isso não significa que não exista mais; existe, mas não sabemos exatamente onde está. E seguimos no seu encalço, na sua busca.

Rezamos todos os dias para que Deus faça “a paz sobre nós, sobre todo o povo de Israel” e sobre toda a humanidade. Quando houver paz, os querubins voltarão a se ver frente a frente, olhos nos olhos, as asas estendidas tocando-se delicadamente como as mãos entrelaçadas de um casal. Entre eles, a Presença Divina; e dentro da Arca, o Amor no seu estado mais puro.

Enquanto isso não acontece, parafraseando Fernando Pessoa: este amor segue dormindo encantado, enquanto seguimos buscando-o sem tino pelo processo divino que faz existir a estrada. 

Que não desistamos das relações de amor. Sigamos buscando manter viva a relação com o Eterno e com o mundo ao nosso redor em nossas vidas. Martin Buber dizia que são raros os momentos do verdadeiro encontro, que levam à unidade Eu-Tu; mas estes momentos existem e vale a pena vivê-los. Cada vez que alcançamos essa Unidade, fazemos a nossa parte e levamos um pouco do Divino para o mundo; damos assim um importante passo em direção ao restabelecimento da paz no mundo.

Esse amor que nos eleva, seja no relacionamento entre um casal, com filhos, pai ou mãe, com um amigos e amigas sinceros que quando dizem “queira-me bem” realmente desejam isso de coração. Seja por anos, meses, dias, horas, um instante, um olhar, uma palavra…. trazer o amor de dentro da arca pessoal de cada um, do coração, é acreditar de verdade e um futuro de paz – é celebrar a Vida.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia
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