Comentário sobre Parashát Tetzavê

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Esta semana assisti novamente um filme nacional curioso, que relata a vida de Noel Rosa, um dos maiores sambistas brasileiros. Num certo momento do filme, ao andar pelas ruas do subúrbio do Rio de Janeiro e escutar ao fundo a abertura do hino nacional brasileiro, o jovem Noel começou a se perguntar com que roupa iria para a roda de samba para a qual havia sido convidado. Desta pergunta, combinada com o hino nacional, nasceu um dos sambas mais conhecidos do país, eternizado na voz do meu cantor preferido, o baiano Gilberto Gil:

Pois esta vida não está sopa, e eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou?
Com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou!

Nestes 11 meses em que estou em Salvador – tornei-me rabino da SIB em março de 2013 – tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre os judeus da Bahia, através de artigos de revista e dos novos amigos que tenho feito por aqui. Descobri que muita gente que eu conheço em São Paulo são filhos desta terra. Também descobri que muito da vida judaica na qual cresci, no Bom Retiro em São Paulo, se assemelha às origens da vida judaica em Salvador no século 20: judeus ashkenazim vindos da Europa, como meus avós, como Michale, o lendário vendedor de giletes e canetas, parente meu, do meu primo, o rabino Jacques Cukierkorn, e do querido Izio Kowes, outro judeu “naturalizado” baiano. Boa parte da minha infância e adolescência eu passei no snif do Ichud Habonim, do qual meu pai foi madrich e eu fui chanich, e que depois se tornou o Habonim Dror, o único movimento juvenil com sede em Salvador.

Em meio a tudo isso, voltei à questão: com que roupa eu vou, que roupas devo vestir? Quais são os objetos que carrego, os acessórios que uso? O que significam e que mensagem devem passar? O que significa usar uma kipá preta, branca, colorida, grande ou pequena, ou um boné, ou não usar nada? Que mensagem carrega um talit pequeno, grande, tradicional, colorido, com tsitsiot brancas ou com o velho-novo fio azul?

Nesta semana lemos na Torá uma detalhada descrição sobre a ordenação dos cohanim, os sacerdotes do santuário montado pelos israelitas durante a peregrinação pelo deserto. Roupas sobre roupas, pedrarias num peitoral, tudo colorido e vistoso. Se os sacerdotes se perguntavam com que roupa iriam para o espaço sagrado no qual a Presença Divina se fazia mais presente, a resposta era: muitas roupas, belas e vistosas. O sacerdote era vestido e perfumado com óleos aromáticos, de forma que era inconfundível em meio à multidão ao seu redor.

Entre os acessórios, havia um muito especial: os urim e tumim, embora este escrito na Mishná (Sotá 9:12): Desde que os profetas morreram, cancelaram os urim e tumim”.
Os urim e tumim foram muito usados em antigas sociedades (e ainda são, de algum modo), que usavam um conjunto de pequenos objetos como mediadores entre o presente e o futuro ou entre o homem e Deus. Diz a Mishná, material de orientação rabínica, que com a morte dos profetas, estes objetos de auxílio no contato com o divino foram abolidos. A época rabínica, pelo menos a do Talmud, se afasta da liderança sacerdotal e dos ritos místicos e busca, para além deles, a razão e o debate como instrumentos de aproximação com o divino.

Contudo, ainda hoje temos fora do meio judaico – e também no meio judaico – aqueles que usam objetos semelhantes aos urim e tumim para se comunicar com o mundo espiritual. Se isso “funciona ou não” não posso dizer. Mas que há muitos farsantes em todos os meios, inclusive no nosso, usando roupas e objetos “como se fossem” rabinos, sacerdotes, mestres cabalistas, curandeiros e suas variações – ah, isso sempre houve e sempre haverá. Então me lembro do querido rabino Michael Leipziger, que certa vez me disse: “O judaísmo existe para afastar o homem da superstição”. No ritmo que vamos, creio que se este é o objetivo do judaísmo, estamos um pouco longe de alcançá-lo.

Mas eu continuo me perguntando: com que roupa eu, rabino Uri, paulistano com novo passaporte baiano, que cresceu num lar tradicional, mas não demasiado religioso, que vestiu a tilboshet (uniforme) do Habonim Dror com orgulho e vestiria até hoje, que viu rabinos e rabinas em Israel vestindo desde roupas pesadas e formais até tecidos leves e claros, camisas largas ou vestidos floridos; eu, que tive outros uniformes e outras personas na vida – com que roupa eu vou hoje? O que represento, como me sinto?
Terno e gravata? Não é bem o meu perfil, embora caiba em certas ocasiões. Kipá preta? Provavelmente não, gosto das coloridas, das que têm um significado para mim e que quero transmitir para os outros. Estrela de David no pescoço? Gosto muito, mas tenho medo de assalto. Barba? Já me perguntaram se rabino tem que ter barba… Será que deveria me fantasiar de sacerdote dos tempos de Moshé Rabeinu, ou de Maimônides, ou dos judeus do shteitele dos meus avós? Ou como os rabinos new age de algumas regiões dos EUA?

Em me lembro da emoção ao me encontrar, no ano passado, com os jovens do Habonim Dror de Salvador, quando fui presenteado com uma camiseta da tnuá em que vem escrito um miniguia de sobrevivência na Bahia: Movidos Pela Mistura. Esta é a roupa que quero vestir: a roupa da integração do judeu com o baiano, do brasileiro com o yidish, do baianês com o ladino, do shteitel com o campo da pólvora.
Hoje em dia não temos mais sacerdotes com suas belas vestes, suas pedrarias representando as doze tribos, suas tiaras. Temos rabinos – alguns conservam as roupas chamativas, as pedrarias, talvez até as tiaras…

Como rabino, estou ciente da responsabilidade que tenho diante da minha comunidade judaica em Salvador, que está prestes a inaugurar uma nova morada para o nosso povo. Estou ciente também, hoje, da minha responsabilidade como rabino no Nordeste, em meio a uma sociedade plural, dentro da qual há tanta gente que “quer ser judeu”, veste-se “como judeu” ou como acham que um judeu se vestiria… tenho uma enorme responsabilidade em trazer sempre o senso de realidade à tona, doa a quem doer; mas também dar esperança, criar vínculos entre as famílias e com as nossas tradições.
Cabe a nós ter consciência de com quais roupas cobrimos nossos corpos e nossas almas; de que valores queremos transmitir.

Dizem os nossos rabinos, há quase dois mil anos: desde a época em que os profetas morreram, os urim e tumim foram abolidos. Já é mais do que hora de acreditarmos que nós temos que fazer os milagres, e não esperá-los cair do céu, nem um salvador da pátria.

E eu, com que roupa eu vou? A roupa eu não sei, mas sei que vou com alegria, disposição, dedicação em contribuir para uma vida judaica movida pela mistura entre as culturas judaica e israelense, paulistana e baiana, aberta para Recife e Rio, Porto Alegre e Manaus, com todas as demais culturas envolvidas. Que as nossas ações sejam movidas pela emoção, pelo conhecimento e pelo entusiasmo, pelo calor humano e pelo acolhimento que tenho recebido na Bahia desde o primeiro momento e de gente boa do Brasil inteiro, judeus e não judeus, igualmente.

Já que abri com Gil, preciso fechar com Caetano:

“Caminhando contra o vento… eu vou, por que não? Por que não? Por que não?

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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3 pensamentos sobre “Comentário sobre Parashát Tetzavê

  1. Rabino Uri
    as suas palavras inspiradas pela sabedoria Divina, tranquilizou o meu coração, porque neste momento estou no olho de um furacão familiar. Ao ler a Parashá me perguntei também: com que roupa eu vou? poderei caminhar sem lenço e sem documento? E ai entendi que mesmo passando por todas essas coisas eu tenho que me revestir da emunah e seguir marchando no meio de tudo isso sendo uma interiorana do sertão da Bahia e ao mesmo tempo uma panamenha de coração. As nossas escolhas com sabedoria é o que nos levanta e nos faz caminhar mesmo quando os ventos sopram o contrário.
    Todah pela sua presença aqui em Salvador. porque assim tive a oportunidade de te conhecer.
    Shabat Shalom
    Gloria Lemos

  2. Palavras iluminadas!! Gostei muito da mensagem!! Vale lembrar que nestes tempos de aparências a atitude que se veste deve falar mais alto que as vestes atrás das quais nos escondemos. Costumo dizer que a aparência mais esconde do que revela, nivela todos num padrão que extingue a individualidade e mascara as relações. Vale mais ir com a alegria mesmo! Abraço!

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