Um povo insubordinável – graças a Deus?

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Deus: Eis que Ele é um povo insubordinável (Êxodo 32:9)
Deus: Tu és um povo insubordinável (Êxodo 33:3)
Deus diz para Moisés dizer ao povo: Vós sois um povo insubordinável (Êxodo 33:5)
Moisés: Pois ele é um povo insubordinável (Êxodo 34:9)

Que nós somos um povo teimoso até hoje, quase ninguém discute. Teimamos em permanecer judeus, apesar das perseguições, do genocídio do monstro nazista, do antissemitismo – e de tantas outras tzures, como me disse hoje uma querida e lúcida senhora de 90 anos da nossa comunidade judaica baiana.
Anita Trief é ela própria um exemplo de teimosia, no melhor sentido do termo. Teimosia em viver, teimosia em se cuidar, em manter a lucidez, a vaidade e a autoestima, em continuar a ler e em se atualizar – teimosia em continuar a pensar e a questionar. Numa mesma conversa, ela é capaz de sorrir e rir de si mesma, de reclamar e elogiar, de criticar e de elogiar, de derramar uma lágrima e voltar, insubordinavelmente, a sorrir, apesar de todas as dificuldades.

Sempre fomos assim, insubordináveis, desde os tempos bíblicos. Nós nos aproximamos uns dos outros e da Torá e nos unimos, para depois nos afastarmos – e retornarmos mais adiante. Talvez a nossa grande tradição seja a insubordinação.
Na leitura da Torá desta semana encontrei quatro passagens que se referem aos nossos antepassados como um povo insubordinável. Cada uma delas vem em um contexto próprio – e no decorrer dos acontecimentos chega-se a uma solução para a violenta crise na relação entre Deus e o Povo de Israel que pode servir de referência para nossas próprias crises pessoais e comunitárias.

Povo Insubordinável 1 – Deus fica furioso
Deus acabara de falar com Moisés no Monte Sinai e lhe entregar duas tábuas de pedra – as Tábuas do Testemunho, escritas frente e verso (Êxodo 32:15). De tudo o que foi escrito nas tábuas, a Torá destaca o mandamento do Shabat (Êxodo 31:12-17), incluindo a famosa passagem que foi incluída no Sidur de Shabat: Veshamru Bnei Israel et haShabat laassot et haShabat ledorotám brit olam… E os filhos de Israel guardarão o Shabat para fazer do Shabat, por suas gerações, uma aliança perpétua…”.
Enquanto Moisés demorava a descer, o povo se impacientou, pois não sabia o que havia acontecido com ele. Reuniram-se com Aarão, o sacerdote e irmão do grande líder desaparecido, e exigiram que este lhes fizesse uma divindade “que ande diante de nós” (Êxodo 32:1). Enquanto Moisés estava nas nuvens, o povo pedia algo concreto, que pudesse ver e tocar. Pressionado, Aarão atendeu ao povo: recolheu o ouro dos ornamentos da multidão, trabalhou o metal precioso e fez dele um bezerro de ouro fundido. Houve uma comoção geral. O bezerro foi considerado mais do que uma simples divindade, mas o próprio “eterno” que os fez sair do Egito. A imagem da qual se esperava “que ande diante de nós” mereceu um altar e uma grande festa proclamada para o dia seguinte. O povo ofereceu sacrifícios ao “eterno”, comeu e bebeu até se fartar.
Foi quando o verdadeiro Eterno disse a Moisés: “Vai, desce, porque o teu povo… se corrompeu… tenho visto este povo, e eis que é um povo insubordinável” (Êxodo 32:9).
Deus estava furioso. Por Ele, consumiria o povo naquele instante. Foi quando Moisés, um obstinado por natureza, argumentou: “Porque hão de falar os egípcios dizendo: ‘Para mal os tirou, para matá-los…? Lembra-Te de Abrahão, Isaac e Jacob’…” (Êxodo 32:12-13), a quem Deus havia jurado multiplicar o povo como as estrelas do céu e dar a eles e aos seus descendentes a terra (de Israel), que herdariam para sempre.

A medida da lei e a medida da bondade
Foi então que aconteceu algo incrível: “O Eterno arrependeu-se do mal que falou em fazer ao Seu povo” (Êxodo 32:14). Antes de se dirigir ao povo para que se arrependesse de ter substituído o Eterno Eterno pelo eterno aparente, Moisés conseguiu a proeza de, primeiro, fazer com que Deus se arrependesse.
Mais do que isso: perguntarão alguns – mas Deus não é perfeito? Todos os Seus atos não são perfeitos? Então por que Ele se arrependeria?
Então me recordo do que me ensinou o professor de Talmud e Halachá, rabino David Levin, do HUC de Jerusalém, o seminário rabínico progressista em que me tornei rabino. Ele me dizia com certa regularidade: “Uri, a halachá, as leis são muito importantes. Por outro lado, devemos sempre levar em conta que Deus é, ao mesmo tempo, Rei e Pai. Como Rei, Ele nos apresenta a medida da lei, midát hadin. Mas como Pai, Ele também nos brinda com a medida da bondade (ou da misericórdia), midát harachamim”.
Neste contexto, entendo aqui que Deus não se arrependeu; Deus voltou atrás. Deus teve uma conduta extremamente generosa, porque Ele não estava diante de uma situação em que o povo feriu uma das leis; o povo simplesmente O substituiu por outra divindade e a nomeou com o Seu Nome, nada menos. E apesar disso, Deus voltou atrás. Na medida da bondade, mais do que na medida da lei.

Mas aqui embaixo as leis são diferentes
Depois de convencer Deus a voltar atrás, Moisés voltou-se para o povo. Furioso, desceu do Monte Sinai com as tábuas nas mãos, lançou as tábuas e as quebrou aos pés do monte. Em seguida “tomou o bezerro que fizeram, queimou-o no fogo, moeu até se desmanchar em pó, espalhou-o sobre a superfície das águas e fez com que os filhos de Israel o bebessem” (Êxodo 32:20). Eles literalmente tiveram que engolir o bezerro de ouro goela abaixo.
A medida seguinte foi terrível: Moisés reuniu os homens da tribo de Levi e ordenou que matassem “cada homem a seu irmão, cada homem a seu companheiro e cada homem a seu próximo” (Êxodo 32:27). Se Deus voltou atrás, Moisés não fez o mesmo. Ele acabara de ignorar o mandamento “não matarás”, provavelmente justificado em nome de outro tido como hierarquicamente mais forte – a condenação à idolatria: “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra… nem as servirás; porque eu, o Eterno teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos…” (Êxodo 20:4-5).
E lá foi Moisés pedir perdão a Deus pela idolatria do povo. Por Sua vez, Deus, que havia voltado atrás e não lhes fazer mal, mudou novamente a Sua decisão: “Aquele que pecou contra mim, Eu o riscarei do Meu livro… no dia da Minha visitação castigarei uma parte deste pecado” (Êxodo 32:34).

Povo Insubordinável 2 – Deus Se contém
Deus decide que Moisés deve continuar a jornada do Egito à Terra Prometida diante do Povo de Israel, mas que, a partir de agora, em vez Dele, um anjo os protegerá na entrada da “terra que emana leite e mel” (Êxodo 33:3). Novamente Deus adota a medida da bondade em vez da medida da lei. O motivo para não seguir à frente do povo é preventiva: “Visto que tu és é um povo insubordinável – para que Eu não te acabe no caminho” (Êxodo 33:3).

Povo Insubordinável 3 – Deus de costas para Moisés; Moisés de costas para o povo
Deus não abre mão do Seu povo: Ele Se contém para não matá-los – e diz a Moisés: “Diz aos filhos de Israel: Vocês são um povo insubordinável; se por um só momento Eu subir no meio de vocês, irei consumir-lhes…”. A partir de agora Deus passa a falar com Moisés na tenda do grande líder, que é levada para fora dos limites do acampamento do povo. A cada vez que Moisés ia falar com Deus, o povo se levantava e olhava Moisés de costas, até este chegar à tenda.
Uma vez na tenda, face a face com Deus, Moisés volta a argumentar para que Ele volte atrás em Sua decisão: “Se a Tua Presença não for conosco, não nos faça subir daqui. Como se há de saber que agradamos aos Teus olhos, eu e o Teu povo? Certamente se Tu vieres conosco!”… “E o Eterno disse a Moisés: Também farei isso que falaste…” (Êxodo 33:17).
Em seguida Moisés pede para ver “a Glória de Deus” e Ele lhe responde que não poderá mais ver a Sua face: “Verás Minhas costas, mas o Meu rosto não será visto” (Êxodo 33:23). A situação está muitíssimo delicada: as tábuas estão quebradas, Moisés só “vê as costas de Deus” e o povo só “vê as costas de Moisés”. A crise está instaurada. E agora?

Povo Insubordinável 4 – Deus refaz o contrato
Deus ordena a Moisés talhar um novo par de tábuas nas quais os mandamentos serão reescritos. Num momento de extrema tensão, Deus Se apresenta com uma das passagens mais marcantes da Torá, tão marcante que ganhou espaço de destaque no Machzor, especialmente em Yom Kipur, o Dia do Perdão ou Dia da Expiação: Ad-nai Ad-nai, El Rachum veChanun… “Eterno Eterno, Deus Piedoso e Misericordioso, tardio em Irar-Se e de Grande Bondade…” (Êxodo 34:6). Quando Moisés reconhece que tem nas mãos “um povo insubordinável” (Êxodo 34:9), Deus, na Sua imensa bondade, afirma: “Eis que Eu faço uma aliança… pois não te curvarás a outra divindade… divindades fundidas não faças para ti” (Êxodo 34:10,14,17).
Parece que, finalmente, a paz foi restabelecida. A paz com um Deus que fica furioso, volta atrás, revê decisões, pune, perdoa – refaz o contrato e começa de novo. A paz com um povo obstinado, insubordinável, que questiona e erra, mas que a exemplo de Deus, aprende com seus erros, volta atrás e segue adiante.

Moisés – Resplandecente
Assim como Deus e o povo, Moisés também cometeu muitos erros. No entanto, foi capaz de intermediar uma crise de proporções gigantescas com a faca entre os dentes. Depois de passar quarenta dias e quarentas noites no Monte Sinai, quando “escreveu sobre as tábuas as Palavras da Aliança” (Êxodo 34:28), o maior dos líderes de Israel em todos os tempos não sabia, mas seu rosto resplandecia.
A leitura tradicional de tanta luz refletida no seu rosto é a experiência única pela qual passou, no contato com o Divino no Monte Sinai. Eu sugiro outra interpretação possível: Moisés resplandecia porque havia alcançado um feito ímpar: ele foi capaz de liderar, de maneira brilhante, a solução para uma crise sem igual entre Deus e Seu povo.
É chegada a hora de retomar o rumo, reunir o povo e seguir em frente. A jornada só está começando.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s