Parashat Pecudê: Este é o portal para o Eterno; os justos virão por ele

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Na semana que entra, a cidade de Salvador será tomada pelo clima de carnaval. É um período de muitas festas, trios elétricos, bandas de rua. Milhares de pessoas vêm para cá para se divertir, comer e beber muito, fantasiarem-se de faraós (viemos do Egito… alalaô…), colombinas e pierrôs. Em pouco mais de duas semanas nós, da comunidade judaica, comemoramos Purim, festa que muitos chamam de “carnaval judaico” por conta das fantasias, da alegria e dos excessos na comida e no álcool. Porém as semelhanças param por aí. Purim nos lembra dos tempos em que os judeus que viviam sob o império persa se libertaram do perverso Haman e a partir daí passaram a comemorar e a brindar a vida. As fantasias são as mais diversas, mas as mais tradicionais são as de Rainha Ester e de Mordechai. Comemos “orelhas de Haman” (conhecidas também como Oznê Haman ou Hamantaschen, “bolsas de Haman”) como uma forma pouco sutil de demonstrar que não queremos o mal de nossos inimigos, mas preferimos jantar a sermos jantados; nossa comemoração não é pela derrota do perverso Haman, mas sim a nossa sobrevivência.
Como preparação para este período temos dois serviços especiais de Shabat: Shabat Shecalim e Shabat Zachor. Também abençoamos no próximo Shabat a chegada do novo mês, Adar 2, quando a alegria deve aumentar ainda mais: aproxima-se Purim, chag gadol laiehudim – uma grande festa para os judeus. Uma festa tão divertida para as crianças que muitos cantam chag gadol laieladim, uma grande festa para as crianças!
Neste Shabat Shecalim lemos na Torá (Ex.30:11-16) que Deus ordenou a Moisés recensear os israelitas: ao ser contado, cada um deve doar meio shekel para os serviços no Ohel Moêd, a Tenda da Reunião. Nem os ricos devem doar mais, nem os pobres devem doar menos. Cada pessoa tem o mesmo valor diante de Deus.

Construir ou não construir portões, eis a questão
Nos grandes centros urbanos, portões com guaritas fazem parte do dia a dia e nem nos questionamos mais sobre a sua necessidade. Guardas armados, câmeras internas e grades eletrificadas protegem casas, condomínios e instituições 24 horas por dia. O motivo justificado é a segurança. Imaginamos que quanto mais vemos quem se aproxima, mais seguros estamos. Em Salvador uma das questões que mais preocupam seus moradores e os turistas que visitam a nossa cidade é a questão da segurança. Por outro lado, os temores de assalto ao patrimônio aparentemente não eram uma preocupação para Moisés e para o povo de Israel. Quanto a isso, o deserto parecia ser tranquilo naquela época…
A porção de leitura da Torá desta semana, a última do livro de Shemot (Êxodo), relata a prestação de contas de uma riqueza de materiais para construção do Mishcán, o “Santuário do Testemunho”. Foram 29 talentos e 730 shecalim – o equivalente a uma tonelada de ouro puro, além de três toneladas de prata e mais uma infinidade de metais, madeiras e tecidos preciosos. Ao final, diante de tanta riqueza, podemos imaginar que Moisés disporia centenas de guardas em suas guaritas para proteger o pátio em torno do santuário. Não foi o que aconteceu. Diante do portão do pátio que abrigava o Santuário havia apenas uma tela e só. Assim Moisés deu a obra por terminada.
O que se ganha ao construir um portão com guarita? No Talmud (Baba Batra 7b) lemos uma história que mudará o nosso foco. Havia um bondoso homem que todo dia conversava na rua com ninguém menos do que Eliahu Hanaví, o Profeta Elias. Um dia ele construiu uma guarita diante do portão de sua casa – e desde então Eliahu deixou de falar com ele. Por quê? Eliahu não entendia que era mais seguro conversar dentro de casa do que na rua, protegido por um guarda? Não. Para Eliahu, a guarita não servia para evitar ladrões, mas sim para excluir, para impedir a vinda dos mais pobres. A guarita evitava o cumprimento da tzedacá, o mandamento de ajudar ao próximo no momento de sua necessidade. Com a guarita, não apenas os ladrões deixavam de se aproximar; os pedintes também eram evitados. Não era este o mundo que Eliahu desejava. Considerado tradicionalmente aquele que virá anunciar a chegada da era messiânica, Eliahu defendia um mundo sem ladrões, mas também sem discriminação entre os mais ricos e os mais pobres. Um mundo em que cada ser humano fosse respeitado igualmente, assim como no censo realizado por Moisés no deserto; cada ser humano tem o mesmo valor e deve ser tratado com o mesmo respeito. Essa é a postura esperada na era messiânica.
A Casa de Deus tinha diante de seu portão somente uma tela, sem guaritas nem guardas. Eram outros tempos… Mas enfim, terminada a obra, a glória de Deus preencheu o Santuário na forma de nuvem. Nem Moisés podia entrar lá nesta hora, porque o Divino não deixava lugar para mais nada. No momento sublime da inauguração do Mishcán, Deus nos deixou de fora. Talvez para sentirmos na pele o que é estar no lugar do outro que vem pedir auxílio no momento de necessidade, mas que fica do lado de fora, admirando portões e guaritas.
O mundo hoje, ou pelo menos o mundo em que vivemos nas grandes cidades brasileiras, está apinhado de portões e guaritas – não só diante de nossas casas, mas no coração das pessoas. Vivemos a era da paranoia, da demonstração de poder para poucos. Eliahu está longe, distante. E com ele, a convivência saudável entre as pessoas, nas conversas gostosas nas ruas e nos portões.
De volta à Torá… somente quando o Divino, na forma de nuvem ou de uma coluna de fogo – como se fosse um grande farol a nos orientar – elevava-se acima do espaço sagrado é que os filhos de Israel podiam seguir suas jornadas. Deus abre espaço para que todos possam entrar, conversar com Eliahu e com todos, e seguir adiante. Este é o modelo para o mundo vindouro, o mundo em que poderemos comemorar o carnaval, ou Purim, ou qualquer outra manifestação de alegria – para simplesmente encontrarmos nossos amigos na rua e conversarmos em paz. “Este é o portal para o Eterno; os justos virão por ele”. (Salmos 118:20)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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