Parashat Vaikrá: O Alef-Beit das relações entre o ser humano e Deus

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

E chamou a Moisés; e o Eterno falou com ele de dentro da tenda da reunião (Levítico 1:1)

Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós,
tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz
(Gilberto Gil, 1980)

Há um costume muito, muito antigo, de introduzir as crianças pequenas ao estudo do hebraico e da Torá começando pelo terceiro livro da Torá, Vaikrá (Levítico) e não pelo primeiro, Bereshit (Gênesis), como seria de se imaginar. Vaikrá também é conhecido como Torát Cohanim (a Torá dos Sacerdotes) e trata basicamente de regras relativas às korbanot, os sacrifícios no altar do santuário.
Pergunta: por que introduzir crianças pequenas ao estudo da Torá através de uma imensidão de regras e dados para se realizar o sacrifício ritual, em vez de se começar com as belas e arquetípicas imagens da Criação do Mundo?
As origens de se começar a ensinar Torá pelo livro de Vaikrá se remetem, ao que parece, aos tempos do primeiro Beit Hamikdash, o primeiro Templo de Jerusalém. Se vocês tiverem a oportunidade de ler diretamente da Torá, poderão verificar que a última letra da primeira palavra do Levítico, em hebraico, é o Alef, a primeira letra do alfabeto. Mais do que isso, esta letra vem em tamanho reduzido à metade ou um terço do tamanho das demais letras. Por quê?
Uma das tentativas de explicação é que o pequeno Alef apontava para o início dos estudos de alfabetização e ensino da Torá para crianças tão pequenas quanto ele. E era qualquer criança? Quem as ensinava? Segundo este ponto de vista, os professores eram os cohanim, os sacerdotes, que além de realizarem suas funções nos ritos de sacrifício ritual, ensinavam hebraico e Torá para filhos de cohanim. Este seria um ótimo motivo para se iniciar os estudos justamente a partir de Vaikrá – a Torá dos Cohanim: introduzir desde cedo os pequenos sacerdotes ao mundo dos sacrifícios rituais com os quais teriam que lidar durante a vida.
Mas será que um método como este faria sentido para quem não era filho de cohanim? E qual seria o sentido de ensiná-lo hoje em dia, quando os cohanim não têm mais um papel significativo nem os sacrifícios fazem mais parte da vida religiosa judaica?
Após a destruição dos dois Templos de Jerusalém, no tempo dos Sábios do Talmud, o costume estava bem estabelecido. Em seu famoso Sefer Haagadot (Livro das Lendas), o escritor israelense Bialik cita a seguinte passagem de Avot deRabi Natan, a respeito de Rabi Akiva, que começou a estudar Torá somente aos 40 anos:
“Ele foi à escola e começou a ler na lousa, ele e seu filho. Rabi Akiva alcançou o topo da lousa – e seu filho, no topo da lousa. Escreveu para si mesmo o Alef-Beit (alfabeto hebraico) e o estudou; de Alef a Tav e o estudou; a Torá dos Cohanim (o Livro de Vaikrá) e a estudou. Ele estudou e foi em frente até estudar toda a Torá.”
Podemos fazer algumas relações interessantes entre o texto da Torá e a decisão de se começar a ensiná-la a partir do livrode Vaikrá:
1) Se é verdade que a letra Alef que encerra a palavra Vaikrá, nesta parashá, foi diminuída para indicar o início do estudo dos pequenos – que respeito maravilhoso as crianças receberam, ao terem o seu lugar marcado tão claramente na Torá!
2) O texto inicia assim: “E chamou a Moisés; e o Eterno falou com ele de dentro da Tenda da Reunião (Levítico 1:1). A respeito deste versículo, o comentarista Rashi explica:
E chamou a Moisés: “a voz vai e alcança os seus ouvidos, mas ninguém do povo de Israel as escuta…”
Da tenda da reunião: “para ensinar que a voz se interrompia e não saía da tenda”.
Deus falava com Moisés de forma mais do que pessoal: particular, discreta. A voz era fortíssima, mas só ele escutava.
3) O Levítico é o único livro da Torá nomeado com uma ação verbal. Vejamos:
Bereshit – No Início
Shemot – Nomes
Vaikrá – E Chamou
Bamidbar – No Deserto
Devarim – Palavras

No seu conteúdo, Vaikrá fala dos motivos e dos rituais correspondentes para que os sacrifícios fossem realizados, de modo que se estabelecesse a conexão entre as pessoas e Deus. As expressões Lehakriv (oferecer em sacrifício) e Korban (o animal oferecido em sacrifício) têm a mesma raiz em hebraico para a palavra “aproximar”, “estar entre” ou “profundamente”. Na época bíblica e durante talvez mais de 1.500 anos, a oferta de animais e de certos alimentos a base de vegetais era o modo que o povo de Israel tinha para se aproximar de Deus.
Mas é para a forma de Vaikrá que eu quero chamar a atenção. O modo como Deus chama Moisés e como fala com ele reservadamente, na Tenda da Reunião, soa como um modo para lá de personalizado e íntimo de ensinar a Moisés nada menos do que como se aproximar de Deus. Mais do que isso: Deus ensina a Moisés como se aproximar das pessoas: o modo de se relacionar com as dificuldades do povo e de reconhecer qual transgressão tem a ver com qual tipo de oferta de sacrifício.
Se levarmos para os nossos tempos e necessidades, podemos estar falando aqui da relação entre professor(a) e aluno(a). Cada aluno é especial e único. O professor deve se dirigir a todos, mas sua missão só será bem sucedida quando cada aluno sentir de verdade que seu mestre o está chamando em particular, para ensinar coisas lindas e de valor inestimável na tenda da reunião que é somente deles dois – ainda que esta “tenda” seja tecida pelas linhas da voz, entonação, conteúdo, entusiasmo e variações outras moldadas pelo mestre. O papel do professor é estabelecer pontes, dar ao aluno os instrumentos para que este se aproxime do Divino (seja no sentido religioso, seja ao ter um insight fantástico em qualquer matéria de estudos); e que ensine o aluno a se relacionar de modo digno e amoroso ao se aproximar das pessoas.
Costuma-se dizer que o trabalho do professor é um sacrifício: nem sempre compreendido, muitas vezes mal remunerado, comumente injustiçado – isso vale também para o rabino, que na minha opinião tem por função principal ensinar e aprender continuamente.
Por outro lado, o trabalho do professor é um trabalho sagrado: o de chamar um a um, uma a uma, e conectá-los a Deus. Se o que o professor ensinar se tornar uma oração e uma benção para o relacionamento entre as pessoas – daiênu, já isso nos terá bastado.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s