Parashat Tzav: Sacrifícios – diferentes formas de expressão, ontem e hoje

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Antes de ordenar Aarão e seus filhos como cohanim, sacerdotes de Israel, Moisés recebe a ordem Divina para orientar o irmão a respeito de cinco tipos de korbanot, o modo de se aproximar de Deus nos tempos bíblicos. São eles:

Olá – a oferenda de elevação (ou queimada). As cinzas deste sacrifício total deveriam ser retiradas do altar a cada manhã e os cohanim deveriam manter a chama sobre o altar queimando de modo contínuo.

Minchá – oferenda para refeição; o restante do sacrifício era consumido pelos cohanim.

Chatat – a oferenda pelo pecado cometido de forma não intencional, sacrificada pelos cohanim, que podiam depois comer deste sacrifício.

Asham – oferenda por culpa; somente os filhos dos cohanim poderiam comer deste sacrifício.

Zevach Shelamim – oferenda feita pelas pessoas em nome do bem estar ou das pazes; o sacrifício era oferecido como uma espécie de agradecimento. Uma parte era queimada no altar, outra consumida pelo sacerdote que a levou para queimar no altar, e a terceira parte era consumida pela pessoa que a ofereceu.

Só depois destas instruções é que Moisés ordena Aarão e seus filhos solenemente como cohanim diante de todo o povo. Os sacerdotes recém ordenados são vestidos com belas roupas e ungidos com óleo, que também é aspergido ao redor do santuário. Ao final da cerimônia, os primeiros sacerdotes de Israel são ordenados a permanecer à entrada do santuário por sete dias e sete noites, como parte da celebração.

Depois que o segundo Templo de Jerusalém foi destruído, toda essa oferta de sacrifícios a serem queimados no altar foram substituídos por orações – e assim é até hoje em dia. Para alguns judeus, haverá o dia em que o templo será reconstruído, o altar e seus sacerdotes voltarão à ativa e os sacrifícios tomarão das orações o seu lugar de direito. Para outros, a oração tem o mesmo peso dos sacrifícios do passado e mantêm o mesmo valor de conexão com Deus – e de fato, para estes, é a conexão mais adequada ao atual nível de consciência humana, em que podemos nos conectar com Deus sem precisarmos mais recorrer a sacrifícios de animais.

Esta última visão não é somente reformista, como alguns querem fazer crer. Em outras palavras, não é uma crença “afastada” dos mais nobres valores judaicos, constituída a partir do século 19. Ao contrário, a visão liberal no que diz respeito aos sacrifícios encontra eco nas falas dos primeiros rabinos, numa tradição bem embasada e milenar.

Como exemplo, temos no Vaikrá Raba – obra de Midrash relativa ao terceiro livro da Torá – a posição de Rabi Levi (sec. 3 ec), quando se fala de queimar totalmente a olá – o sacrifício totalmente queimado – fala-se na verdade da queima total da conduta de ostentação, de orgulho: a arrogância deve ser queimada totalmente. Rabi Meir, ainda mais antigo, do séc. 2 ec, afirmava que não à toa o último sacrifício era o de shelamim, de pazes. Ele ensinava que a Torá com isso afirmava que fazer as pazes era o valor mais importante, o maior dos sacrifícios, nem que para isso fosse necessário humilhar-se diante do outro para alcançá-la. Para Rabi Meir, fazer as pazes era a maior das bênçãos.

Estas e muitas outras interpretações dos sacrifícios não carregam fumaça nem produzem cinzas, mas oferecem valores éticos a serem transmitidos de geração em geração. Nos tempos modernos, o rabino chassídico Menachem Schneerson (1902 – 1994) – o Lubavitcher Rebe – ensinava também que o próprio santuário construído pelo povo de Israel no deserto simboliza o santuário dentro de cada judeu. Assim como a chama do altar deveria ser mantida sempre acesa, do mesmo modo a chama do judeu deve se manter sempre acesa através do estudo da Torá, da oração e da prática de boas ações, sempre com entusiasmo, de modo vivo e caloroso.

De qualquer modo, os sacrifícios não eram nem são sinônimos de sofrimento para o povo judeu. O sacrifício só se transforma em sofrimento quando carece de sentido. O sacrifício feito com cavaná – de forma intencional e de boa vontade – tem o poder de nos aproximar de Deus e das pessoas. Toda dificuldade que eventualmente se tiver em realizá-lo, seja nos desafios que nos são impostos para o estudo e compreensão da Torá e de tudo o que já foi produzido em termos de pensamento e sabedoria judaica; seja no esforço e disciplina exigidos pela oração; seja na realização de boas ações, transformam-se em satisfação, prazer e alegria.

E por falar em alegria, no início da próxima semana comemoramos Purim, uma grande festa que, para ser comemorada, exigiu de nossos antepassados muito sacrifício e coragem, de homens e mulheres, para que a sentença de morte imposta pelo perverso Haman se revertesse em dia de alegria e comemorações. Desejamos a todos os nossos amigos do povo de Israel Chag Purim Sameach, uma feliz comemoração de Purim, com direito a muita alegria, festa, fantasias, a leitura da Meguilá de Ester em clima festivo, boa comida e doação aos mais necessitados. Purim é a tradução da realidade de que podemos, sim, com boa vontade e uma boa dose de coragem, transformar o risco de sofrimento em alegria, pessimismo em otimismo, ódio em amor.

Então se é assim, nahafoch hu, vamos inverter o sentido comum de sacrifício: a partir de hoje sacrifício deixa de significar sofrimento e passa a significar conexão com Deus e com as pessoas, através do estudo das nossas fontes judaicas, da oração e, principalmente, da prática de ações que tornem a vida judaica mais significativa e o mundo ao nosso redor melhor para se viver, para todos os habitantes da Terra.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s