ML X JJB: Más Línguas X Justiça Justiça Buscarás – quem ganhará esta luta?

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência (Platão)

A moral é frequentemente o passaporte da maledicência (Napoleão)

Escândalo é a fofoca tornada tediosa pela moralidade (Oscar Wilde)

Nos últimos tempos tornou-se muito popular a luta do tipo MMA (Artes Marciais Mistas), quando dois lutadores se degladiam violentamente diante de uma plateia em êxtase. Nesta luta não há o bem contra o mal; é simplesmente um combate dos mais violentos – ou assim os patrocinadores esperam que seja visto e consumido.
No nosso dia a dia, muitas vezes nos sentimos atraídos por combates semelhantes. Mas estes combates não acontecem numa arena nem são usados punhos cerrados, cabeçadas e pés enrijecidos para ferir o corpo do adversário. A luta, na verdade, é muito mais cruel: a sua arma maior é a língua.

Lashon Hará e o “jogador” de pôquer
A língua é um dos instrumentos mais versáteis do ser humano. Acompanhada dos olhos, dos gestos das mãos, do movimento corporal, ela pode dizer o que está no coração e expressar os mais belos sentimentos de amor, justiça, bondade, compreensão e paciência. Mas a mesma língua pode desferir golpes violentos através da maledicência, da mentira, da má fé e da injustiça travestida de justiça. A maldade se sente em casa na língua de algumas pessoas.
Uma das diferenças entre a bondade e a maldade da língua é que, no caso da maldade, os olhos, o corpo e as mãos denunciam, na maioria das vezes, o maledicente, o mentiroso, o maldoso. Enquanto a boca fala o mal, os olhos se dirigem para baixo, covardes, incapazes de encarar o outro; as mãos suam (a menos que o mentiroso tenha tomado algum remedinho para controlar a ansiedade provocada por sua desfaçatez); sua pele fica pálida. Alguns mentirosos contumazes disfarçam bem os sintomas – alguns os chamam de “jogadores” de pôquer. Mas no fundo no fundo eles sabem: estão mentindo; estão prejudicando outras pessoas; estão sendo maus. E se tiverem um mínimo de religiosidade, irão levar em conta a possibilidade de que Deus está vendo todo o mal que estão causando – e que esse mal se voltará contra eles como um bumerangue. Menos o sociopata. Este desrespeita friamente as leis de causa e efeito. Mas elas estão lá, independente de ele as levar ou não em conta.

Tzaráat e Tzures
Nesta semana a Torá fala sobre uma doença misteriosa, a tzaráat. Comumente traduzida por lepra, esta enfermidade provocava manchas brancas e inflamações na pele. Curiosamente, aqueles atacados pela doença não eram atendidos por médicos, mas sim por sacerdotes. O sacerdote deveria observar a gravidade da tzaráat, determinar por quanto tempo o enfermo ficaria afastado da comunidade para não infectar outros, e quando poderia voltar ao convívio social. Caso a pessoa doente permanecesse entre os seus, certamente espalharia a doença em sua casa, na sua tribo, e por fim, Deus nos livre, por toda a comunidade.
Diversos sábios do povo judeu notaram rapidamente que uma doença tratada por sacerdotes – especialistas em rituais – e não por médicos, não deveria ser exatamente uma doença de pele; ou pelo menos, a doença de pele seria apenas o sintoma de algo mais profundo: uma doença anímica, uma enfermidade da alma. E qual é esta enfermidade? As más línguas – a maldade entre os dentes, a mentira proposital.
No Talmud, Rabi Yochanan cita Rabi Yossi ben Zimra para dizer que “espalhar lashon hará (as más línguas) – ou seja, difamar, mentir, desinformar – é o mesmo que negar o poder de Deus”. O grande intérprete Rashi dizia que o próprio Moisés, ao voltar a sua língua contra o povo, foi punido por Deus e sua mão ficou infectada, branca como a neve (Êxodo 4:1-6). O grande rabino e médico Maimônides tampouco se relacionou à tzaráat como doença de pele, mas como um sintoma “de pessoas de Israel, para adverti-las contra lashon hará, a maledicência”.
Muitas vezes dizemos que aquele que fala mal de outra pessoa prejudica três pessoas: aquele de quem está falando mal; aquele para quem está contando a maledicência; e a si mesmo. Também sabemos que se a pessoa de coração ruim se volta para outra a fim de maldizer um terceiro, o ouvinte pode interrompê-lo e não permitir que “a tzaráat” se alastre, para que não haja mais tzures – a expressão em íidishe para “problemas”, de sonoridade tão parecida com tzaráat.
Mas e se o maledicente for um homem supostamente poderoso? E se o que ele falar for aceito por aqueles que o rodeiam, seja por medo, omissão ou preguiça de exercer um pensamento crítico, e não dizer que o rei está nu – ou que está usando sua língua para o mal? Neste caso, a tzaráat irá fatalmente avançar para as roupas, para a casa, para o bairro – e se espalhar como fogo. A mentira será repetida muitas vezes e soará como verdade, como sugeriam as propagandas do nefasto regime nazista. Nenhum médico pode evitar que isso aconteça.
Aí entra a sabedoria da Torá: num caso como este, não é o médico que deve cuidar, mas o sacerdote é quem pode evitar que o desastre se alastre – se não for omisso, como na história de kamtza e bar kamtza (mas isso é outra história que fica para outra vez). Ele tem a obrigação de examinar o enfermo de tzaráat e sugerir seu afastamento por um tempo provisório ou de modo definitivo, se necessário.
E se não for assim? O estrago será enorme, porque o povo adora uma luta tipo MMA entre Más Línguas e Justiça Justiça Buscarás – e muitas vezes torce pelo primeiro, aquele com cara de jogador de pôquer. E o mal se espalha. Conforme está escrito no Talmud Yerushalmi: “O maledicente está na Síria e mata em Roma”.
Não podemos ser ingênuos. Já vimos o lutador Justiça Justiça Buscarás tomar uns bons socos e vários golpes abaixo da linha da cintura vindos do perverso Más Línguas. Mas quero crer que, ao final de cada uma destas lutas, Justiça Justiça Buscarás sairá vencedor. Porque afinal de contas, esta é a mitzvá, o mandamento: Tzédek Tzédek Tirdóf, Justiça Justiça Buscarás (Deut. 16:20)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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Um pensamento sobre “ML X JJB: Más Línguas X Justiça Justiça Buscarás – quem ganhará esta luta?

  1. Rabino Uri, como sempre são palavras edificantes e sábias. No meio sócio artístico a lashon hará é muito comum devido ao espírito de estrelismo, de competir e sempre querer ser vencedor, o melhor, o único etc. Portanto, conviver e sobreviver é uma arte difícil e sempre temos que nos cuidar deste mal para não ficar com a lepra espiritual. A musica de câmara nos trabalha neste sentido, porque quando o outro toca harmonicamente conosco e com os demais, escutando as nossas frases, nossos pequenos solos a interpretação sai muito bonita e harmoniosa. Mas muitas vezes a maledicência faz com que não se toque em harmonia , porque não existe um echad. Que O Eterno de Israel sempre nos guarde deste mal, que está dentro de nós aguardando ser ativado. Todah por suas palavras.
    Gloria Lemos

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