Parashat Metzorá

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

A Torá trata nesta semana de dois temas centrais. O primeiro fala da casa contaminada por tzaráat, enfermidade comumente relacionada à lepra, da qual a porção semanal anterior, Tazría, se ocupa intensamente. Mas enquanto em Tazría se fala da contaminação da pessoa, aqui se fala de como lidar com uma casa infectada com a doença. Os rituais são muito semelhantes: raspar as paredes da casa, isolá-la por um determinado período, o sacerdote verificar novamente se esta pode voltar a ser habitada depois do período de isolamento a fim de se certificar se está pura ou impura, ou seja, habitável novamente.
O segundo tema trata de fluxos emitidos pela mulher e pelo homem, principalmente através dos órgãos genitais. Este é o tema central do nosso comentário.

O sangue – sinal de pureza e de impureza
O estado do homem e da mulher no período em que emitem fluxos dos órgãos genitais também é considerado ritualmente impuro pela Torá. No caso específico da mulher, a sua condição ritual de impureza durante o período da menstruação a impedia de entrar no Mishkán, a Morada Divina: tudo o que ela toca se torna ritualmente impuro; em casa, ela deve dormir por sete dias numa cama separada da do marido – os sábios do Talmud acrescentaram ainda mais uma semana a este período.
Este também é considerado um dos motivos pelos quais alguns justificam que a mulher não pode tocar e ler os rolos da Torá na sinagoga. Por outro lado, os conceitos de tahor (puro) e tamê (impuro) também dependem do contexto: conforme o Talmud, a escrita no pergaminho do Sefer Torá só será válida “se impurificar a mão” ao ser tocada – aqui o tamê é o modo de atestar que a Torá é válida. Em outras palavras, nada que é impuro profana a Torá – logo, este não dever ser um motivo para impedir a mulher de ler de um Sefer Torá.
O sangue é um elemento poderoso em diversas tradições religiosas, e assim também é na tradição judaica. Há um mandamento bíblico que nos proíbe de consumir sangue – de onde decorre que há todo um procedimento para se retirar o sangue para que uma carne seja considerada casher e possa ser consumida. Do mesmo modo, a presença do sangue decorrente da menstruação faz com que as leis judaicas proíbam que o casal tenha relações sexuais. Por outro lado, é a retirada de uma gota de sangue durante o brit milá – a circuncisão ritual – que sela a entrada do bebê do sexo masculino (ou de um homem que pretende se converter ao judaísmo) à Aliança entre Deus e o Povo de Israel. Assim, como quase tudo na vida, o sangue pode purificar ou impurificar, conectar e afastar – depende do contexto.
A rabina norte-americana Elyse Goldstein, radicada no Canadá, comenta (em The Torah, A Women’s Commentary, URJ Press) que “certamente uma religião que tem uma benção para uma atividade tão mundana como a de ir ao banheiro, deveria ter uma benção para o início e o fim da menstruação”. Mas uma vez que a liturgia tradicional foi escrita majoritariamente por homens – e a menstruação bem como todo o movimento orgânico e emocional que a acompanha não faz parte do universo masculino – esta benção simplesmente não existe. Assim, quando chega o período menstrual, Elyse decidiu dizer a benção “sheassáni ishá”: “Bendito seja, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, por ter me feito mulher”. Ao recitar a tradicional benção sem a conotação negativa que esta carrega nas orações matutinas – quando alguns homens agradecem por “não ter me feito mulher”, Elyse afirma, nas suas palavras, “a minha santidade dentro do contexto da menstruação”. Ela também entende o período menstrual como a reafirmação da conexão da mulher judia com a Aliança entre Deus e o Povo de Israel: “É através da menstruação”, ela afirma, “que aceitamos nossas responsabilidades como judias… pois o mundo inteiro é salvo da secura da morte, na qual não há água, não há útero, nem regeneração, tampouco renascimento”. Para ela, o sangue menstrual conecta a mulher judia à Aliança assim como o sangue do brit milá, no caso dos homens – com o adicional de que a mulher afirma a sua aliança mensalmente.
Longe de ser uma enfermidade ou uma impureza, a menstruação reafirma, a cada mês, a capacidade de regeneração e de geração da vida. Haverá algo mais sagrado do que gerar a vida dentro de si?

A Mikve
Após o período menstrual, as mulheres judias devem se banhar na mikve, em um banho ritual que lhes devolve a pureza ritual. Comum nas comunidades ortodoxas, esta prática vem sendo recuperada em muitas comunidades judaicas liberais, como um momento de se entrar em contato consigo mesmo. Compartilho com vocês um lindo poema escrito por uma amiga e colega, a rabina Naama Dafni-Kelen, de Israel, que relata uma reflexão sobre este momento único:

Envolvam-me, águas – até a alma, até o pescoço, até os cabelos ─ basta!
Quero chorar e espernear. Deixar de ser boazinha, sorridente, bem considerada, tolerante, suave, tão-mas-tão forte.
Então chore para si mesma, querida (não deixe que sua voz evite o choro).
Chore a alegria e a dor, o medo e a felicidade. Chore para si mesma ─ chore.
Não tenha medo de esvaziar-se ─ como o poço, como a mikve, como a lua
Você irá se preencher de novo. Esteja certa disso.
Com sua força de preencher-se do Deus interno que existe dentro de você,
Chame-O, chore para Ele ─ Ele está aqui. Você está aqui.
Chore ─ e o mar se aquietará.
Naama Dafni-Kelen, em Parashat Hamaim (trad. do hebraico: U.L.)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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