Parashat Acharê Mot

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Aproximar-se demais é fogo; Afastar-se demais é uma fria
Os israelitas viviam um momento de intensa alegria e de conexão com o Divino. Aarão e Moisés haviam abençoado todo o povo, quando “a honra/glória do Eterno apareceu para todo o povo” (Lev. 9:23). Em seguida, diante do olhar e para o êxtase de todos, saiu um fogo de diante de Deus que consumiu a oferta de elevação colocada por Aarão sobre o altar do santuário, consumindo-o por inteiro. A Presença Divina estava próxima de todos – porém a uma distância segura.
Foi neste momento que Nadav e Avihu, dois dos quatro filhos de Aarão, decidiram por conta própria dar um passo a mais: com seus incensários acesos – que a Torá define como esh zará, fogo estranho – eles se aproximaram tanto que, em vez de queimar os sacrifícios animais, o fogo de diante do Eterno os consumiu, matando-os na hora. Moisés voltou-se para Aarão e disse: “Isso é o que falou o Eterno dizendo: Pelos próximos a Mim Me santificarei e serei glorificado diante de todo o povo” (Lev. 10:3).

Não saber discernir entre o simbólico e o concreto pode ser fatal
Os filhos de Aarão não compreenderam que o sacrifício dos animais representava simbolicamente o que poderia lhes acontecer caso tivessem que pagar pessoalmente por seus pecados. No final das contas, os animais os representavam: estes eram sacrificados no lugar das pessoas – para expiar seus pecados, como expressão de gratidão a Deus ou como representação do reestabelecimento de um estado de paz. Ao se aproximarem demais, Nadav e Avihu abandonaram o universo simbólico e mergulharam no concreto – o que fez com que eles mesmos acabassem sacrificados.
Na fala seca de Moisés, para Deus o que importa é que o sacrifício foi realizado em Sua honra. Em outras palavras: a fatalidade das mortes de Nadav e Avihu não foi causada por Deus, mas por eles mesmos, que não souberam diferenciar entre a aproximação simbólica e a aproximação concreta. Um erro infantil. O filósofo Levinas costumava dizer que judaísmo é uma religião para adultos – quando já somos capazes de discernir entre o simbólico e o concreto.
Aarão ficou mudo. Desnorteado, também ele perdeu a referência simbólica e passou a se aproximar direta e constantemente do Sagrado. Desta vez, porém, Deus pediu a Moisés que o advertisse: “Fala ao seu irmão Aarão para que não venha o tempo inteiro ao Sagrado… para que não morra” (Lev. 16:2).
Em vez da aproximação concreta, Aarão é orientado a aproximar-se do modo adequado, ou seja, simbolicamente: ele deve oferecer não a si mesmo, mas animais em sacrifício por ele e pelo povo. No último caso, dois cabritos são colocados à porta da Tenda da Reunião, diante de Deus. Através de um sorteio, um deles será sacrificado para Deus como oferta de pecado; o outro será enviado ao deserto, vivo, para Azazel.

Quem ou o que é Azazel?
O poeta e comentarista medieval Avraham Ibn Ezra (Espanha, 1092-1167) considerava o ritual de enviar o cabrito para Azazel um mistério. Em sua opinião, esta estranha prática poderia estar relacionada a um ritual pagão de oferendas de “cabritos-demônios” oferecidos a uma divindade – Azazel – que dominava o deserto e tinha o poder de trazer o mal para o mundo. Em contrapartida, o intérprete contemporâneo Baruch A. Levine entendia que este não era um rito pagão, mas sim um modo de o povo de Israel rejeitar as más influências do Mal simbolizado por Azazel.
Maimônides (1135-1204) vê nesta cerimônia uma alegoria utilizada para impressionar a mente do pecador, que deve entender que seus pecados poderiam por fim levá-lo para um terreno sem sentido e sem volta. Ao ver o cabrito lançado para o deserto sem fim, o indivíduo poderia visualizar o que poderia lhe acontecer caso não se arrependesse de suas transgressões. Mas enquanto o cabrito lançado para Azazel não tem capacidade de escolha, o ser humano tem o livre arbítrio: continuar a transgredir e afastar-se demais de Deus, a ponto de perder suas referências; ou voltar atrás e aproximar-se de Deus.

O Povo da Interpretação do Livro
Mas até que ponto deve ser esta aproximação? Afinal, enquanto o destino de um cabrito foi perder-se no deserto, o do primeiro foi receber a “sorte” de ser sacrificado e morrer – assim como os filhos de Aarão, ele estava tão perto do Divino que acabou consumido pelo fogo. Em outras palavras, o destino daquele que se afasta demais e daquele que se aproxima demais do Divino é terrível.
Devemos buscar um espaço de equilíbrio entre a aproximação e o afastamento de Deus. Enquanto o afastamento demasiado pode levar à perda de referências espirituais, aproximar-se demais, levado pelo fervor religioso, pode levar à perda do referencial simbólico, que segundo a Torá leva à morte.
O fervor exagerado do fundamentalismo religioso é incapaz de discernir entre a leitura concreta e a interpretação simbólica do texto bíblico – um amigo querido sempre repete que o povo judeu não é o Povo do Livro, mas sim o Povo da Interpretação do Livro. Por outro lado, não devemos nos afastar tanto, a ponto de perder contato com o acolhimento caloroso da Presença Divina através do estudo da Torá e da prática de uma vida judaica equilibrada, pautada pelos valores e tradições decorrentes da leitura simbólica do texto sagrado.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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