Parashat Kedoshim: Sejam Santos… Por que? Como? O Ponto da Virada

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

O tempo passa. Ontem mesmo dançávamos com os rolos da Torá, comemorando o fim de um ciclo e o início de um novo de leitura e de estudos. Um livro tão especial, no qual as palavras se sobrepõem umas sobre as outras, cobrem-se e descobrem-se o tempo todo numa dança única.
Agora, nesta época do ano, quando não é nem verão nem inverno, chegamos ao ponto da virada na leitura do mais sagrado livro para o povo de Israel.

E se estamos fisicamente no meio dos rolos da Torá, qual é o tema central de toda a Torá? Um mandamento geral dirigido para toda a congregação dos filhos de Israel, sem distinção: homens e mulheres, crianças e adultos recebem uma mesma ordem: “Sejam santos – porque Eu, o Eterno seu Deus, Sou santo”. (Lev. 19:2)

Pois bem, o porquê de ser santo está respondido: devemos ser santos porque Deus, o nosso Deus, é santo; respondido, mas não explicado. O que faz de Deus um ser santo? Uma resposta possível é que Deus, como o Criador, é de natureza totalmente diferente de Suas criaturas, entre as quais nos incluímos. Assim, Ele é santo por estar separado dos demais seres. Nesta medida, para sermos santos, deveríamos nos separar, como Povo de Israel, dos demais povos. Será mesmo?

De modo paradoxal, a Torá nos indica que, para sermos santos, ora devemos fazer o que nos separa como judeus, ora devemos nos envolver com qualquer pessoa, independente de sua origem.
O que nos separa? Mandamentos voltados exclusivamente para o povo de Israel: guardarmos o Shabat e não nos voltarmos para outros deuses são exemplos marcantes. O que nos aproxima? Deixar para o pobre e o estrangeiro uma parte da produção de cereais e dos vinhedos; não furtar, não enganar nem mentir para os outros; não trapacear, não extorquir, não colocar obstáculos diante de quem não enxerga todo o contexto ao seu redor; não ser injusto ao favorecer o mais pobre só por ser pobre nem o poderoso por ser poderoso – mas agir com justiça.

Há inúmeros mandamentos, alguns “sims” e muito mais “nãos” nesta leitura, mas três versículos me chamam a atenção; eles nos fazem santos não por nos separar, mas sim por nos conectar com quem vive conosco:
“Não ande com fofocas entre o seu povo; não seja indiferente quando o seu próximo estiver em perigo – Eu sou o Eterno. Não odeie o seu irmão em seu coração; repreenda o seu companheiro e não leve pecado sobre si mesmo. Não se vingue nem guarde raiva contra os filhos do seu povo; ame o seu próximo como a si mesmo – Eu sou o Eterno”. (Lev. 19:16-18)

Todas as recomendações acima nos conectam com quem convive conosco de modo construtivo: ao não andarmos com fofocas entre as pessoas, a chance de nos aproximarmos delas aumenta muito – em contrapartida, as chances de nos afastarmos e nos separarmos diminui consideravelmente. Esta boa atitude que leva à aproximação nos faz santos – e não o contrário. Ser indiferente ao nosso próximo quando este está passando por dificuldades – em outras palavras, afastarmo-nos dos amigos justamente quando eles precisam de nós e ainda justificar esta indiferença a partir da fofoca de terceiros – não é preciso ser muito inteligente nem sensível para entender que isso não nos faz santos. Odiar o seu irmão, buscar vingança, guardar raiva nos afasta, nos dilacera como povo e como pessoas. Tais sentimentos costumam vir com frequência depois que se espalha uma mentira como verdade – sim, você acertou, fofoca – que por sua vez provoca o afastamento e a indiferença, que então levam ao ódio gratuito, à raiva e ao desejo de vingança. Não era isso o que Deus tinha em mente, por assim dizer, quando nos ordenou que nos tornássemos santos seguindo o Seu modelo de ser santo. O caminho para sermos santos é o que Rabi Akiva considera o mandamento de ouro de todo o judaísmo: “Ame o próximo como a si mesmo”.

Um conhecido midrash, repetido no final de quatro diferentes tratados talmúdicos (Brachot, Nazir, Yebamot e Karaitot), diz assim: “Rabi Elazar disse em nome de Rabi Chanina: ‘Os discípulos dos sábios espalham a paz no mundo, conforme está escrito: E todos os seus filhos (banaich) são estudiosos do Eterno’… não leia banaich (filhos), mas sim bonaich (construtores)”.

Teremos uma boa chance de construir um caminho de santidade quando nos dispusermos, de verdade, a nos relacionar com os irmãos de nosso povo e com todas as pessoas de modo construtivo. A maneira de nos diferenciarmos não é nos afastando das relações com aqueles de quem discordamos nem nos separarmos indistintamente daqueles que não são do nosso povo, mas sim nos relacionarmos com todos de modo construtivo. Só espalharemos a paz pelo mundo quando deixarmos de lado as fofocas, as mentiras, os sentimentos de vingança – e nos dedicarmos a construir um mundo em que amar ao próximo como a si mesmo seja o centro de nossas vidas, assim como esta passagem tão querida para Rabi Akiva está no centro da Torá.

No próximo domingo e/ou na próxima segunda feira nos recordamos de todos aqueles assassinados pela indústria da morte nazista. Seis milhões de judeus, juntamente com um incontável número de portadores de deficiência física e mental, homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová e outras minorias foram gaseificados e incinerados nos campos de extermínio espalhados pela Europa, há quase 70 anos. O motivo da destruição foi justificado pela criação de uma raça ariana: separada, supostamente pura e superior em relação ao resto da humanidade – esta era a boçal e desumana concepção nazista.

Atualmente voltamos a testemunhar sinais e desejos de destruição, através de coquetéis Molotov lançados contra sinagogas na Ucrânia, de canecas vintage vendidas na Alemanha com uma discreta imagem de Hitler, em cartazes espalhados em Itajaí, Santa Catarina, celebrando o aniversário do carrasco nazista. Se pretendemos cumprir os mandamentos de sermos santos e de amarmos ao próximo como a nós mesmos, não temos o direito de ficarmos indiferentes às dificuldades daqueles com quem convivemos nem ao que têm sofrido nas mãos de gente opressora e racista. Temos que ser não somente filhos, mas construtores de outra realidade, sem nos separarmos dela, mas envolvidos – de todo coração, de toda a alma e com todas as forças; não é assim que Deus nos ordenou amá-Lo no Shemá?

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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