Drashá sobre Parashat Emor

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Na semana passada, estudamos na Torá que Deus ordenou a Moisés para falar ao povo: “Sejam santos porque Eu sou Santo” (Lev. 19:2). Esta semana a expressão se soma a outra, agora direcionada aos cohanim, os sacerdotes: “O Eterno disse a Moisés: ‘Emór (Fala) aos sacerdotes, filhos de Aharon… sejam santos para o seu Deus…” (Lev. 21:1-6). Uma maneira de compreendermos isso é que um sacerdote deve se esforçar, dia a dia, para se aproximar da condição de santidade de modo coerente com a posição que ocupa no cenário da vida religiosa – e decididamente, de pessoas consideradas líderes espirituais esperamos um pouco mais do que o usual.

Quero ilustrar isso com uma história da nossa tradição. Certa vez, um rabino contratou alguns pedreiros para construir a sua nova casa. Conforme diz a lei judaica, o pagamento deve feito ao fim de cada dia de trabalho. Quando se deu por encerrado o primeiro dia de construção, o rabino, insatisfeito com a obra, dispensou os pedreiros e não lhes pagou o salário do dia. Estes então levaram o caso para um bet din, uma corte rabínica, exigindo o pagamento do dia trabalhado. Após ouvir ambos os lados, o bet din deu ganho de causa aos pedreiros. O rabino julgado questionou a decisão: “Mas a lei não diz que eu devo pagar somente se o trabalho estiver de acordo com o combinado? Não é o que diz a lei? Eu não devo pagar por um trabalho mal feito ou não realizado”. O rabino que presidia o bet din, porém, respondeu: “Sim, esta é a lei, mas meu caro rabino, de uma pessoa como você espera-se um pouco mais do que isso”.

Para ser santo, um líder espiritual precisa assumir mais deveres, principalmente morais e éticos, a fim de servir de exemplo para sua comunidade. Ele deve se colocar no lugar do outro – no caso, dos pedreiros: se realizaram o seu trabalho, devem ser remunerados a contento. Aceitar o desmando do contratante e deixar de receber o que merece é simplesmente injusto. Conforme explica o Talmud, para espalhar a paz pelo mundo não podemos nos ver simplesmente como filhos de Deus (banaich, Seus filhos); mas sim como verdadeiros pedreiros, bonaich (Seus construtores), construtores de Deus.
O esforço maior na busca pela santidade não deve ser exigido apenas do sacerdote, mas de todos aqueles e aquelas que buscam, de fato, reger suas vidas de acordo com valores éticos elevados, especialmente aqueles que, numa comunidade religiosa, assumem cargos de liderança, quando se espera que sirvam de exemplo para toda a sua gente – conforme está escrito na Torá: “Vocês serão para Mim um reino de sacerdotes e um povo santo” (Êxodo 19:6).

Um reino de sacerdotes… se Deus espera que cada um de nós seja um sacerdote, e que assim sejamos um povo santo, então devemos cobrar de cada um de nós o mesmo esforço por uma vida mais santificada que exigimos dos nossos líderes espirituais.

A Torá parece nos dizer que cada um de nós, cada judeu e judia, deve se esforçar, dia a dia, para fazer um pouco mais na busca pela santidade. Este é um caminho árduo, cheio de subidas e descidas, de alegrias e tristezas, de vitórias e decepções, mas é o caminho a ser seguido. O que Deus, afinal de contas, espera de nós? Que a cada dia nos esforcemos uma pouco mais para alcançarmos uma vida cada vez mais plena e significativa.

Mas fica uma pergunta: por onde começar? O que eu preciso fazer para me tornar mais santo do que sou hoje? Será que Deus espera que eu me torne santo do dia para a noite? Será que Deus espera que eu me torne santo? Muitos judeus se afastam da vida judaica por considerarem isto muito difícil, ou mesmo impossível. Outros permanecem na vida judaica ao mesmo tempo em que ignoram este esforço a mais para, no mínimo, seguirem pelas trilhas da santidade – da ética, do respeito ao próximo.

Um bom início para começar é conectar-se com Deus através das nossas orações. Cada um de nós pode começar por abrir o sidur, concentrar-se, deixar-se envolver por suas orientações e dizer a si mesmo: “Se eu rezar com reverência, paciência, concentração e entusiasmo, se eu prestar atenção, por exemplo, aos valores transmitidos pelas bênçãos da manhã, pelo Shemá Israel, pelos mandamentos descritos na Torá e pelas palavras recomendadas pelos rabinos desde épocas milenares até os dias atuais – e passar a incorporá-los gradativamente ao meu dia a dia, poderei avançar passo a passo pelo caminho que leva à santidade: levantar-me e deitar-me pensando em Deus, ter mezuzot nas portas de casa a fim de santificar o meu lar; participar das datas judaicas junto à minha família e à minha comunidade; estudar as tradições e valores judaicos junto aos nossos amigos judeus – e principalmente praticá-las”. E se fizermos um pouco mais que seja para ir além das nossas obrigações, isso irá nos ajudar a avançar pela estrada da santidade.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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