Drashá sobre Parashat BeHar

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Se eu pudesse, ao menos te contar o que se enxerga lá do alto
Com céu aberto, limpo e claro ou com os olhos fechados
Se eu pudesse ao menos te levar comigo lá.
(A Montanha, Engenheiros do Hawaii)

Nos dias atuais tornou-se comum escutar no meio empresarial o desejo de se tirar um ano sabático. Após seis anos de dedicação ao trabalho, muitos executivos, profissionais liberais e até mesmo líderes religiosos estão dispostos a deixar seus afazeres diários para realizarem uma pausa prolongada, se possível de um ano inteiro, para se reciclarem. Alguns destes aproveitam o período para trabalhar voluntariamente em outro lugar, muitas vezes em algo muito diferente do que estão acostumados a fazer. Outros aproveitam o tempo para fazer aquele curso que suas atividades regulares não o permitem fazer.

Em geral, este ano sabático é justificado como um período para alimentar e revigorar o espírito. Para isso não faltam retiros espirituais e comunidades alternativas. Na Bahia, deve haver aqueles que largam tudo o que estão fazendo para subir no alto de um monte na Chapada Diamantina e lá viver, talvez, o que realmente gostariam de viver caso fossem de fato pessoas livres para fazerem o que quiserem. Entre estes, há aqueles que, passado um ano, decidem transformar o seu ano sabático em sua nova vida regular. O novo ano sabático, quem sabe, será tirado em algum lugar movimentado, “de volta à civilização”, para que o sujeito, agora com overdose de natureza e calmaria, possa alimentar o espírito com as novidades do mundo agitado lá fora.

Seja como for, às vezes tenho a impressão de que o ano sabático é um desejo daqueles que não se sentem livres no que fazem, ou que sonham com a grama mais verde do vizinho, que sempre parece mais verde e bela do que a do nosso quintal.

Já na Torá, o ano sabático se configura por uma pausa obrigatória não para algumas pessoas bem colocadas economicamente, entediadas e cansadas do seu dia a dia, mas por uma interrupção obrigatória na produção da terra e no trabalho de todos os seus habitantes. Neste ano a natureza deve estar livre para seguir o seu rumo sem a interferência humana. Só deve ser produzido o que nasce espontaneamente: “e os produtos do descanso da terra serão livres para comer, para vocês e para todos, igualmente” (Lev. 25:6).

O comentarista Rashi dizia que o ano sabático – ou Shnat Shemitá – permitiria que o ser humano buscasse a renovação e a revitalização através do descanso. Maimônides, por sua vez, focava a sua atenção na terra: ao passar por um período de tempo sem ser trabalhada, a terra poderia recuperar a sua vitalidade para voltar a ser trabalhada nos anos seguintes.

Além do ano sabático, há outra dimensão de Shabat, o Ano do Jubileu (Shnat Yovel): após sete ciclos de sete anos, o 50º ano deve ser proclamado como um ano de libertação de todas as desigualdades, por assim dizer, constituídas durante meio século de convivência entre as pessoas. Assim, por exemplo, quem perdeu suas terras deve retomá-las; quem perdeu até mesmo o controle sobre a sua força de trabalho e teve que vendê-la para outros mais poderosos, tornando-se escravo, deve ser libertado.
Valores éticos básicos, provavelmente desgastados com o tempo de convivência, são relembrados – estabelece-se, como se diria na psicanálise, uma renovação do contrato: “Você não enganará o seu companheiro e temerá o Seu Deus – pois Eu sou o Eterno, seu Deus” (Lev.25:17). Por mais de uma vez Deus nos lembra que somente Ele é Eterno: nem você, nem eu, nem a terra em que vivemos é eterna: “A terra não será vendida em perpetuidade, porque a terra é Minha; vocês são peregrinos e moradores da terra para Mim”. (Lev.25:23)

O fato de que não somos, de fato, proprietários da nossa terra, das nossas casas, dos nossos bens materiais – e por extensão, não somos donos de quem trabalha para nós, independente do regime de trabalho estabelecido – pode chocar aqueles que “se esquecem” de que somos todos mortais. Ao não se darem conta de que não são senhores do mundo, certas pessoas, que se consideram por demais poderosas, agem como se fossem deuses e pudessem dispor das vidas dos que os cercam, recompensando e punindo como assim desejassem. É neste ponto que o pensador Yeshayahu Leibowitz levanta o seu ponto de vista, que muda completamente a perspectiva e recoloca as coisas nos seus lugares: “Do ponto de vista da Torá, também a base para as relações entre o ser humano e o seu semelhante – e da organização de toda a realidade social – não se pautam por valores humanos, mas sim estão a serviço de Deus”.

Para Leibowitz, num sentido mais profundo a Torá não faz a distinção analítica, tão popular e conveniente para alguns, de separar “mitzvot bein adam lechaverô” (mandamentos entre o indivíduo e seu semelhante) das “mitzvot bein Adam laMakom” (mandamentos entre o indivíduo e Deus). Podemos dizer que, do alto do Monte Sinai, todas as mitzvot, as rituais e as éticas, devem ser cumpridas a serviço de Deus. Leibowitz defende seu ponto de vista ao citar que, justamente no serviço de Vidui (confissão) em Yom Kipur, o Dia do Perdão, praticamente todas as transgressões lembradas “que cometemos diante de Ti” são transgressões morais e não rituais. Em outras palavras: enganar o próximo é uma transgressão mais séria para Deus do que cumprir um certo ritual no minuto exato.
De volta à nossa parashá, estudamos que, junto com o período do descanso da terra no ano sabático e da libertação de escravos e dívidas no ano do Jubileu, somos relembrados a cumprir com a obrigação de deter a queda do irmão que empobrecer e encostar a sua mão em nós, pedindo ajuda – e por irmão a Torá se refere a todo ser humano, mesmo que seja um estrangeiro. Somos relembrados a não lucrar sobre aqueles que estão em posição mais frágil do que a nossa; e isso não porque é politicamente correto nem porque somos bonzinhos, mas porque Deus nos afirma que “Eu sou o Eterno seu Deus que tirei vocês da terra do Egito para lhes dar a terra de Canaã, para ser o seu Deus”. (Lev. 25:38)
No fim da leitura, se não está claro quem é o nosso Deus, lemos: “Não façam ídolos para vocês… guardem Meus Shabatot” (Lev. 26:1-2). Ao longo dos anos de convivência econômica, muitos de nós acabamos nos voltando para deuses materiais, grandes conglomerados empresariais, imagens de poder e de ostentação (palavra na moda, explicitada nos bailes funk, implícita em outras rodas de poder) e nos esquecemos de que, ao desrespeitarmos nossos semelhantes e causarmos sofrimento, estamos nos afastando de Deus.

Guardar os Seus Shabatot – seja o sétimo dia, o sétimo ano ou o final do ciclo de 49 anos – é o modo que a Torá tem para nos contar que devemos proteger a nossa sociedade da exploração do homem pelo homem; e que, de tempos em tempos, devemos parar tudo, subir ao topo do monte e observarmos do alto, sob outra perspectiva, se não estamos causando sofrimento desnecessário aos outros e à terra da qual vivemos por conta do nosso orgulho pessoal.

Então poderemos fazer como Bilam, aquele que, sem perspectivas, estava pronto para amaldiçoar o povo de Israel; mas do alto do monte, terminou por nos abençoar, ao afirmar “como são belas as suas casas, Jacob, suas moradas, Israel”.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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